por Rafael Ciccarini

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Filmes Polvo. Qualquer pessoa minimamente ajuizada, após abrir seu navegador e, por qualquer motivo, digitar www.filmespolvo.com.br desejará, em primeiro lugar, achar respostas para algumas questões inevitáveis: o que é isso, que raio de nome é esse, o que este site pretende e principalmente: quem é o responsável por isso.

A partir de um certo momento, numa reunião entre aqueles que pretendiam estender seu dia a dia de intensa vivência cinematográfica a um site coletivo (a idéia havia surgido numa disciplina de Crítica Cinematográfica realizada na Escola onde se conheceram e se reuniram todos os que hoje fazem esse site: a Escola Livre de Cinema, em Belo Horizonte) o que era absurdo começara a deixar de sê-lo e todos já se referiam ao site como Filmes Polvo, transformando em oficial aquilo que havia surgido como expressão do mais puro nonsense.

Em verdade, nenhum dos responsáveis por este site que aqui apresenta sua primeira edição saberá responder exatamente a razão deste nome e talvez seja precisamente esse o motivo: depois de dias e dias de tentativas de se adequar um nome a um conceito, a uma série de idéias, concepções e quando, por desventuras de uma espécie transversa de inconsciente coletivo, chegou-se ao nome referido, a sensação, ainda que não muito bem explicitada foi a de algo como “está bem, Filmes Polvo, agora vamos nos preocupar com o que importa”. Claro que depois criamos teorias publicitárias sobre as vantagens de se ter um nome ostensivamente jocoso em contraste com uma proposta, digamos, séria, tanto do ponto de vista visual quanto do conteúdo. Mas o nome é o nome, apenas: engraçado pelo nonsense, dizem uns, institucionalmente complicado, dizem outros, simplesmente sem sentido (talvez a maioria), mas, no fundo, é apenas um nome que, tortuosamente ou não, fez sentido a todos e traz consigo algo de brincadeira, de irônico, de deboche a um tipo de postura excessivamente formal: de alguma forma é como se disséssemos: por mais comprometido que se esteja, se algo começa sem humor algum, então é porque começou errado.

São oito os redatores de Filmes Polvo. Todos eles jovens dos vinte e poucos e, antes de qualquer outra coisa, estudantes de cinema. Aliás, todos nós, os apaixonados, os cinéfilos inveterados, os viciados, os alucinados, os profissionais, os críticos, os diretores e os professores somos (ou deveríamos ser), antes de tudo, estudantes de cinema: se há algo que une a todos aqueles que tem com o cinema uma relação verdadeiramente apaixonada é a posição de humildade quase subalterna à grandeza do objeto que nos fornece boa parte de nossa energia vital. Basta lembrarmos de Scorsese falando de John Ford ou de Kurosawa ou de Woody Allen falando de Bergman ou Fellini, ou, claro, de Truffaut ao se referir a Hitchcock (para ficar no exemplo maior): ali saem de cena os cineastas consagrados para dar lugar aos espectadores admirados, aos eternos estudantes que são (ou foram) e sempre serão, àqueles que um dia descobriram que em algum lugar perdido entre os milhões de fotogramas de um filme, de alguma forma estava direta ou metaforicamente representado (ou apresentado) o sentido de suas existências.

Se Filmes Polvo tem uma filosofia, por assim dizer, é a de que a experiência do Cinema ultrapassa em muito às duas horas em que ficamos assistindo a um filme qualquer: é algo que potencializa a própria experiência do viver, de perceber as coisas e nós próprios que, modificados, voltamos aos filmes para percebê-los, ainda que os mesmos, sempre diferentes e outros.

Essa é um pouco a magia da coisa: Diz o filósofo grego que nunca entramos no mesmo rio duas vezes: o rio está em movimento e nós também. Daí vem Humberto Mauro e em frase antológica diz o indizível: “Cinema é cachoeira”; o que nos traz a imagem inevitável de fluxo contínuo, de água caindo, de movimento constante e mesmo antes de compreender toda a potência da metáfora mauriana, podemos nos lembrar que Cinema vem de kinema, palavra grega que significa ‘movimento’. Cinema é, desde a sua origem semântica, portanto, movimento, ainda que, como sabemos, ali, em cada segundo de cada filme, estão 24 fotografias estáticas.

O movimento, então, não é dado em si, mas a partir de nossa incapacidade de perceber as rapidíssimas sobreposições de fotogramas. O kinema, o cinema, o movimento, então, nasce, num certo sentido, da imperfeição humana e assim se desenvolve e permanece: imperfeito, paradoxal, ambíguo, fascinante, intrigante, instigante, misterioso e sempre demasiado, mesmo que em sua aparente despretensão. Arte, indústria, caro, barato, amador, profissional, horroroso, lamentável, obra-prima, trash, genial, supervalorizado, superfaturado, política de Estado, expressão pessoal, autoral, em equipe, premiado, injustiçado, metalingüístico, incentivado ou não incentivado, narrativo ou não narrativo: humano em plenitude e erro.

