por Leo Cunha

Comédia à francesa - parte 4: A Riviera não é aqui

Ignorado no Brasil, A Riviera não é aqui é o maior fenômeno de bilheteria de todos os tempos, no cinema francês. Quando estreou, em 2008, esta comédia de Dany Boon atraiu mais de 20 milhões de espectadores em dois meses, na França, país com pouco mais de 60 milhões de habitantes! Em Belo Horizonte (assim como no Brasil, em geral), o filme enfrentou uma realidade completamente diferente. Exibido em uma única sala, num cinema longe da área central, o filme passou despercebido na mesma semana em que Eclipse estreava em cerca de 30 salas e Toy Story 3 (já na terceira semana de exibição) ainda ocupava uma dezena. Na sessão que eu assisti, havia apenas 4 espectadores, o que certamente justificou a retirada de cartaz, na semana seguinte.

 

Outros fatores também prejudicaram o filme de Boon: já se passaram mais de 2 anos de sua estréia na França e qualquer repercussão do fenômeno por aqui, se é que existiu, já foi esquecida. Além disso, este tipo de comédia, que tradicionalmente ocupa grande percentagem das salas francesas (inclusive as salas maiores e mais populares), no Brasil fica relegado ao circuito de filmes “de arte”, o que é um equívoco completo.

 

Mas talvez o maior estranhamento que A Riviera não é aqui provoque por aqui (e em praticamente qualquer lugar fora da França) seja derivado do filme, propriamente. Raros espectadores (e raríssimos críticos) encontrarão motivos que justifiquem o sucesso estrondoso em seu país natal.

 

Ora, há séculos os teóricos da comédia divergem sobre uma questão central: trata-se de um gênero narrativo altamente universal ou, pelo contrário, altamente regional? Ambas as vertentes têm razão, pois cada uma está pensando num tipo de comicidade diferente. E o filme de Dany Boon toca no que há de mais universal e no que há de mais regional na comédia.

 

Um humor regional

 

Desde o título, A Riviera não é aqui se apresenta como sátira. Principalmente o título original Bienvenue chez les Ch´tis (algo como Benvindo à terra dos Ch´tis), que debocha do apelido dado aos moradores e ao sotaque de uma determinada região francesa, a Nord-Pas de Calais. Toda sátira requer do público uma série de pré-conhecimentos, já que, para rirmos de um indivíduo, grupo ou sociedade eleitos como “alvos”, é preciso conhecê-los, saber suas peculiaridades culturais e/ou comportamentais. Um estrangeiro que ignore a fama (não importa se justa ou injusta) de desconfiados dos mineiros, ou de preguiçosos dos baianos, não perceberá humor num filme que aluda a estas questões.

 

À primeira vista, o filme parece inclinado a satirizar a terra dos Ch´tis.  O protagonista Philippe Abrams, funcionário de carreira dos correios, faz de tudo para conseguir uma promoção para uma filial situada na Cote D´Azur (que na tradução brasileira é sempre referida como “A Riviera”). Mas, após alguns quiprocós que serão discutidos mais à frente, acaba sendo transferido para uma região que é praticamente o oposto da Riviera. Em vez do litoral sul, o extremo norte. Em vez das praias e da agradável temperatura mediterrânea, o frio intenso e a chuva insistente. Em vez da badalação e da sofisticação, uma cidadezinha insossa, descolada de tudo o que se refere a moda, glamour e exuberância.

 

Inicialmente Boon explora o contraste entre as expectativas de Philippe e a cidade de Bergues, onde vai parar. Mas, como logo vamos descobrir, a intenção do diretor/roteirista não é exatamente satirizar a realidade e os modos dos ch’tis, mas, pelo contrário, ironizar os preconceitos disseminados na França sobre a região e seus habitantes (de que seriam simplórios, rudes, vulgares, miseráveis, lerdos, alcoólatras etc). O filme se desloca, portanto para um alvo mais politicamente correto: o olhar estereotipado que as demais regiões francesas lançam para Nord-Pas de Calais. A estratégia rende algumas boas gags, mas ao final do filme se torna um tanto repetitiva. Além disso, cria um obstáculo para espectadores “estrangeiros”. Afinal, todos estes preconceitos e “brincadeiras” podem ecoar forte no imaginário e na memória dos franceses, mas nos dizem pouco. 

 

A sátira aos ch´tis, anunciada desde o título, acaba concentrando seu foco a um aspecto, digamos, lingüístico: boa parte das piadas, assim que Philippe chega a Bergues, fica centrada na questão do sotaque aparentemente incompreensível dos ch´tis. Consta que estas cenas (repletas de jogos verbais, trocadilhos, trava-línguas) levaram o público francês ao delírio, mas são quase inacessíveis para nós, espectadores de outros países (e virtualmente intraduzíveis nas legendas, que acabam criando um enorme ruído). 

 

Assim, enquanto os ch´tis passam de aparente alvo da sátira para alvo de admiração, Dany Boon promove um grande elogio da simplicidade, companheirismo, afetividade, calor humano. Por mais que faça isso com evidente carinho pela região e pelos personagens (o filme é dedicado à sua avó, “maravilhosa ch’ti”), acaba pecando por um certo bom-mocismo, o que é curioso se pensarmos que Boon vinha de experiências, como ator, com dramaturgos e cineastas de humor geralmente mais cáustico, como Francis Veber (no cinema, em Contratado para amar e no teatro com Le dîner de cons) e Patrice Leconte (Meu melhor amigo).

