
David Lynch em Belo Horizonte

Encontrar um ícone do cinema contemporâneo não é experiência das mais comuns. Na terça-feira, dia 5 de agosto, a equipe do Filmes Polvo teve a honrosa oportunidade de conhecer, ouvir e conversar com David Lynch. O mítico realizador de Eraserhead, O Homem-Elefante, Veludo Azul, Twin Peaks, A Estrada Perdida, Cidade dos Sonhos, História Real e Império dos Sonhos esteve em Belo Horizonte para lançar Em Águas Profundas, um livro de sua autoria sobre meditação transcendental.
Em encontro com a imprensa mineira, Lynch mostrou-se simpático, solícito, bem-humorado e fortemente adepto das idéias sobre meditação – que ele pratica duas vezes ao dia há 35 anos. Aliás, ele parecia querer falar só disso. Trazê-lo para o cinema - tema que interessava a todos presentes no lugar - era tarefa hercúlea, somente bem desenvolvida nas conversas individuais.
Nos tumultos típicos de uma coletiva com alguma figura internacional de prestígio, Filmes Polvo conseguiu ouvir Lynch com mais atenção em duas ocasiões. Uma foi na entrevista conduzida pelo colega Renato Silveira, co-editor do Cinema em Cena e editor do Cinematório; em seguida, graças ao vice-presidente da Fundação David Lynch, Robert Roth (a quem somos todos muito gratos pela gentileza), conseguimos uma rápida conversa com o cineasta, conduzida pelos polvos Rafael Ciccarini, Marcelo Miranda e Gabriel Martins - com direito a risadas, comentários mais informais e um DVD de Macunaíma, de Joaquim Pedro de Andrade, dado de presente ao diretor.
Abaixo você confere momentos das duas ocasiões. Na primeira parte, trechos da conversa de Lynch com Renato Silveira, onde estavam também presentes o Filmes Polvo e diversos veículos de rádio de Belo Horizonte. Logo abaixo, a conversa individual do cineasta com o Filmes Polvo. Mais detalhes e curiosidades da vinda de David Lynch a Belo Horizonte (incluindo fotos e tietagem) podem ser vistos no nosso blog. As fotografias foram gentilmente cedidas por Liliane Pelegrini.