Filmes Polvo é composto essencialmente por oito colunas, onde cada um dos autores escreverá com plena liberdade temática e editorial: cada uma delas com um perfil, um estilo, uma forma de olhar a vida e os filmes. O site aposta na variedade da abordagem como uma possibilidade efetiva de dar ao cinema a amplitude que lhe é intrínseca, acreditando fugir daquelas que lhe parecem duas das principais armadilhas de boa parte da análise cinematográfica contemporânea: o adjetivismo fácil e publicitário (onde a crítica se torna mais um braço da indústria - ou um lugar para a patética expressão de egos convalescentes - que uma atividade de reflexão por excelência) e a forte tendência à ‘crítica de roteiro’, que parece ignorar (por opção, desconhecimento, desinteresse ou todos eles) os aspectos específicos que diferenciam o Cinema das outras artes dramáticas: que privilegia o texto em detrimento da imagem, perdendo aí a oportunidade (ao praticamente ignorar o que ele tem de mais específico) de tentar entender o que de fato essa arte eminentemente do século XX pode oferecer que as outras não tenham oferecido então.

Passeando por alguns dos textos que encontrarão nessa edição de lançamento temos, então, desde Leonardo Amaral, em Cinetoscópio, propondo uma prazerosa conversa entre Wim Wenders, Walter Salles e Antonioni e textos sobre Altman e sobre o recente filme de Cao Hambúrguer, O Ano em Que Meus Pais Saíram de Férias, até Douglas Lisboa em Cinema e Revolução, e sua curiosa (e corajosa) aproximação entre Cinema e Sociologia realizada a partir dos pensamentos de Marx, Weber e Durkheim, passando pelos belos e poéticos textos de Ursula Rösele, em Raccord, que vão de um admirável – e, como não podia ser diferente, algo doloroso - passeio pelo universo bergmaniano em sua abordagem do notável Saraband, ao generoso convite feito ao leitor para que compartilhe seu diálogo íntimo com Dora, Josué e, novamente, Salles, em Central do Brasil.

Ainda nesta edição de estréia, Mariana Souto, em seu Close, nos oferece cuidadosa análise de Crash, polêmico ganhador do Oscar em 2006 e propõe instigantes vertentes para que tentemos entender o complexo cinema de Michael Haneke a partir de seu texto sobre Caché. Em Plano Seqüência, Gabriel Martins discute o cinema contemporâneo a partir das ligações entre conteúdo, discurso e técnica em seus textos sobre Filhos da Esperança, de Alfonso Cuarón, e Estamira, de Marcos Prado.

Para fechar, ainda podemos ler o texto de Matheus Cajaíba, em Back Projection, que aborda a relação de Disney e seu Pato Donald com a política externa e interna americana à época da segunda guerra mundial, além do elucidador e informativo texto sobre a continuidade no cinema, escrito por João Paulo Teixeira, em seu Travelling e finalmente o texto de Janderson Lima, em sua Grande Angular, com considerações sobre aquele que é a unanimidade entre as unanimidades: Cidadão Kane, de Orson Welles.

Todas as colunas terão inicialmente atualizações quinzenais, sempre acompanhadas de um novo editorial: são as atualizações formais, mas Filmes Polvo também contará com um blog onde cada um dos redatores poderá postar sempre que assim desejarem. Além disso, haverá um quadro de cotações, onde cada um dos participantes registrará sua opinião sobre os filmes que se encontrem em cartaz, apenas para que o leitor tenha uma idéia panorâmica do que andam assistindo e achando (ainda que superficialmente) os redatores do site a respeito dos filmes que estão pelo chamado ‘circuitão’.

Muito importante também ressaltar que já a partir desta edição inicial, Filmes Polvo fará, dentro de suas possibilidades, densa cobertura da 10ª Mostra de Cinema de Tiradentes, na qual estará quase toda a sua equipe: a idéia é que haja postagens diárias, impressões, entrevistas e posteriormente análises mais aprofundadas sobre tudo o que aconteceu nesse festival que sem dúvida nenhuma desponta como um dos mais relevantes e interessantes Festivais de Cinema do Brasil, tanto do ponto de vista das obras exibidas quanto do ponto de vista dos debates e encontros que tradicionalmente lá ocorrem.

Outras novidades e surpresas virão por aí: um fórum de discussão, uma sessão exclusivamente dedicada aos curtas-metragens, links para as obras realizadas pelos redatores do site (todos eles são também realizadores ou profissionais da área, aliás, o leitor pode acessar também o perfil de cada um deles na sessão “Perfis”), além de outras idéias que surgirão com o correr da experiência e principalmente a partir do contato com os leitores.

Finalizamos este editorial de lançamento dizendo que Filmes Polvo não tem a pretensão de ser veículo único que segue ou acredita nas várias das concepções que aqui se colocaram; pelo contrário, faz questão de deixar claras suas influências e inspirações no que diz respeito ao pensamento cinematográfico ‘online’, que podem ser aqui representadas por sites como Revista Cinética e Contracampo, a quem respeitamos e prezamos como dois dos principais campos do pensamento cinematográfico brasileiro. Assim como não podíamos deixar de citar o nosso conterrâneo Cinema em Cena, um dos maiores, mais visitados e mais completos portais de cinema do Brasil (com o qual este editor teve o prazer de colaborar).

Queremos apenas oferecer mais um espaço de reflexão, discussão e aprofundamento da experiência cinematográfica, onde quem constrói o site aprende tanto quanto quem o lê e com ele colabora independente de como o faça. Estamos todos aprendendo, sempre, e Filmes Polvo convida a cada um dos leitores, independente de seu grau de relação com o Cinema a fazer essa caminhada que não tem outro objetivo senão o aperfeiçoamento de cada um de nós enquanto seres humanos: para nós, esse fascinante processo infinito onde o cinema intensifica a vida e, de volta, a vida intensifica o cinema só vale à pena se caminhar em direção aquele que a nós parece ser o fim último da experiência humana, independente de linha filosófica, existencial ou religiosa: a liberdade. Sejam todos bem-vindos, pois.