
por Rafael Ciccarini
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Bergman e Antonioni. A perda de um deles já seria motivo para abalar decisivamente o seio de Filmes Polvo, como, de fato, foi: mal foi divulgada a primeira notícia e nossa lista interna já tinha diversas manifestações que iam da tristeza e inconformismo às primeiras tentativas de alívio via homenagem e, sobretudo, ação: temos que fazer uma edição especial sobre Ingmar Bergman. Um consenso tão triste quanto pleno.
Não é difícil de entender: o diretor sueco tem participação fundamental na formação cinéfila e, porque não, existencial, de praticamente toda a redação. Godard disse certa vez, em texto antológico a respeito de Mônica e o Desejo, que velhice é feiúra e que – sorte nossa – o cinema preserva a beleza. Ele, claro, não se referia primordialmente à beleza e nem à velhice do corpo. Escrevia - em 1958 - inspirado e tomado pela força libertária que emergia daquela encenação visual da juventude a qual chamaria de “o primeiro filme baudelairiano” pelo olhar essencialmente moderno ali engendrado. Mônica é de 1952.
Bergman filma ao mesmo tempo, nos parece, a beleza e a tragédia do movimento da vida: não por acaso, a respeito do mesmo filme, Godard assinala aquele que seria o mais triste plano da história do cinema: quando Mônica, tomada pelo desprezo por si mesma, olha para a câmera, colocando o espectador como testemunha e cúmplice daquele momento. Entre a angústia e o esplendor, entre a admiração distante e a completa imersão, entre o sublime e o trágico, se faz a relação de cada um de nós com esse cinema que permanecerá para sempre além das definições.
E em meio a todo esse mosaico de sentimentos, eis que nos chega a notícia de Antonioni. E agora? Ia-se o outro grande mestre vivo do cinema. Se Bergman tem uma relação seminal com a cinefilia de quem faz essa revista, Antonioni era talvez o cineasta do calor da hora, alguém cuja extrema complexidade de suas articulações visuais e sonoras vinha instigando e movendo as paixões e mentes da revista.
O desafio era compreender Antonioni para além das simplificações óbvias, ainda que algo verdadeiras: cineasta do tédio e da incomunicabilidade. Continua sendo. Se Godard falara da modernidade em Bergman, aqui temos o cineasta da modernidade por excelência, alguém que redimensionou as relações entre coisa filmada, tempo e espaço, levando a significação para além da narratividade e das relações simples de causa e efeito. Antonioni filma a inevitável fragmentação do discurso e tenta de alguma forma reconstruí-lo a partir desse fragmento.
Esta edição é a nossa tentativa de responder a tamanho movimento do destino, mesmo que ainda completamente envoltos por ele. Comecemos pelo início: em sua estréia em Filmes Polvo, Marcelo Miranda, jornalista, crítico e amigo aborda, em Contra-plongée, o primeiro e pouquíssimo visto e falado longa-metragem de Bergman, Crise, de 1946, no qual, ver-se-á, está muito do que marcará todo o restante de sua obra. Aproveitamos para saudar com entusiasmo a entrada de nosso mais novo polvo.
Adentrando a obra do sueco, temos vários textos: Gabriel Martins, em Plano-Sequência, fala de Sonata de Outono buscando dissecar as estratégias de linguagem e técnica que dão a essa obra fundamental sua intensa expressividade. Já Ursula Rösele, em Raccord, vai a Fanny e Alexander para refletir sobre cinema, teatro, sonho e realidade, naquele que é o mais autobiográfico dos filmes de um diretor cuja obra inteira talvez o seja. Ainda, em Cinema Revolução, Douglas Lisboa analisa Persona, intrincado exercício metalingüístico-existencial, cuja força e mistério parecem aumentar à medida que os anos passam e a ele retornamos. Continuando, temos a imersão emocionada de João Toledo em alguns títulos decisivos, com destaque para Noites de Circo e para os três filmes que compõem a assim denominada Trilogia do Silêncio: Através do Espelho, Luz de Inverno e O Silêncio.
Já em Cinetoscópio, Leonardo Amaral traz à baila A Noite, filme decisivo de Michelangelo Antonioni, a quem homenageia em texto bastante pessoal, que também aborda Morangos Silvestres. Aliás, é justamente esta outra obra-prima que Mariana Souto analisa em seu Close, onde aproxima o filme de Bergman a Desconstruindo Harry, de Woody Allen, talvez o autor contemporâneo mais influenciado pelo universo bergmaniano. Por fim, em Fora de Quadro, Nísio Teixeira traz à tona outro Antonioni essencial: Blow Up: Depois daquele Beijo, o qual aproxima a Sonhos de Mulheres, obra relativamente esquecida de Ingmar Bergman, que aqui ganha luz a partir desse contraste nada óbvio.
Pois bem. Antes de nos despedirmos, a revista faz questão de agradecer e abraçar ao polvo Matheus Cajaíba pelo tempo em que ilustrou nossas fileiras: permanecem, claro, além de seus textos divertidos e inteligentes, os vínculos de amizade e cinefilia, além da alegria e satisfação em razão de suas recentes conquistas pessoais. Bem... é isso. A Ingmar Bergman e Michelangelo Antonioni, nosso agradecimento e carinho; a vocês leitores, nossa tentativa de compartilhá-los.