
por Rafael Ciccarini
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Se um dos maiores encantos do cinema clássico, quando feito com grandeza, é sua enorme capacidade de síntese: de significar, simbolizar, comparar, metaforizar e sugerir a partir de artifícios aparentemente simples e óbvios; de construir diferentes níveis e texturas de interpretação e diálogo ‘apenas’ lidando com enquadramento, encenação, composição e montagem. Níveis e texturas esses que muitas vezes vão ultrapassar o nível dramático para ganhar re-significação e estatuto próprio e autônomo, então poucos nomes podem de alguma forma sintetizar o cinema clássico como o de John Wayne.
Aqui temos um signo, uma figura cuja força e potência reafirmam o específico cinematográfico ao encontrar uma presença e expressão marcante e indelével. Wayne parece zombar de uma certa idéia do que seria uma “boa atuação”, que, vinda do teatro, traz consigo uma série de pressupostos apenas de ordem dramática e que se vê pálida e ineficaz ao tentar entender o que ocorre quando John Wayne está em frente a uma câmera, especialmente quando por trás dessa câmera está gente do calibre de Hawks e Ford, duas de suas companhias mais comuns.
Conservador, libertário, machista, paternal, sincero, confiável, corajoso, obstinado, teimoso. John Wayne, ele próprio e seus personagens (havia alguma diferença?) tinha tudo disso um pouco. É a própria contradição dos EUA expressa no território daquele que, segundo André Bazin, era o cinema americano por excelência: o Western. Ora, se é o Western o cinema americano por excelência e Wayne a personificação desse gênero, temos, por silogismo básico, John Wayne como sendo a síntese do cinema americano. É o que vamos tentar discutir nessa edição especial dedicada à figura ímpar desse ícone da história do cinema que recentemente faria 100 anos, caso não tivesse nos deixado em 1979. São textos que vão da análise a filmes centrais em sua carreira a alguns secundários e menos comentados até uma de suas poucas incursões como diretor.
Para começar, temos, em Back-Projection, o texto de Matheus Cajaíba sobre Rio Vermelho, obra-prima dirigida por Howard Hawks que aqui encontra detida análise a partir da figura mítica de Wayne e de sua ligação simbólica com os próprios EUA. Também em Raccord, de Ursula Rösele, temos outra obra fundamental: O Homem Que Matou o Facínora, de John Ford, num texto que busca entender a complexa relação entre valores (tradição, liberdade, honra, amizade, discurso e verdade) encerrada no personagem de Wayne e o futuro que seu ‘destino’ lhe reserva.
Grande abraço!
Já em uma perspectiva mais crítica estão os textos de Mariana Souto e Douglas Lisboa. A primeira, em Close, analisa Quando Um Homem é Homem, filme de 1963 e a forma com que a figura de Wayne personaliza o discurso misógino do mesmo, ainda que, por outro lado, apresente uma visão mais libertária sobre a figura dos índios. Enquanto Douglas, em Cinema Revolução, fala sobre Os Boinas Verdes, filme de 68 e dirigido por Wayne numa análise bastante rigorosa de sua técnica, encenação e ideologia.
Seguindo, outras duas obras-primas ganham rica análise comparativa: em Cinetoscópio, Leonardo Amaral aproxima Rastros de Ódio, de Ford e Taxi Driver, de Martin Scorsese, buscando ao mesmo tempo discutir como Scorsese relê o clássico a partir de seu universo pessoal e também como as figuras de Ethan Edwards (Wayne) e Travis Bickle (De Niro) têm muito mais pontos de encontro do que podemos supor à primeira vista. E por fim temos, em Plano Seqüência, a abordagem de um filme pouco comentado da carreira de Wayne, Jamais Fomos Vencidos, no qual Gabriel Martins consegue definir a relação indissociável entre John Wayne e o cinema clássico.
Esperamos a partir dessa gama diversa de textos oferecer a vocês leitores a possibilidade de pensarem a figura de Wayne por vários prismas e abordagens diferentes, sempre a partir da idéia de que não se compreende o cinema americano sem um mergulho visceral no universo do qual ele foi o maior representante e símbolo. De nossa parte, certamente aprendemos muito. No mais, do dia 14 ao dia 19 de Junho Filmes Polvo estará cobrindo a 2ª Mostra de Cinema de Ouro Preto e trará textos sobre vários dos longas, curtas e vídeos que lá serão exibidos, além de análises dos debates e encontros que por lá terão lugar. Acompanhem a programação e esperamos vocês em nossa cobertura.