
por Leo Cunha
O documentário Family Jams, lançado em 2009, acompanha a turnê que reuniu, cinco anos antes, os músicos Devendra Banhart, Joanna Newsom e a banda Vetiver, por pequenos bares, clubes e galerias de arte dos Estados Unidos.
Numa das últimas cenas um dos personagens lamenta que aqueles três grupos jamais conseguiriam repetir uma turnê tão despojada e intimista como aquela, pois ele acreditava que todos seriam, em breve, artistas bastante populares e precisariam de fazer shows muito mais “produzidos”. O mesmo poderia ser dito a respeito do próprio documentário. Dificilmente Kevin Barker – que além de cineasta foi também um dos músicos da turnê – conseguiria fazer outro filme nestas condições.
As imagens de Family Jams foram registradas quando Barker era aluno da escola de cinema da Columbia University e só posteriormente foram organizadas como um filme, a partir de um gancho argumentativo: o cineasta afirma ter duas famílias, a musical, mostrada no filme, e a real, que vive no Havaí. Esta analogia não se apresenta de forma orgânica no filme, pelo contrário, funciona mais como um truque de roteiro, que surge na primeira cena e é abandonado até o momento da dedicatória à avó, ao final do filme.
Por outro lado, se relevarmos este conceito frouxo, há um lado positivo no espírito assumidamente caseiro e experimental do filme. Barker capta alguns momentos de grande autenticidade, claramente casuais e não preparados, como a cena em que Joanna Newsom este dirigindo pela estrada e vê um aviãozinho (ultraleve?) destruído no acostamento. É evidente, e tocante, o nó na garganta da cantora, que lembra que seu pai também é aviador.
As performances musicais, propriamente ditas, vão agradar aos fãs e incomodar os que não têm muita paciência para as viagens meio folk meio psicodélicas da turma, mas retratam os shows de forma bem pessoal e próxima (até demais, reclama um dos músicos). A sensação é mesmo a de que estamos numa posição privilegiada, assistindo a uma série de jam sessions familiares, como sugere o título.
Vale lembrar, porém, que o título do filme tem um lado provocador, ao aludir ao disco “The Family Jams”, gravado no início dos anos 70 pelos membros da infame seita (que se auto-denominava “família”) de Charles Manson. No filme, é lida a crítica de um dos shows que se refere a Devendra, Newsom e companhia como uma seita. Os artistas debocham dessa crítica, mas, em alguns momentos, o grupo passa efetivamente a idéia de um culto – não religioso, mas um grupo que confronta de forma voluntariosa e veemente o status quo musical e social do país.
Barker não esconde – nem tenta esconder – sua admiração por esta postura anti-establishment dos colegas. Com relação a Banhart, sua postura chega a ser reverente, em alguns momentos. O compositor/instrumentista/cantor surge como uma mescla de gênio musical e guru esotérico neo-hippie. Quando o vemos sentado em cima de um furgão, é inevitável a lembrança de Chris McCandles, o rebelde idealista de Na Natureza Selvagem. Pode-se especular que talvez um talento artístico, como o de Banhart, talvez tivesse salvo Chris de sua tour-de-force auto-destrutiva.

Por outro lado, Banhart não transparece tanta autenticidade quanto se poderia esperar. Sua insistência em nunca usar camisa, nem mesmo durante uma sessão de autógrafos, parece mais uma pose do que efetivamente um gesto rebelde contra o sistema. Tanto que, quando conhece uma artista veterana, nesta mesma tarde de autógrafos, ele se acanha e acaba pedindo desculpas pelo peito nu.
É curiosa também, a cena em que os artistas estão criticando a “obsessão ocidental” pela especialização e pelos rótulos até que Banhart, concordando com a crítica, alega que gostaria que sua música fosse entendida como new age: “quero resgatar este termo new age, que vem sendo ridicularizado pela imprensa”, alega o músico, Um rótulo para apagar outros rótulos? Nestes momentos, Banhart e o filme não convencem. Felizmente são poucos.
Visto no Indie 2010
Filmes citados
Family Jams (2009 / Kevin Barker)
Na natureza selvagem (Into the wild, 2007 / Sean Penn)