por Rafael Ciccarini

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Considerando as dificuldades em se descrever o que vem a ser esse tal ‘cinema contemporâneo’, sem dúvida é nesse momento do ano que ele se encontra em período de ebulição: nunca se discute, se pensa e se vê tantos filmes de tantos lugares diferentes quanto na época das Mostras do Rio e de São Paulo. É nesse contexto que vem ao ar mais essa edição, que ao mesmo tempo em que aborda diversas variações sobre o cinema ‘atual’, traz também textos que, ainda que em termos de idade pertençam a um outro tempo histórico, a nosso ver, do ponto de vista de seu frescor e potência, são muito mais instigantes como formas de diálogo com o presente do que muito do que, por vezes, vemos por aí.

Antes de adentrarmos aos textos e ainda falando em mostras e cinema contemporâneo, acontece, em Belo Horizonte, do dia 05 a 11 de Outubro, o INDIE 2007, uma bela mostra panorâmica do cinema mundial inteiramente gratuita ao público. Filmes Polvo, claro, estará presente ao evento e trará a vocês diversos textos sobre os vários filmes que lá serão exibidos. Dentro das várias opções da programação, fazemos questão de indicar ao leitor a estréia em Belo Horizonte do novo filme de David Lynch, Inland Empire, e a mostra do diretor sul-coreano Hong Sang-Soo, dos mais celebrados e discutidos da atualidade e totalmente inédito a públicos mineiros: serão exibidos seis de seus longas-metragens - a quase totalidade de sua obra. Vejam tudo e voltem para discutir conosco.

Aos textos, portanto. Nessa edição são abordados os trabalhos de diversos diretores dos mais variados países: o austríaco Michael Haneke, em Corte Seco, tem seu Código Desconhecido comparado a Babel, do mexicano Alejandro Gonzáles Iñárritu, em texto de João Toledo que analisa a forma com que ambos lidam com o que chamamos de ‘mundo real’. Já Marcelo Miranda, em Contra-Plongée, aborda os intensos jogos cinematográficos do dinamarquês Lars Von Trier a partir do seu mais recente filme: O Grande Chefe. Outro grande nome que ganha as páginas dessa edição é o do francês Jean Rouch, abordado por Nísio Teixeira em seu Fora de Quadro, a partir de seu contato com a obra em recente mostra em Ouro Preto e dando seqüência à sua reflexão sobre o cinema etnográfico.

Há também retornos a filmes, diretores e movimentos que permanecem instigando os redatores da revista: Mariana Souto, em seu Close, retoma Abril Despedaçado a partir de sua relação com a articulação visual e temática construída por Walter Salles em seu filme. Já Ursula Rösele, em seu Raccord, aborda o chamado mockumentary (ou falso-documentário), a partir de Zelig, de Woody Allen, obra de inegável inventividade narrativa e técnica. Ainda temos uma revisita ao neo-realismo italiano, esse movimento seminal da história do cinema: Leonardo Amaral, em Cinetoscópio, relê o cinema de Vittorio de Sica e discute as possibilidades de atualização das estratégias realistas ao cinema contemporâneo.

Encerrando, temos Gabriel Martins, que em seu Plano Seqüência nos traz nada menos que quatro textos: duas análises dos trabalhos e das formas de abordagem de dois dos nomes mais incensados do cinema atual: Paul Greengrass e Alexander Payne e outros dois textos sobre filmes que se encontram no circuito de exibição: o mais recente e desafiador trabalho de Alain Resnais: Medos Privados em Lugares Públicos – que, cabe afirmar - teve impressionante acolhida no interior da redação de Filmes Polvo e finalmente Person, de Marina Person, filha do diretor Luis Sérgio Person, cujo documentário já tinha ganhado nossas páginas anteriormente, mas que retorna sob nova perspectiva.

Diretores, filmes, movimentos, mostras... assim vai se movimentando o cinema pelo tempo e assim vamos nós, cambaleando firmemente atrás dele. Aproveitem os textos e nos digam o que acham deles. Confiram também a cobertura do INDIE, que começa no dia 05, primeiro dia de Festival. Sigamos, pois.

 

Rafael Ciccarini - Editor