
por Rafael Ciccarini
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Eis que vem ao ar nossa 39ª edição. Como sabe nosso leitor habitual, nossas edições têm sido marcadas pela prévia liberdade dos redatores em relação a seus temas e enfoques, o que resulta inevitavelmente em edições variadas, em que o cinema pode ser abordado em seus mais diferentes aspectos e formas. Por outro lado, pode-se argumentar que uma pauta prévia, um foco mais preciso, daria à revista mais força e peso: sob certa perspectiva, a escolha pela variedade significaria uma renúncia a tomadas de posição, um suposto lugar cômodo, que teria no argumento da variedade sua justificativa ideal.
Longe de ter essa questão resolvida – e sequer apresentada em sua devida complexidade – a trazemos à tona por dois motivos: pelo simples desejo de compartilhar com o leitor uma inquietação que é imanente à Filmes Polvo e que, portanto, sempre fará parte da dialética que nos movimenta, mas também para chamar atenção a momentos como esse, quando espontaneamente uma determinada pauta emerge e, sem combinação prévia, vemos nascer textos que compartilham de inquietações idênticas, análogas ou complementares.
Ao vermos, então, o cinema brasileiro contemporâneo (capa) emergindo como preocupação estética e política mais marcante desta edição, vemos, na prática, que muitas vezes as respostas para determinadas perguntas virão muito mais das ações, dos movimentos e das coisas elas próprias que das idéias previamente assumidas antes delas. A política que vem da ação, não o contrário. Não se trata, entretanto, de nenhuma defesa de modus operandi ou crítica de outros, mas de uma pequena reflexão a partir de um momento singular, o qual queríamos compartilhar com nossos leitores.
Até porque, inclusive, a presente edição, ainda que traga esse movimento espontâneo, também é bastante diversificada: de filmes recentemente oscarizáveis como Bravura Indômita, de Joel e Ethan Coen e Cisne Negro, de Darren Aronofsky, a Carlos, o tour de force de Oliver Assayas, bem como ensaio sobre o cinema de Paul Schrader e ainda mais um texto que vem completar o verdadeiro dossiê Michel Brault, que vem sendo publicado ao longo das edições da revista. Já os textos que, como já dito, promovem um – acreditamos – prolífico dialogo entre si são “A política da juventude”, “Afinal, onde está o cinema brasileiro”, “Entre o ego e a impaciência: sintomas de um cinema de desperdícios” e “Ficção, documentário, fissão: Avenida Brasília Formosa e o Céu Sobre os Ombros”, bem como texto sobre “Lilian M: Relatório Confidencial”, de Carlos Reichenbach.
Fiquem à vontade e boa leitura. Sem cristalizarmos pressupostos – e nem abandoná-los – seguimos adiante com o mesmo entusiasmo e o sentimento de tudo a ser feito que nos move desde sempre.
Abraços sinceros dos polvos,
Rafael Ciccarini
Editor
Textos da Edição:
Fade-out: Carlos
Story Line: Cisne Negro: Darren Aronofsky e a autodestruição
Cinetoscópio: Afinal, onde está o cinema brasileiro?
A política da juventude: entre a utopia do caminho e a imagem utópica do pensamento singular
Fora de Quadro: Michel Brault (final) - Les enfants de Néant e Les Ordres em conexão com Octobre, de Pierre Falardeau: jogos mortais de conformismo ou resistência
Plano Sequência: Ficção, documentário, fissão: Avenida Brasília Formosa e O céu sobre os ombros
Raccord: Entre o ego e a impaciência: sintomas de um cinema de desperdícios
Bravura Indômita: releitura para a América de hoje
Corte Seco: Lilian M: Relatório Confidencial
Contra-Plongée: “Adam Resurrected”, ou “Adam – Memórias de uma Guerra”: a profissão de fé de Paul Schrader