

escrito por Gabriel Martins
Em um mundo em que o cinema é cada vez mais tratado como um produto industrial é no mínimo renovador ver uma obra em que o cinema é tratado como uma vida. Um filme é uma vida, pulsante, que precisa ser concebida. Concebida, neste caso, por Apichatpong Weerasethakul.
O que faz toda diferença, pois se trata aqui de um gênio que, antes de uma visão interessante de cinema, tem uma visão interessante do mundo. É certo que estes são olhares que não necessariamente se dissociam, talvez o segundo levando imediatamente ao primeiro, mas é particular ver o quanto Apichatpong expressa muito bem os dois lados dentro dos filmes: há tanto uma preocupação em tratar das angústias do ser humano, de conflitos políticos locais e de questões existenciais quanto uma preocupação em fazer um filme esteticamente belo, instigante enquanto matéria cinematográfica.
E esta junção, misteriosa, traz obras-primas como os hoje projetados Misterioso Objeto ao Meio-Dia e Eternamente Sua. Eles são o caminho de entrada para uma obra que vai se intensificando cada vez mais, ganhando movimento (no sentido de câmera, literalmente) e mais liberdade ainda.
Eternamente Sua é o filme de Joe que mais segue uma proposta clássica, linear e minimalista. Não há rompimentos, mudanças bruscas em um sentido mais bruto como em Mal dos Trópicos ou Síndromes e um Século e nem uma aproximação do encanto do fragmento como em Misterioso Objeto ao Meio-Dia. Temos aqui três personagens centrais, Roong, Min e Orn, e o convite a conviver com eles. O filme decide começar – entendendo seus créditos iniciais como uma opção de separação – no pequeno exílio da cidade para a floresta. Antes disso os conflitos são traçados, os problemas relativos à imigração, tudo que se relaciona com o urbano, com a burocracia e a mesquinhez humana. Dos créditos, entoados belamente por uma versão thai de Samba de Verão, vamos rumo à floresta. Apichatpong deixa muito claro este deslocamento, posicionando estrategicamente a câmera em torno do veículo que transporta Min e Roong. Na floresta não há necessidade de um documento.
E esta utopia será descoberta pelo corpo e o modo como a natureza desvela esse corpo. É o rosto que se deslumbra com a paisagem, os pés e mãos que se distorcem pela água, Orn batizada ao mergulhar na água e uma ereção que é filmada rimando com as nuvens se abrindo no céu. Tudo isso é mostrado – importante frisar o “mostrar” - de maneira bem sutil, com poucos planos, muito tempo. É preciso querer ver para se apropriar daquela floresta que ali nos é entregue - e que voltará com diferentes sentidos nas próximas obras.
O impressionante do cinema é como que cada cineasta, teoricamente fazendo-se valer das mesmas ferramentas (câmera, som, espaço e personagens), conseguem obter resultados completamente diferentes, mesmo quando se utilizam de estratégias parecidas. Apichatpong Weerasethakul faz um cinema único, só seu, e que já exibe marcas muito fortes desde o primeiro trabalho. Maiores catarses ainda virão nas próximas sessões do Indie 2010. Por enquanto, permanece de Eternamente Sua o sabor de desfrutar o enorme talento de um gênio que sem dúvida alguma sabe como se expressar. Obra-prima.
*Visto no Indie 2010
Filmes citados:
Misterioso Objeto ao Meio-dia (Dokfa nai meuman, 2000/ Apichatpong Weerasethakul)
Eternamente Sua (Sud sanaeha, 2002/ Apichatpong Weerasethakul)
Mal dos Trópicos (Sud pralad, 2004/ Apichatpong Weerasethakul)
Síndromes e um Século (Sang sattawat, 2006 / Apichatpong Weerasethakul)