
por Rafael Ciccarini
Leia aqui todos os editoriais e outros textos escritos por nosso editor, Rafael Ciccarini.
Uma revista entre Vardas, Mojicas, Lynchs, Tatis, Blogs e Orkuts
Eis que Filmes Polvo chega à 22ª Edição. Ao leitor mais acostumado ao ritmo da imprensa diária e ao timing da indústria cultural, o acesso diário a uma revista eletrônica que tem edições um pouco mais esparsadas (ainda que com blog, sessões e coberturas atualizadas com constância) e menos comprometidas com questões como “valor agregado”, “concorrência” e “dinamismo”, não dê a idéia do quanto é agitado, conturbado, trabalhoso e, sobretudo, profundamente excitante o dia a dia vivido entre os filmes, textos, sonhos e – não sejamos ingênuos – pesadelos compartilhados.
Nesse intervalo entre-edições, por exemplo, fora a habitual convivência diária e obstinada com os filmes, tivemos desde mostra integral dos curtas-metragens de Agnès Varda (capa), que acabou por motivar um dos textos da presente edição, ao Festival Imagem dos Povos, cuja cobertura pode ser lida aqui, à exibição de filmes do mestre Jaques Tati (que também ganhou texto) passando pela inesquecível visita de David Lynch a Belo Horizonte e seu imenso carinho e disponibilidade para com a equipe Polvo e sua justificada euforia com essa que talvez somente seja comparável em importância cinéfila à famosa visita de Orson Welles à cidade, há quase setenta anos atrás.
Aliás, já que falamos nisso, impressionante como o tempo-cinéfilo é outro, diferente do tediosamente lógico (?) e linear ‘tempo real’. Ao lembrarmo-nos das imagens de Cidadão Kane e de Welles no Brasil (sobretudo quando essas são redimensionadas pelo gênio de um certo Rogério), a sensação é de frescor, de instante, de agora, de tudo-a-ser-feito, de qualquer coisa menos de algo remotamente semelhante há setenta anos. Welles, que fez seu filme aos 25 anos e aqui esteve pouco depois disso. Welles sempre teve 25 anos: assim como David, como Manoel, como Rogério, como José Mojica Marins. Viver cinema é o ato de, simultaneamente, amar e desdenhar o tempo.
Mojica e seu Encarnação do Demônio, que também ganha texto na presente edição. Na verdade, quem acompanha nosso blog, nossa comunidade do Orkut ou faz parte da nossa mailing list já sabe que a revista teve postura ativa não apenas na defesa do filme como objeto estético-cinematográfico (o que também o fazemos), mas na resistência, na batalha por sua manutenção nas salas de exibição, como símbolo potente e necessário na luta contra a mesmice, a caretice e a mediocridade travestida de bom-gostismo e moralismo middle-class. E para nossa mais profunda alegria, não nos vimos sozinhos: além de valorosos emails de leitores, vale registrar a postura de Pedro Olivotto e Eduardo Cerqueira, em cujos cinemas crescemos e nos formamos, e que mais uma vez mostraram seu grande valor – o que, aliás, suas próprias trajetórias já demonstravam de sobra.
Convidamos o leitor a passear pela variada gama de textos da edição presente (que listamos logo abaixo) e a conviver conosco nesse dia a dia de paixão pelos filmes, seja pelo Blog, pelo Orkut ou conversando conosco pelos nossos emails. Os planos são muitos e a vontade de realizá-los ainda maior. Viver cinema é nosso mister; esperamos ter vocês sempre conosco.
Editor – Filmes Polvo
Textos da edição:
Close: “A Banda”
Story Line: “As Aventuras de Molière: jogo de cena” e "Vou de Volta"
Cinetoscópio: “Jacques Tati: cinema de sutilezas” e "Almas Passantes"
Fora de Quadro: “Especial Quebec – Parte 7 – Mais anos 1960: Bûcherons de la Montaigne; Trouble-Fête e Le Festin des Morts.” e “Cinema no Rio: parte 9 e Epílogo”
Plano-Sequência: “A Banda”, e “A Encarnação do Demônio”
Raccord: “Agnès Varda – parte 1: divagações para um olhar fotográfico”
Corte Seco: “Southland Tales – Instável universo paralelo”
Contra-Plongée: "O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro: histórias para a história"