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Filmes Polvo entrevista Fernando Meirelles


Entrevista com: Fernando Meirelles
Entrevistado por: Marcelo Miranda


Conteúdo:

Muito antes de Cidade de Deus, Fernando Meirelles queria fazer do romance Ensaio sobre a Cegueira, do português José Saramago, seu primeiro filme para cinema. Não conseguiu comprar os direitos e partiu para outros projetos. Anos depois, eis que o roteiro de uma adaptação do livro caiu nas suas mãos, com um convite de um produtor canadense para que ele dirigisse a versão audiovisual. E Meirelles voltou ao trabalho que o mobilizara no começo da carreira.
 
Ensaio sobre a Cegueira, co-produção entre entre Brasil, Japão e Canadá, com orçamento de US$ 25 milhões, está nos cinemas, depois de estrear mundialmente no Festival de Cannes, em maio, onde passou na sessão de abertura. A Filmes Polvo conversou por e-mail com Fernando Meirelles a respeito do filme. Confira abaixo:
 
Ensaio sobre a Cegueira curiosamente se insere numa "tendência" percebida esse ano de produções com um certo viés apocalíptico. Foram assim Eu Sou a Lenda, Fim dos Tempos, O Nevoeiro e, agora, o seu filme, cada um deles trabalhando a questão do perigo surgido de repente que leva as pessoas aos seus próprios limites. Você dirigiu Cegueira tendo em mente que estava lidando com um universo limítrofe? Você buscou através da linguagem esse efeito de tensão constante, de thriller de ficção?

Você tem razão, saíram alguns filmes sobre colapso da civilização recentemente e não sei bem por qual razão. De qualquer maneira, Ensaio sobre a Cegueira é uma história escrita há 12 anos e adaptada há cinco.  Definitivamente não vejo este filme como ficção científica  apocalíptica. Se for visto assim, acho que é um filme  péssimo.  Diferentemente de Eu Sou a Lenda, este filme não se detém por mais que cinco minutos falando sobre a epidemia ou sobre sua possível cura, o que seria o padrão neste tipo de história. A cegueira aqui é mais uma desculpa para vermos como aquelas pessoas reagem a uma crise, como se comportam quando ninguém pode julgá-las. Isso acaba revelando quem somos de fato e, sinceramente, acho que depois de 6 mil anos de civilização, ainda somos animais muito primitivos, que ao menor sinal  de crise voltamos imediatamente a nossos instintos básicos. Tudo que importa nesta situação é comida  e sexo. A cegueira no filme não é tratada como uma doença, mas como um gancho para falarmos sobre a natureza humana e sobre nossa própria ignorância sobre nós mesmos.

  
Este é seu primeiro filme em que não existe explicitamente qualquer tipo de denúncia ou exposição social. Diferente de Domésticas (as empregadas), Cidade de Deus (o tráfico e a violência) e O Jardineiro Fiel (a indústria de remédios), Cegueira é mais ligado à reflexão humana, aos gestos entre iguais, à anarquia que brota do caos, à solidariedade que salva. Essa "mudança" de viés foi proposital? A vontade de filmar o livro de Saramago é que fez brotar o projeto ou existiu antes, da sua parte, a noção de quebrar a tendência que parecia estar sendo desenvolvida no seu cinema?

Li o livro e ele me impressionou muito, então resolvi ir mais fundo na experiência, entendendo-o melhor, e fazer um filme é  sempre uma boa maneira de se fazer isso. Não pensei nas implicações do projeto, ou em minha carreira, ao aceitá-lo,  mas talvez  o  fato de ser um filme tão diferente  dos outros que  fiz tenha me atraído. Sou movido a desafios e adoro fazer o que não sei fazer.  Atitude um pouco suicida, admito.

 
Qual foi o momento mais difícil pra você em todo o processo de realização de Cegueira?

Como sempre, foram as dúvidas em relação ao roteiro. É sempre esta a questão. Fazer um filme onde os atores não podem contar com seus olhares para expressar sentimentos e onde nem eu podia usar seus pontos de vista para colocar a câmera também foi um desafio e tanto. Mas o roteiro foi mais complicado, este é sempre a trave para mim.

  
Como você avalia a contribuição de Cesar Charlone no efeito estético que o filme provoca pelo excesso de branco?

Desde o início conversamos bastante em como traduzir visualmente a expriência da cegueira, pois claro que não poderíamos fazer um filme sem imagens. A solução foi tentarmos diferentes maneiras de "descontruir " as imagens. Com isto, às vezes, deixamos tudo tão branco que mal se percebe o contono do que está diante da câmera. Usamos imagens fora de foco, muitos reflexos para  desorientar  o espectador ou mesmo enquadramentos muito errados e desbalanceados. Fora isso, o som e a imagem no filme caminham bem separado, em geral não se vê quem está falando, e isso também ajuda na contrução deste mundo da cegueira. Quero crer.

 
Um elemento que chama muito a atenção no filme é a recorrência de reflexos, seja em espelhos, seja em vidros de janelas. É como se os personagens, na ausência da visão, fossem sempre reflexos deles mesmos. Esse foi um elemento de linguagem consciente? Como se decidiu por isso?

Pensei também nesta idéia de que reflexos são imagens ilusórias e de como nos deixamos iludir pela superficie e a aparência das coisas. Mas isso é viagem de diretor, o espectador não precisa ir até aí para entrar  ou apreciar o filme.

 
O vídeo que circulou na internet mostrando a reação do José Saramago ao filme tornou-se um hit na web. O que aconteceu após aquele momento? Vocês voltaram a falar do filme? Como foi?

Depois da sessão, fomos jantar e, evidentemente, ele comentou as cenas que o haviam tocado mais profundamente. Disse que o filme não é tão parecido com seu livro e que nem esperava que fosse, mas que o espírito está lá. Eu não poderia ter recebido maior gratificação. Li uma entrevista recente onde um jornalista lhe perguntou se a adaptação era satisfatória e ele respondeu que era "mais do que satisfatória, era até brilhante". O que mais preciso ler depois disso? Agora é só esperar o ego desinchar.