Os Olhos da Aranha, de Kiyoshi Kurosawa

por Leonardo Amaral

Os Olhos da Aranha é um filme de máfia sem glamour algum. Ao contrário de estilizar os movimentos, o que temos aqui é um modo bastante seco de se filmar. Nijiima vinga a filha morta há seis anos. No entanto, vinga-se do cara errado e tudo isso faz parte de um plano que o faria entrar para um gangue chefiada por um antigo amigo de escola.

 Kiyoshi Kurosawa não usa câmera lenta, montagem frenética, planos detalhes, atuações exacerbadas. Ele prefere um minimalismo na cena, uma economia de movimentos e planos conjuntos e médios, jamais o close-up. Logo, por mais que seus personagens sejam bastante conflituosos e seus filmes repletos de questões psicológicas, não é possível se dizer que existe uma invasão do interior desses mesmos personagens. Em Os Olhos de Serpente, menos ainda.

 De cara, duas coisas chamam bastante atenção: uma montagem mais ‘selvagem’ e uma decupagem simples, porém exímia. Explico com duas cenas que são especiais dentro do filme: Nijiima e Iwamatsu (líder do grupo) pretendem matar os integrantes de uma gangue rival. O primeiro vai sozinho para fazer o serviço, mas é impedido pelo outro segundos antes de atirar e provavelmente ser morto. Em seguida, um plano dos dois em nova conversa, na qual Iwamatsu revela que agora eles já haviam despertado a atenção dos adversários, logo, teriam que atacar, algo que Nijiima concorda dizendo que teriam de matar a todos. A fala é seguida por um corte que apresenta os homens da gangue rival mortos ao lado do carro. O quadro seguinte mostra um último integrante em fuga: um plano de conjunto revela que ele está cercado pelo grupo de Iwamatsu. Ele se encolhe no chão e vários tiros sem bala são desferidos em sua direção até que uma das armas funcione. Tudo feito de uma maneira muito rude e sem cortes e, no entanto, a cena é também construída por um tom de humor. Nesse filme, a violência e a brutalidade são sempre bem próximas do humor, tanto que os comparsas de Nijiima andam de patins no escritório da gangue, jogam frisbie e, quando preciso (e quase sempre é), matam bastante.

 A cena final poderia ser outro exemplo de montagem bastante rudimentar em Os Olhos da Aranha. Nijiima, enquanto pesca, diz a Iwamatsu que precisará se vingar de todos eles por ter sido enganado. Mal termina a frase, e tão logo um de seus amigos (o arqueólogo que busca pesquisa rochas do período pré-cambriano) é assassinado, vemos uma sequência em que, Hoshi e Maeda, membros do grupo, são assassinados em um grande monte de areia. Posteriormente, assistimos ao conflito entre Nijiima e Iwamatsu, que dura bem menos que um minuto e é vencido pelo primeiro. Para eliminar de vez a gangue, faltava Miki, a única mulher. Uma montagem de perseguição com três a quatro planos e uma pedrada na cabeça da garota, que praticamente jaz morta no meio de um matagal. Os Olhos da Aranha está na contramão do próprio gênero, subverte principalmente pela duração dos planos e pela montagem. Um filme que prima e se constrói por tudo isso. Sobretudo, um filme em constante avanço em sua anomia.

 

Visto no Indie 2010

 

Filmes citados:

Os Olhos da Aranha (Kumo no Hitomi, 1998 – Kiyoshi Kurosawa)

 

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