 

Um humor universal

 

Se o lado satírico revela alcance limitado, pelas peculiaridades apontadas acima, o ponto alto (e mais universal) de A Riviera não é aqui está em outro tipo de comicidade: o humor de situações. Aqui, sim, Boon demonstra ter aprendido alguns truques do ofício, com seus diretores e roteiristas Veber e Leconte.

 

O roteiro se apóia um jogo crescente de farsas que, para serem resolvidas, ou contornadas, pedem outras e outras farsas. Logo ao início, a esposa deprimida e frustrada de Philippe o pressiona para obter uma transferência para uma filial (qualquer que seja) da Riviera. Mas as tentativas de transferência são sempre frustradas, mesmo com o auxílio de um pistolão, já que, como Philippe lamenta sarcasticamente, “hoje em dia os deficientes têm preferência até mesmo sobre os pistolões!” Sua idéia salvadora é passar-se por um cadeirante, para “furar a fila”. Mas a armação não dá certo (a divertida cena em que ele “se entrega” lembra muito o momento em que Albin se entrega como homem, na peça A gaiola das loucas, que gerou o filme de mesmo nome, outro grande sucesso do cinema cômico francês).

Como punição pelo golpe, Philippe é “condenado” à transferência para Bergues, para indignação da esposa, que o despacha sozinho para o norte. Philippe embarca munido de todos os preconceitos possíveis mas logo descobre, como apontei acima, que os ch’tis são admiráveis e a região idem. Porém, quando tenta dizer isto para a esposa, ela se recusa a acreditar: acha que ele está fingindo só para poupá-la. Mais que isso, a mulher passa a tratá-lo com carinho e admiração, por suportar um lugar que é “pior que o inferno”, em nome do bem-estar da família. Philippe acaba não tendo saída a não ser encenar mais uma farsa, a de que sua vida em Bergues seria mesmo miserável. Até o momento em que a esposa se enche de piedade  e resolve compartilhar o “sofrimento”, partindo de mala e cuia para o norte.

Esta é a deixa para a melhor sequência do filme, aquela em que todos os novos amigos de Philippe se reúnem para montarem a grande farsa. É uma encenação extremamente carnavalesca, quase caótica, na qual os ch’tis se obrigam (ou se permitem) a representar tudo aquilo que sempre os ofendeu, a personificarem e até mesmo exagerarem os clichês a ponto de os esvaziarem de qualquer sentido.

Após esta sequência, o filme deságua num final mais convencional, com direito a casamento e lágrimas furtivas. No conjunto, Boon se mostra um bom diretor de atores, que usa a linguagem de forma funcional, sem grande requinte visual nas composições e movimentos de câmera, abusando um pouco de primeiros planos em que os personagens riem soltos (o que costuma ser perigoso em comédias, indicando um risco de que a cena é mais engraçada para os personagens do que para o público). 

Em alguns momentos, porém, percebe-se uma atenção especial aos planos e enquadramentos. É admirável, por exemplo, como todas as sequências da primeira viagem de Philippe a Bergues são feitas em planos pouco abertos, no máximo planos de conjunto, que pouco mostram da cidade e sua paisagem. Somente no momento em que o protagonista volta para o sul, já descondicionado dos clichês, Boon nos permite um plano geral da cidade que, então, se revela belíssima.

O fenômeno em números

Retomando o aspecto mercadológicio apontado no início deste artigo, é curioso observar que, em toda a história, somente Titanic, com 20,7 milhões de espectadores na França, supera a bilheteria  de Aqui não é a Riviera, com 20,4 milhões. Entre os filmes franceses, o que mais se aproxima, mas a longa distância, é a comédia A grande escapada, de 1966, já discutida nesta coluna. Dirigido por Gerárd Oury, grande mestre da comédia popular francesa, Escapada teve 17,2 milhões de ingressos na França, feito considerado inalcançável por outro filme francês, até surgirem os Ch’tis  de Dany Boon, mais de 40 anos depois. Depois de Oury, vêm outras duas comédias: Asterix e Obelix em Missão Cleópatra (2002), com 14,5 e Os visitantes (1993), com 13,7.

Como era de se prever, Hollywood se impressionou com o sucesso absurdo de A Riviera não é aqui e se apressou em comprar os direitos para um remake, que provavelmente será produzido e estrelado por Will Smith. Diante do sofrível histórico de remakes das comédias francesas, temos muito o que temer, especialmente neste caso, em que o humor é tão recheado de referências geográficas e culturais. 

 

Filmes Citados:

 

Asterix e Obelix em Missão Cleópatra (Astérix et Obélix: Mission Cléopâtre, 2002 / Alain Chabat)

Contratado para amar (La doublure, 2006 / Francis Veber)

A gaiola das loucas (La cage aux folles, 1978 / Edouard Molinaro)

A grande escapada (La grande vadrouille, 1966 / Gérard Oury)

O jantar dos malas (Le dîner de cons, 1998 / Francis Veber)

Meu melhor amigo (Mon meilleur ami,  2006/ Patrice Leconte)

A Riviera não é aqui (Bienvenue chez les Ch’tis, 2008 / Dany Boon)

Titanic (idem, 1997, James Cameron)
Os visitantes  (Les visiteurs, 1993 / Jean-Marie Poiré)