
por Rafael Ciccarini
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Depois de um breve, mas fundamental descanso pós-maratona Mostra-Polvo, eis que chega nossa 18ª edição, que, como verão, talvez seja das mais recheadas e variadas por aqui já publicadas. Na verdade, o descanso foi quase nenhum, dadas as várias e inevitáveis necessidades que uma mudança de sistema e de layout acabam trazendo: um trabalho minucioso e muitas vezes exaustivo, sobretudo para quem, como nós, ficamos sempre ávidos para podermos voltar nosso tempo e energia para aquilo que de fato nos interessa e nos move: os filmes. E aqui voltamos a eles com imenso prazer.
Antes de irmos à edição propriamente dita, porém, cabe indicar nossa cobertura da mostra: Cinema, Corpo, Cassavetes, que teve lugar no Cine Humberto Mauro - como sempre cumprindo papel vital à vida cinéfila belorizontina - e exibiu cinco obras centrais de John Cassavetes, este cineasta decisivo do cinema americano: Shadows, Faces, Uma Mulher Sob Influência, A Morte de um Bookmaker Chinês e Noite de Estréia, cujas análises vêm somar ao recente esforço analítico empreendido pela crítica recente – resultado, aliás, de mostras semelhantes e igualmente salutares em outras partes do país. Destaque para a 8ª edição da Revista Paisà, que deu capa a Cassavetes.
Nesta edição, então, o leitor encontrará, dentre as diversas opções que a compõe, desde um considerável panorama dos filmes recentes e em cartaz até retrospectivas, textos teóricos, confessionais e outros que trazem um pouco de tudo isso. Em Plano-Seqüência, por exemplo, Gabriel Martins traz textos sobre nada menos que Desejo e Reparação, Senhores do Crime, Sangue Negro e Juno. O filme de Paul Thomas Anderson e o mais recente fenômeno independente do EUA, aliás, voltam em texto de Leo Cunha, que, em Story Line os aborda em conjunto com Na Natureza Selvagem, de Sean Pean; a coluna também traz a segunda parte da reflexão de Cunha sobre a crítica de cinema, à luz do exemplo de ninguém menos que Inácio Araújo.
A reflexão sobre a crítica é também o tema de João Toledo, em seu Corte Seco, onde se debruça sobre a própria atividade e as várias questões teóricas e existenciais a ela intrínsecas e concernentes. E dentro do tema da auto-reflexividade, há também o texto de Ursula Rösele, em seu Raccord, sobre Em Paris, de Christophe Honoré, onde busca iluminar as relações entre linguagem, cinefilia, paixão e amor nessa recente obra francesa.
Há, ainda, em Cinetoscópio, texto onde Leonardo Amaral percorre boa parte da obra de Gus Van Sant, desde obras já consagradas da década de oitenta até recentes e incensados filmes como Elefante e Paranoid Park, além de texto onde discute aspectos de Onde os Fracos Não Têm Vez à luz do western clássico de John Ford. O filme-sensação dos irmãos Coen, aliás, também está presente no texto que Marcelo Miranda traz em seu Contra-plongée, onde traz à reflexão o pensamento teórico de Rogério Sganzerla para colocar em perspectiva, além do filme de Joel e Ethan, Sangue Negro, que aparece em nada menos que três textos desta edição.
Já em Close, Mariana Souto traz texto sobre Narradores de Javé, de Eliane Caffé, buscando analisar, dentro outros aspectos, suas estratégias de encenação e narratividade. E por fim, Nísio Teixeira relaciona o recém falecido Heath Ledger ao mítico compositor Nick Drake, nos mostrando não apenas o aspecto trágico das coincidências que os aproximam, mas a mensagem de liberdade e poesia que suas trajetórias e essas relações nos permitem reter: o texto está em Fora de Quadro, onde também pode ser lida a 5ª parte do Diário de Bordo que conta sua saga pelo projeto Cinema no Rio.
É isso. Muita coisa aconteceu e tem acontecido nesse ano e pouco de Filmes Polvo, mas é impressionante como nossa sensação é sempre de início de trajetória, de mundo a desbravar, de todo um universo cujo tamanho nos assombra e nos atrai irremediavelmente. Há, como sempre, idéias sendo pensadas, projetos querendo nascer; essa vontade de cinema e vida que arde e quer sempre encontrar formas as mais diversas para ser. Tudo consiste em sermos dignos dos nossos sonhos. Lutemos.
E sejam bem-vindos, mais uma vez.
Rafael Ciccarini
Editor