por Rafael Ciccarini

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Para uma revista eletrônica que surgiu essencialmente como resposta a uma forte pulsão investigadora coletiva por parte de alguns jovens, que em determinado momento descobriram que o Cinema já não lhes era uma opção ou mesmo apenas uma paixão, mas uma verdade quase inescapável, Filmes Polvo chega à sexta edição contente em apresentar uma gama tão diversa e ao mesmo tempo interligada de textos que trazem consigo essa inquietação primeira talvez da forma mais marcante desde nosso início.

Temos aqui um forte desejo de refletir-se o meio, suas tensões, contradições e possibilidades. Filmes Polvo, desde sempre, parte da premissa de que não há diferença fundamental entre a reflexão e a realização, entre o fazer e o pensar e tal concepção parece fazer-se presente em cada um desses textos. Fervilhando entre os parágrafos e orações, há aqui uma calorosa dialética do fazer-pensar sobre, que traz consigo um encanto que talvez seja a mola mestra que nos impulsiona a continuar de todas as formas possíveis a despeito das dificuldades todas.

Na coluna Grande Angular, por exemplo, temos Janderson Lima prolongando a discussão sobre Cinema como documento, refletindo a própria noção de documento para então aproximá-lo tanto do cinema ficcional quanto dos documentários. Esse tema foi iniciado por Leonardo Amaral na quinta edição, que agora, em Cinetoscópio, reflete os caminhos e armadilhas comerciais e estéticas do cinema brasileiro num texto que traz à baila desde O Cheiro do Ralo a Glauber Rocha e Jairo Ferreira, crítico fundamental e célebre criador da idéia do “cinema de invenção”.

O cinema enquanto fenômeno estético-social também é discutido por Gabriel Martins em seu texto sobre o personagem central de O Homem Elefante, de David Lynch, e mais uma vez as possibilidades e as nem sempre bem-vindas recorrências do cinema brasileiro atual aparecem em seu texto sobre o recente Caixa Dois, de Bruno Barreto. Já Douglas Lisboa discute a Crítica Cinematográfica e seus diferentes papéis e interesses num cenário contemporâneo onde nem sempre conseguimos demarcar com precisão os limites entre a crítica e a propaganda. Os textos estão em Plano Seqüência e Cinema Revolução, respectivamente.

E um dos papéis da crítica é certamente o de imergir em determinadas obras e a partir desse processo reapresentá-las em outras dimensões, profundidades e sentidos. É o que temos em Raccord, de Ursula Rösele, que aborda Casa Vazia de Kim Ki-Duk, que se encantou a alguns e foi visto com ressalvas por outros, certamente não teve a imersão que merecia – e que aqui se propõe. Outra obra que também volta revisitada nessa edição é Secretária, de Steven Shainberg, que Mariana Souto, na coluna Close, aborda à luz do universo de Nelson Rodrigues e a partir da qual podemos mais uma vez nos confrontar com o quão pode ser frágil nossa noção de normalidade.

Fechando, temos mais dois textos: um deles sobre Batismo de Sangue, que já havia ganhado análise aqui e que vem sendo objeto de constante discussão da crítica. Matheus Cajaíba, desta feita, centra o foco em sua dimensão política e histórica e, em Back-Projection, questiona a abordagem parcial e reducionista que viu engendrada na obra de Helvécio Ratton. E na coluna Travelling, João Paulo faz um leitura de Pantaleão e As Visitadoras à luz de uma das principais idéias da sociologia de Max Weber: a organização racional legal.

Pois bem. Entre estréias, revisitas e eixos temáticos que pouco a pouco vão se estabelecendo como centrais para a Redação apresentamos, então, esta nova edição. Esperamos a participação de vocês, seja pelos e-mails, seja pelo blog. Há também nossa comunidade no Orkut. Sintam-se à vontade, como habitual. Sigamos em frente, pois.