
por Leonardo Amaral
Quando Walter Benjamin detectou uma crise da experiência, ele fundamental falava de uma experiência compartilhada. Em seu clássico texto O narrador, o pensador reconhece não mais existir aquela figura que narra uma história e que a compartilha com outros ouvintes. Em outro texto do autor, Experiência e pobreza, Benjamin retoma a parábola de um velho vinheteiro, que, diante da morte próxima, comunica aos filhos a existência de um tesouro entre suas vinhas. Os rebentos cavam durante todo o verão sem descobrir onde estaria esse tesouro. Somente no outono, com uma grande produção de uvas, descobrem que o que o pai havia deixado era a própria experiência transmitida durante toda a sua vida. Logo, é dessa experiência que Benjamin nos fala ao, na modernidade, constatar a ‘morte’ desse narrador que compartilha sua experiência.
Pensemos agora a estrutura de Objeto Misterioso ao meio-dia. Apichatpong Weerasethakul, o Joe, viaja por toda a Tailândia, de norte a sul, e pede para que as pessoas continuem uma história que havia sido começada por outrem. No conjunto de tudo, apenas pequenas referências, como um objeto que pode se mimetizar e se transfigurar em diversos corpos. Algo caro ao cinema de Joe: a desmaterialização das coisas e a transferência de uma espécie de espírito por vários corpos (transmutação). Em seu primeiro longa-metragem, o cineasta já apresenta algumas das características que irá realizar ao longo da carreira, como, por exemplo, os travellings que passeiam pelo espaço. No final do filme, a câmera vaga de cômodo a cômodo pelos espaços onde o filme se desenvolve.
Mas voltemos ao artifício utilizado pelo diretor. As pessoas contam a história, fundam o próprio filme. Objeto Misterioso ao meio-dia mistura essas histórias. Assim como muitos filmes da atualidade, deixa com que a realidade invada a ficção e vice-versa. Após obter os depoimentos, uma nova alegoria: filmar as situações narradas usando, para tanto, atores amadores, quase sempre aqueles que ajudaram na narração. Ou seja, existe um compartilhamento de uma história, de uma narrativa que se constrói em uma experiência comum, que torna-se ainda mais potente quando, a partir do cinema, chega até o espectador, que passa a fazer parte daquela história também. E os narradores constroem essa história a partir de suas próprias experiências, de sua memória afetiva, da vida, por mais que essa mesma história seja constantemente invadida pelo fantástico. É a capacidade de fabular, de recriar o cotidiano.
De alguma forma, Joe retoma a figura do narrador em Objeto Misterioso ao meio-dia. Não o narrador do qual nos fala Benjamin, mas uma narração potencializada pela mediação da câmera com aqueles que falam. Uma espécie de dar voz, mas, sobretudo, se colocar em posição de escutar aquelas histórias, compartilhar uma experiência.
O filme está imerso no cotidiano banal daquelas pessoas. Não por menos, possui em seu final uma das mais belas concatenações de cenas do cinema contemporâneo. Crianças se amontoam no plano continuam a história contada anteriormente. Ao mesmo tempo, um garoto gordinho incomoda a todos aqueles que tentam falar ao microfone, que invade o plano. Depois, Apichatpong filma as crianças a nadar em uma represa e a jogar futebol. Uma história que está muito além do próprio filme, ela continua depois de ter sido compartilhada com o espectador.
Filmes citados:
Objeto Misterioso ao meio-dia (Dokfa Nai Meuman, 2000/Apichatpong Weerasethakul)