APICHATPONG, PROGRAMA 1 - Curtas de Apichatpong Weerasethakul

 

por Gabriel Martins

 

O HINO: É o vídeo que abre todas as sessões de curtas. É o ritual, o convite, um dos travellings mais bonitos que já vi. Senhoras conversam sobre rituais, depois Apichatpong faz o seu ritual. Festa, um jogo, pessoas fazendo exercícios físicos, toda uma estrutura de cinema está montada. Mas o cinema acontece por fora desta estrutura, na vida. Um cinema feliz, de energia, de celebração. Energético para a sessão.

 

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Uma coisa que deve ser pensada logo de início é que esta é uma sessão de vídeos particular. Ela engloba filmes feitos pensados no formato de curta-metragem e filmes feitos pensados como vídeo instalação, persistência de uma mesma idéia e etc. Com isso, temos uma sessão diversa que tende a rejeitar o público que tenha outra expectativa em relação a uma sala de cinema.

 

Em certo momento gritaram ao longo da projeção: “o filme não vai começar não?”. Estávamos na metade de Teem, e o companheiro de Apichatpong ainda dormia. Esta imagem 3x4 ainda voltará em mais dois vídeos sobre Teem, que parecem persistir na mesma proposta. São vídeos longos, sendo este, “(Novembro 20)”, o mais curto a ser exibido no INDIE. Apichatpong passeia pelo corpo do rapaz com a câmera observando-o em sua calma. Impossível desvincular a visão já perceptível do diretor nos longas de seu trabalho nos videos. Ele parece sempre tentar filmar a paz, o interno, o espírito. Na impossibilidade, dá uma enorme atenção, em todo projeto, ao rosto, às expressões, às histórias narradas. Em Teem, a persistência da observação no silêncio se torna um compartilhamento de um afeto particular. Um afeto demonstrado com tanta serenidade que, mesmo sendo claramente uma imersão muito pessoal do diretor, nos toca pela sinceridade no processo.

 

E o mesmo acontece em Pessoas Luminosas, belo título que encabeça a documentação de uma cerimônia (um funeral, ao que parece). Bonito é como Apichatpong na simplicidade do dar atenção, parece compartilhar a energia existente ali naquele momento. Filmagem de um processo, feito com todo respeito pela vida e pela morte que os monges demonstram em mais de um filme do diretor. A recorrência de referências a vidas passadas e a espíritos encontra uma consonância belíssima com o cinema do tailandês. E é impressionante comprovar, cada vez mais, como o cinema pode ser efetivamente arte: espiritual, transcendental.

 

Três experimentos em preto e branco apontam como talvez os filmes mais complexos da sessão. O primeiro nem tanto devido ao seu caráter rítmico que traz uma verve cômica paralela a algumas diversões lynchianas (Absurda me vem à mente, talvez). 0116643225059 traz uma junção de imagens descontextualizadas, sem referência a nós, num misto de uma ligação com uma montagem imagética levada pelo som. Trabalho sobre a matéria, vindo dela e nela se acabando.

 

Terceiro Mundo busca, na ironia de seu título, documentar uma ilha ao sul da Tailândia possibilitando moradores locais a expressarem suas questões. Denso, pois o recorte que Apichatpong escolhe dar nega o formato padrão de documentário, buscando um olhar muito mais concentrado nas texturas e na plasticidade de cada plano. Sendo o último de uma sessão pesada como esta, Terceiro Mundo acaba sendo um filme carente de revisões mais calmas. Para além disso, o filme foi exibido quando, na sessão, a complexidade advinda da tela provocou algumas inquietações por parte do público – exigindo inclusive intervenção da produção da mostra -, o que atrapalhou em parte sua apreensão.

 

O terceiro experimento em preto e branco e, a meu ver, o mais bem sucedido, é Como a Fúria Incessante das Ondas na Arrebentação. Bastante impressionante, este material indefinido – experimento em sua forma bruta, buscas na imagem e no som – nos coloca entre um estado de deslocamento daquela imersão e ao mesmo tempo um deslumbramento com a potencialidade dos efeitos provocados na junção imagem e som. Difícil expressar claramente a experiência do filme, tanto como é difícil explicar exatamente porque aquelas fotos ali usadas lembram tanto a morte. Mas talvez seja isto, este hiato presente entre o gerar imagens e dar sentido a elas, este refletir do processo que Apichatpong sempre faz, este olhar para o cinema que o vê sempre enquanto o momento e o instaurar de algo que é transcendental. No preto e branco, Como a Fúria Incessante... talvez fale de memória e morte. E o vídeo como intermediador entre as coisas.

 

Janelas é um filme da descoberta de Apichatpong com o vídeo, seu primeiro filme com uma câmera do tipo. Como toda descoberta, implica fascinação, deslumbramento, e inevitavelmente uma persistência no efeito descoberto. Isso pode dar muito errado, em vários momentos encerrando-se num mero exercício pessoal vago. Neste caso, Apichatpong consegue não só fazer uma imagem maravilhosa como a significar de dentro: janelas no vídeo, multiplicadas, janelas da percepção. E nesta descoberta plástica que ali se perpetua, brinca-se de iludir e fantasiar. Um encantamento muito bem vindo.

 

A cada filme percebemos uma porção a mais deste gênio que consegue ter felicidade e leveza e ao mesmo tempo compromisso com a arte. É exatamente isto que faz o cinema mais bonito.

 

Filmes citados:

 

O hino (The Anthem, 2006/ Apichatpong Weerasethakul)

Pessoas Luminosas (Luminous People, 2007/ Apichatpong Weerasethaskul)

0116643225059 (idem, 1994/ Apichatpong Weerasethakul)

Como a fúria incessante das ondas na arrebentação (Like the relentless fury of the pounding waves, 1995/ Apichatpong Weerasethakul)

Teem (Novembro 20) (idem, 2007/ Apichatpong Weerasethakul)

Janelas (Windows, 1999/ Apichatpong Weerasethakul)

Terceiro Mundo (Third World, 1997/ Apichatpong Weerasethakul)

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