A internet
A internet é a nova sala de cinema, a nova televisão, a nova casa para praticamente qualquer coisa. Eles dizem que a distribuição em cinemas está caindo, a de DVDs está caindo, a de CDs também. Você sabe o que aconteceu com a indústria fonográfica? Está caindo. Tudo está indo para a internet. A qualidade da internet costumava ser bem ruim, agora está melhorando a cada segundo. É a casa para praticamente qualquer coisa.
A meditação transcendental
Quando você sai da meditação você se sente renovado, energizado, e daí você tenta pegar idéias e começar a trabalhar, feliz e com muita energia. A vida parece se tornar cada vez melhor. Às vezes, na meditação, você tem ótimas idéias, mas tem que sair por um tempo para anotá-las e não esquecê-las. Na maioria das vezes você tem idéias fora da meditação, mas usa a meditação para expandir a consciência e daí, com a consciência expandida, você pega cada vez mais idéias. Uma vez eu estava meditando, quando trabalhava em Cidade dos Sonhos. O filme foi feito para um piloto de TV, e os produtores odiaram o piloto. Daí eu tive a chance de transforma-lo em um longa-metragem, mas eu não tinha nenhuma idéia. E não ter idéias foi uma situação de certa forma crítica, pois ali eu tinha a oportunidade de transformar um piloto em um longa-metragem. Então, em uma noite, eu entrei na meditação. No mesmo dia tinham me dado luz verde para produzir o longa-metragem, e eu sem idéias! Eu comecei a meditar, indo lá no fundo, e, como um colar de pérolas (gesticulando), vieram todas as idéias que eu precisava. Como um colar de pérolas...
Eu fiz filmes de histórias bem lineares e fiz filmes mais abstratos, não-lineares. Isso depende da idéia pela qual me apaixono. Então eu poderia dizer que não sei o que farei em seguida, não sei se será não-linear, mas idéias virão e... bum!... eu estou apaixonado. Eu vejo, escuto, sinto, estou apaixonado, e eu sei o que vou fazer. E pode ser linear ou pode ser abstrato. Mesmo os filmes não-lineares possuem várias coisas concretas para você se agarrar. Um filme pode ser totalmente abstrato, mas eu penso que as pessoas podem se perder. Eu gosto de histórias que possuem as duas coisas: concretas e abstratas.
Filmes perturbadores
Sempre me fazem essa pergunta, óbvio: "se você é tão feliz, David, como pode fazer filmes tão perturbadores?" Nem todos são perturbadores. Mas admito que exista muita perturbação. E eu digo a mesma coisa todas as vezes: histórias, ao longo do tempo e rumo ao futuro, sempre terão contrastes. Histórias não são simplesmente uma fala feliz ou uma fala terrível. Elas são misturas, contrastes, grandes torturas, tormentos, coisas belas aparecendo... Tudo que diz respeito à condição humana faz uma história. Histórias refletem o nosso mundo. E o nosso mundo atualmente está bem perturbado. Então existem histórias perturbadoras que estão vindo de idéias do nosso mundo. Mas, no fim das contas, eu digo: o artista não precisa sofrer para mostrar o sofrimento. Tenha o sofrimento no filme, tenha o sofrimento no livro, mas saia do filme, saia do livro, para um mundo de paz, uma vida de paz. Você precisa entender o sofrimento, você precisa entender a condição humana, o máximo que puder. O entendimento passa a crescer rapidamente quando você transcende, experimentando esse grande oceano. É um oceano de conhecimento infinito. Então chegue lá e você pode realizar todas essas idéias. Mas você não estará sofrendo, e você ficará tão feliz na realização... Você está apaixonado pelas idéias, você vê um modo de traduzi-las para algum meio, e é uma coisa maravilhosa.
Estranhezas
Se vem uma idéia de um quarto, e o quarto é meio azul e verde, e ele está cheio de pessoas estranhas e pequenas, e você se apaixonar por essa idéia, então você precisa sair e achar pessoas estranhas e pequenas. Depende da idéia.

É, eu sabia disso e não gosto. Não gosto que traduzam títulos.
Sonhos noturnos raramente me influenciam. Muitas vezes sonhos que acontecem durante o dia trazem idéias. E eu sempre digo que amo a lógica dos sonhos. E cinema pode dizer a lógica dos sonhos. Assim como coisas concretas.
Definitivamente eu nunca filmarei em película novamente. Nunca. É lento, pesado e já era. O digital está aqui. Se eu fosse fazer um filme amanhã, compraria câmeras pequenas.
O senhor já disse que a internet é o futuro dos filmes, e que vai trabalhar mais com a internet...
Os filmes de todo mundo terminarão na internet, assim como as músicas. É a forma como as coisas estão indo.
Planeja fazer algo como Rabbits ou outras séries para o seu website?
Eu não sei quais idéias virão. Eu espero poder renovar meu site, mas toma muito tempo e eu estou fazendo várias outras coisas no momento. Mas um dia eu quero renovar o site e produzir mais conteúdo.
O senhor acha que a meditação te ajudou a lidar com a crítica e com a mídia?
Com certeza (risos). Críticos de cinema são seres humanos, eles dão suas opiniões. A única diferença é que todo mundo dá sua opinião, mas eles podem escrevê-la e publicá-la. Eu estou bem em relação ao que as pessoas dizem. Se eu acredito no trabalho, se fiz o melhor que eu pude, não importa o que as pessoas falarão, seja positivo ou negativo. É assim que as coisas funcionam.
Teve boas surpresas lendo o que pessoas escreveram sobre seu trabalho?
Às vezes sou interessado nisso, mas normalmente eu gosto de partir adiante e trabalhar no próximo projeto.