Caterpillar, de Koji Wakamatsu

 

por Marcelo Miranda

 

O drama do japonês Koji Wakamatsu se desenvolve em duas camadas: uma geral e uma intimista. A geral diz respeito à Segunda Guerra Mundial e é representada por imagens documentais de fortíssimo impacto visual que, permeando a narrativa em vários momentos, pontuam os efeitos buscados para a segunda camada, a intimista. Nesta, o espectador testemunha os efeitos da guerra sobre um país – ou, mais especificamente, sobre um casal. Ele, ex-combatente, voltou do front repleto de medalhas e agora considerado um Deus da Guerra; porém, faltam-lhe os dois braços, as duas pernas, a fala e a audição; é um homem literalmente ferido pelo confronto, incluindo a longa cicatriz que desfigura rosto e a cabeça. Ela é a esposa devotada, que, ao se deparar com a massa de carne que lhe trouxeram de volta da contenda mundial, tem a natural reação de sair correndo e gritar: “ele não é meu marido!”.

 

A franqueza de Caterpillar estará na constatação, cada vez mais evidente, de que o soldado, apesar de física e psicologicamente modificado, ainda é, sim, o marido dela. Wakamatsu permite ao público perceber não apenas o quanto a guerra pode causar de sofrimento explícito àquelas pessoas, mas também a forma como isso se dá na esfera implícita, na intimidade, no espaço entre quatro paredes. O ex-soldado, alquebrado, ainda é um homem e, como tal, tem as necessidades básicas: se lhe restou um estômago, ele tem fome; se lhe restaram um pênis e um cérebro, ele tem desejo.


Em cima de duas atividades essenciais do viver – comida e sexo –, Wakamatsu vai explorar a relação do casal. Sem se deixar prender só pelo envolvimento posterior ao retorno do front, o diretor insere elementos que remetem ao passado dos protagonistas. Com isso, tem-se um quadro quase completo da relação central, ao mesmo tempo em que são percebidas as modificações ocorridas no entrecho entre ir e voltar de um campo de batalha.

 

O discurso político de Caterpillar surgirá das memórias do ex-soldado. Por vezes explícito demais, Wakamatsu torna aquele terço de homem um sujeito próximo do detestável, um autêntico “criminoso de guerra” – alcunha que os didáticos letreiros finais fazem questão de frisar, enquanto assistimos a imagens reais da execução de acusados por barbáries no conflito.

Ainda que poderosas, as intenções denuncistas de Wakamatsu esbarram na sanha em soar o mais claro possível, o que aproxima o filme da torpeza na sequência em que se revelam os atos do Deus da Guerra: não se trata, aqui, de questionar o discurso do cineasta, mas as escolhas formais utilizadas por ele para atingir seus efeitos. Num encadeamento de imagens e sons, o diretor quase ultrapassa os limites do incômodo (necessário, no caso da abordagem escolhida) para chegar ao fetiche puro e simples de potencializar na tela um ato de horror já devidamente absorvido e processado. Ao querer “punir” o protagonista com as memórias de seus atos, Wakamatsu arrisca punir o espectador com a banalização daquilo que ele mais quer frisar.

 

A força – política e narrativa – de Caterpillar está bem mais concentrada na desintegração do relacionamento entre marido e esposa. Sempre olhando para as medalhas e os recortes de jornal exaltando seu Deus da Guerra, a mulher se vê impelida a realizar todos os desejos da lenda que mantém em casa como um animal indefeso.

O poder vai se manifestar independente das limitações físicas: sem falar nem ouvir, sem braços nem pernas, o ex-soldado manipula e se impõe diante da esposa, graças à força da História – que o tornou figura respeitável e acima de quaisquer questionamentos perante uma sociedade arcaica e carente de heróis – e à conjuntura social e econômica na qual ele está inadvertidamente inserido. A guinada se dará quando a mulher ficar cansada e assumir o controle da situação.

Novamente político, Wakamatsu faz da personagem a verdadeira imagem do Japão daquele período: oscilando entre o forte e o frágil, a vitória e a derrota, a dúvida diante do poderio do inimigo e a certeza de que é preciso lutar. Porém, diferente de seu país, ela vai conseguir suplantar o mal que se instalou em casa – mal este que, em busca de redenção, lança-se à purificação na sempre oportuna metáfora de um salto para a água. Novas imagens do pós-guerra, e o espectador entende em definitivo o “recado” de Caterpillar. Mas o que torna o filme passível de atenção é o que está além do “recado”; é o que ele tem de força cinematográfica para manter acesas nas nossas mentes algumas várias de suas imagens impressionantes.

 

*Visto no Indie 2010

 

FILMES CITADOS

Caterpillar (idem, 2010 / Koji Wakamatsu)

 

 

 

 

 

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