Hahaha, de Hong Sang-Soo

por Leonardo Amaral

 

Hong Sang-Soo talvez seja um dos cineastas da atualidade que mais se reinventa. Para um espectador mais desatento, a impressão é de que todos os filmes do cineasta são a mesma coisa. Impressão das mais errôneas. Principalmente a partir de Conto de Cinema, Sang-Soo recorre sim a uma temática parecida, dos cineastas ou escritores sempre em crise, com problemas de criação. Todavia, esses personagens cineastas quase nunca se encontram em seu ambiente de trabalho, em seu processo de criação. Ao contrário, acompanhamos, na tela, sua vida fora da produção cinematográfica, assistimos ao seu cotidiano. Bastante normal.

 

Através de um método simples de filmagem, através de um único plano sequência em cada cena, o diretor sul-coreano tem conseguido produzir muito. Tanto é que esse ano mostrou e ganhou o Um Certain Regard em Cannes e, em 2009, havia exibido no festival Like You Know It All, que também mostra um cineasta desempregado, mas que se considera um gênio não reconhecido (Sang-Soo oferece essas figuras como forma de mostra o quão patético é o ser humano).

 

Hahaha traz dois amigos que se reencontram depois de muito tempo e, enquanto bebem, contam como foram as férias de cada um em uma pequena cidade litorânea na Coréia do Sul. Sang-Soo filma bastante seus personagens a conversar em bares para relembrar fatos do passado. No entanto, nesse filme, ao invés de investir no plano sequência, ele opta pelo plano e contraplano. No entanto, não o plano e contraplano tradicionais, mas fotos em p&b dos dois amigos enquanto ouvimos no off as suas histórias. O recurso potencializa ainda mais a conversa e principalmente os flash backs. O cineasta trabalha uma inversão, ao mostrar o presente como fotografias, e o passado como algo bastante vivo.

 

E o plano sequência possibilita, mais uma vez, a mise-en-scène bastante apurada do diretor. A opção por longos planos, movimentos panorâmicos e sutis travellings garantem ao cineasta filmar não somente as nuances do cotidiano, mas, principalmente, investir na profundidade de campo e nos acontecimentos para além de uma primeira camada. Explico: se um dos personagens conversa com a mãe em uma mesa de bar, pela janela podemos ver a rua e nela observarmos um outro personagem que realiza algum tipo de ação ao fundo. Outro artifício do diretor é a utilização constante do zoom. Esse movimento dá a ver uma possibilidade de sempre denotar algo no plano, é claramente um direcionamento do olhar, e uma construção forte dentro do enquadramento. Em um deles, quatro amigos conversam em um restaurante, um deles fala de um mendigo que se encontra no cais do porto ao lado do estabelecimento. Enquanto o personagem fala, Sang-Soo lança um zoom sobre o mendigo, para que a imagem se contraponha claramente ao que expõe aquele que fala. Um recurso que, de alguma maneira, se relaciona ao das fotografias e off do presente dentro do filme. Em ambos, um rosto, uma expressão, a imagem como estatuto de uma existência e um cinema que parece sempre contar a mesma história. Entretanto, Sang-Soo sabe que são múltiplos os pontos de vista e que sempre vale a pena investir em um novo. E esse novo sempre garante uma reinvenção constante, a cada plano que surge na tela.

 

Filmes citados:

Hahaha (idem, 2010 – Hong Sang-Soo)

Like You Know It All (Jal aljido mothamyeonseo, 2009 – Hong Sang-Soo)

Leia novidades instantâneas em nossoblog.