por Rafael Ciccarini

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“Cinema-verdade? Prefiro o cinema-mentira. A mentira é sempre mais interessante do que a verdade.”

Para abrir esta quinta edição de Filmes Polvo pareceu oportuno lembrarmos uma frase que talvez sintetize a essência do cinema de Fellini (senão de todo o cinema). Não por tomá-la como uma espécie de verdade filosófica que nos conduz (o que seria um óbvio contra-senso), mas por uma certa idéia de duplo que traz em si. O cinema sempre se viu às voltas com as dualidades: indústria/arte, verdade/mentira, realidade/ficção.

Não à toa as interpretações dialéticas do fenômeno cinematográfico vingaram tanto na história e figuras como Glauber Rocha consideravam-no o motor da revolução pós-moderna porque uma potência dialética em si mesmo. Bem... aqui obviamente não se pretende a Revolução (embora talvez Douglas discorde), mas certamente a característica do duplo marca a edição que aqui se apresenta. Filmes comparados, artes comparadas, temas comparados. Textos que, ainda que no terreno simbólico, dialogam, concordam e discordam entre si, fazendo uma edição bastante rica em possibilidades interpretativas. Vamos a eles:

Leonardo Amaral, em Cinetoscópio, lança dois olhares comparativos: no primeiro, discute o cinema como documento à luz de Boa Noite e Boa Sorte e do mais atual O Bom Pastor, ambos fortemente ligados à história recente americana. Em outro texto, também vinculado à realidade recente, aborda O Último Rei da Escócia, dessa vez a partir de aprofundado diálogo com o cinema de Werner Herzog e o universo que o circunda.

Enquanto Matheus Cajaíba discute a ética norte-americana aproximando os recentes Rocky Balboa e À Procura da Felicidade, tentando entender, com a verve que lhe é peculiar, a antipatia que seus personagens e os valores que os sustentam desperta em certos setores da intelectualidade, Janderson Lima fala, em sua Grande Angular, de Medo e Delírio, de Terry Gilliam, filme emblemático, crítico e provocador, que aqui é abordado à luz da figura seminal de Hunter S. Thompson, pai do gonzo jornalismo e autor do livro no qual o filme foi baseado.

Já Mariana Souto, em Close, coloca em questão uma certa idéia hegemônica de felicidade contemporânea e valoriza a poesia e a beleza do simples ao aproximar Beleza Americana e O Fabuloso Destino de Amélie Poulain, abordando-os em suas sutis articulações temáticas e estéticas. Em chave oposta, em Raccord, de Ursula Rösele, temos um denso mergulho em forma de um diálogo tão improvável quanto instigante entre Irreversível e Closer – Perto Demais, filmes decisivos e impactantes que aqui ganham novos contornos subjetivos e possibilidades de compreensão e tensão.

E se Gabriel Martins, um auto proclamado filho da era Bullet Time (como verão no texto) analisa, em Plano-Sequência, o reverberante e conturbado 300 tentando entendê-lo a partir do contraditório contexto estético contemporâneo, Douglas Lisboa, em Cinema Revolução, imerge na discussão Quadrinhos–Cinema e faz um pequeno panorama histórico dessa relação, onde tenta iluminar tanto seus eventuais pontos de encontro quanto as limitações que essa transmutação de linguagens pode trazer consigo.

E fechando, mais uma abordagem entre linguagens: João Paulo Teixeira, em seu Travelling, traz um ensaio-reportagem onde analisa comparativamente o Cinema e o Teatro à luz das idéias de Walter Benjamin e de suas pesquisas e experiências em ambas as artes.

É isso. Entre duplos ou não, continuamos obstinados em tornar esse espaço cada vez mais digno da paixão que nos move e dos leitores com quem temos o privilégio de compartilhá-la. Mais uma vez, fiquem à vontade, provoquem-nos pelos e-mails ou pelo nossoblog. Um pequeno aviso: aqueles que quiserem ser avisados da publicação de novas edições, novidades e atualizações, mandem e-mail para contato@filmespolvo.com.br. Plenitude e felicidade a todos.

Até a próxima.