por Rafael Ciccarini

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Viver o cinema. Jean Cocteau nos disse: “viva a jovem musa do cinema, pois ela possui o mistério do sonho”. Certo ou errado, mais ou menos acuradamente, indo ao ponto ou deliberadamente contra ele, o certo é que depois dessas 12 Edições se há algo que se persegue em cada um dos textos, paixões e vontades desta revista é a vontade (destino?) de buscar o sonho, seja ele qual for, vivendo o mais intensamente possível cada um desses filmes e diretores que escolhemos serem parte importante daquilo que chamamos de “a nossa vida”.

E esta 12ª talvez seja a que dê a dimensão do cinema mais como uma idéia a ser eternamente entendida e vivida em seus profundos e fascinantes paradoxos do que algo concretamente definível e determinável: “o que é cinema?” tem respostas várias a depender de quem pergunta, de onde, com que interesses e em que tempo. Do político ao poético (ou ambos), passando pela personificação do cinema enquanto potência industrial ou pelo cinema enquanto (re)descoberta do outro pelo contato íntimo e delicado, temos dez textos que querem, são, ao fim, expressões atuais dessa nossa vivência cotidiana.

Começando pelo texto cuja foto ilustra nossa capa atual: Possuídos (Bug), de William Friedkin, que Marcelo Miranda, em Contra-Plongée, aborda em texto que também percorre toda a obra deste diretor tão conhecido quanto sub-analisado. Falando de filmes em circuito, há ainda textos de Leonardo Amaral, em Cinetoscópio, sobre a franquia Harry Potter - em especial o último exemplar - e sua relação com o público, além do recente Ratatouille, último e incensado lançamento da Pixar. Ainda, em Plano Seqüência, Gabriel Martins aborda Duro de Matar 4.0, quarto exemplar da saga da John McClane, esse John Wayne da modernidade, e também o documentário Três Irmãos de Sangue, tentando enxergar os limites nem sempre claros entre a idealização via articulação fílmica e a efetiva importância política e social dos abordados no filme: Betinho, Henfil e Chico Mário.

As potencialidades várias do cinema enquanto confronto com o real, e também algumas de suas limitações, estão em jogo no texto de Nísio Teixeira em seu Fora de Quadro, onde reflete sobre o cinema etnográfico e suas origens mundiais, com Robert Flaherty, e nacionais, com Major Thomas Reis, pioneiro fundamental do documentário brasileiro. Já em Raccord, Ursula Rösele fala do projeto Cinema no Rio, do qual já falamos por aqui em Filmes Polvo e em que ela participou diretamente como professora, fazendo ao mesmo tempo um apanhado do projeto em todas as suas dimensões e um rico depoimento pessoal fruto de sua vivência entre os filmes, as cidades e as pessoas.

Ainda temos, em Close, Mariana Souto se debruçando sobre o universo de Emir Kusturica, especialmente sobre seu A Vida é Um Milagre, tentando desvendar suas intrincadas articulações visuais e sonoras. Também há João Toledo, em seu Corte Seco, ainda repercutindo o cinema de Antonioni em dois de seus exemplares fundamentais: A Aventura e Profissão: Repórter. Fechando e confirmando o absoluto ecletismo da presente edição, temos Douglas Lisboa abordando Terra em Transe, obra-chave de Glauber Rocha e com a qual o nome de sua coluna: Cinema Revolução, tem seminal ligação.

É isso. Entre as mais diversas possibilidades de se ver e de se viver cinema vai se formando nossa revista, que chega a uma dúzia de edições com entusiasmo ainda maior do que quando começamos e tínhamos um mundo inteiro pela frente. Ainda o temos, é bom dizer, mas, uma vez mais próximos daquilo que nos excita em primeira instância, esse percurso torna-se não só mais instigante quanto prazeroso. Aproveitem.

 

Rafael Ciccarini - Editor