Entrevista com Apichatpong Weerasethakul

 

por Marcelo Miranda

 

No meio do corre-corre entre viagens e exibição de filmes, Apichatpong Weerasethakul, 40, topou conceder uma entrevista por e-mail a este que escreve. O motivo da falta de tempo de Joe – apelido criado por ele mesmo para quem tem dificuldade de pronunciar seu nome – é que, em maio, o diretor se tornou o primeiro tailandês a ganhar a Palma de Ouro de melhor filme no Festival de Cannes, na França. O vitorioso foi Loong Boonmee Raleuk Chat (Tio Boonmee que Pode Reviver Suas Vidas Passadas, em tradução literal), o sexto longa-metragem de Joe.

 

Na 10ª edição do Indie – Mostra de Cinema Mundial, em Belo Horizonte, pela primeira vez estão sendo vistos no Brasil todos os seus trabalhos reunidos em cinema, pois nenhum deles foi lançado comercialmente no país. Há ainda uma seleção de 20 curtas feita pelo próprio diretor especialmente para a mostra.

 

Desde maio, como a vitória em Cannes mudou a sua rotina de trabalho?

Eu estou paralisado! Normalmente, sou um workaholic, mas a Palma de Ouro me trouxe a curiosidade das pessoas. Assim, a maioria do meu tempo agora é dedicada a entrevistas e a viajar com o Tio Boonmee.

 

A mostra Indie propôs uma retrospectiva completa da sua obra em Belo Horizonte e São Paulo. Como você define os tipos de filme que faz?

Essa retrospectiva é uma chance rara de ver todos os meus trabalhos de uma vez só. Eu adoraria vê-los também! Até para acompanhar o desenvolvimento dos meus próprios interesses... Infelizmente, não vou poder estar presente, devido à agenda pesada que tenho tido. O que os filmes têm em comum é o meu fascínio com as formas fílmicas. No cinema, quero expressar certas emoções que não podem ser explicitadas pela palavra impressa. Meus filmes são sempre pessoais, servem como meu diário que mais ou menos refletem a sociopolítica na Tailândia.

 

Seus filmes causam estranhamento e fascínio nas plateias ocidentais. Enxerga diferenças essenciais entre os filmes produzidos na Ásia em relação aos trabalhos do Ocidente?

Você tem que ver muitos filmes asiáticos para perceber que eles não são tão diferentes da produção no Ocidente. No cinema “mainstream”, usamos a mesma língua, uma "língua de Hollywood", se você quiser dizer assim. No entanto, existe um segmento de trabalhos que são diferentes. E eu acho que esses filmes rebeldes estão por toda parte, não importa se no Leste ou no Oeste. Os filmes de Hollywood precisam desses filmes independentes, e vice-versa, para que as nossas diferenças possam ser apreciadas.

 

Quais as maiores dificuldades de fazer cinema na Tailândia?

A censura e a autocensura. Existe uma lei na Tailândia de que não se pode fazer filmes que se configurem “ameaça à segurança nacional”. Qualquer coisa pode ser encaixada nesse jargão. Nas últimas décadas, os cineastas tailandeses têm trabalhado sob essa lei e, inconscientemente, acabam por censurar a si mesmos.Não é uma coisa só do cinema, mas está impregnado na nossa maneira de pensar também. Ao mesmo tempo, essa opressão é um impulso para a geração mais jovem de realizadores, que busca maneiras de se rebelar para se conectar com o resto do mundo. Nos velhos tempos, proibiam-se livros, que eram distribuídos clandestinamente. Agora, há as imagens em movimento. Eu prevejo que, nos próximos anos, vamos assistir a um monte de filmes interessantes da Tailândia que foram feitos em digital.

 

Seus filmes são bem recebidos no seu país?

Tio Boonmee foi lançado e teve ótimos resultados. As pessoas riam! O filme foi exibido por seis semanas num cinema sempre lotado. Eu gostaria de ter tido mais recursos para fazer outras cópias, mas acabamos com uma só (antes de lançar na Tailândia, tivemos que enviar a cópia original para a Alemanha). Agora, o filme está num circuito de cidades tailandesas. O público percebe as referências de filmes antigos e os momentos de humor. Tio Boonmee foi muito melhor recebido do que meus filmes anteriores.

 

Quais são seus cineastas favoritos?

Para citar alguns: Hou Hsiao-hsien, Tsai Ming-liang, Pedro Costa, Manoel de Oliveira, Jacques Rivette, John Cassavetes, Andy Warhol, Bruce Baillie. Eles são os únicos que me fazem ver o futuro.

 

Como artista, qual seu propósito em fazer filmes? O que o cinema significa para você?

Os filmes me servem para me conectar ao mundo. Eu sou introvertido, então o cinema é uma ferramenta para me comunicar.Caso contrário, sempre estaria em casa com meus cachorros. Cinema é uma vida paralela à que estou vivendo. Por vezes, essas duas vidas se intercedem e ecoam uma na outra. É por isso que as duas são inseparáveis. No entanto, não coloco o cinema no topo, porque, às vezes, acho que só estar vivo já é maravilhoso.

 

*Entrevista concedida para publicação no jornal O TEMPO e integralmente reproduzida aqui

Leia novidades instantâneas em nossoblog.