por Leo Cunha

O Escritor Fantasma – o homem que sabia de menos

Numa das primeiras cenas de O escritor fantasma, o personagem de Ewan McGregor alega ser o ghost writer ideal para escrever as memórias de um ex-primeiro ministro britânico justamente por não saber nada de política. Por ignorar os meandros e minúcias da vida partidária e dos jogos de poder, ele acredita que conseguirá criar um livro envolvente, que, como todas as boas biografias, viriam “direto do coração”.

 

O filme nos é apresentado inteiramente sob o ponto de vista deste ghost writer, que se orgulha de sua ignorância política, mas, aos poucos, descobre que sua tarefa aparentemente fácil e inofensiva esconde inúmeras implicações e complicações. Nós, espectadores, vamos descobrindo junto com ele, cúmplices de suas aflições e investigações.

 

Em alusão a este protagonista incauto e alienado, o filme poderia ser batizado como O homem que sabia de menos.  Assim como outros dirigidos por Roman Polanski (Busca Frenética, O último portal), este é um thriller de tons hitchcockianos, perceptíveis no ritmo parcimonioso da edição, que valoriza tomadas longas e resulta num suspense que se acumula sem se apoiar em sustos. Habilidosamente, Polanski impõe a seu protagonista ameaças e ataques reais (o assalto diante de casa, o quarto de hotel arrombado), mas também perigos irreais (o alarme que dispara quando ele tenta copiar o arquivo digital) e outros que podem, ou não, ser fruto de paranóia (como a ótima cena da perseguição na balsa). Em meio a tudo isso, jamais temos certeza do tamanho da encrenca em que o ghost writer se meteu, até os minutos finais do filme.

 

O espírito de Hitchcock também se faz presente nos duelos verbais entre o protagonista (cujo nome nunca ficamos sabendo, afinal é um ghost writer) e os personagens de Pierce Brosnan (Adam Lang), Olivia Williams (Ruth Lang), Kim Cattrall (Amelia Bly) e Tom Wilkinson (Paul Emmet), em cenas repletas de ironia e tiradas maliciosas. O humor britânico do protagonista pontua todos os diálogos, como na cena em que ele pergunta se conseguiria um avião ainda aquela noite e o balconista explica que só se fosse um jatinho privado. Resposta de McGregor: “Eu emprestei meu jatinho pro mordomo.” Ou no telefonema em que ele reclama para seu agente literário: “Tem uns pacifistas querendo me matar!” Ou ainda quando ele ironiza que o único segredo escondido nas memórias do ministro é a cura da insônia.O melhor título, porém, não é nem O Escritor Fantasma nem O homem que sabia de menos, mas sim aquele adotado na Inglaterra, simplesmente O fantasma (The ghost). A escolha se revela muito mais rica, pois deixa subentendido que o filme não fala apenas de um escritor fantasma, mas também de vários outros tipos de assombrações.

 

O ex-primeiro ministro Adam Lang, por exemplo, não passa muito de um espectro. Longe do poder, mora isolado numa ilha em território norte-americano, abandonado por ex-colaboradores e acusado de cumplicidade - ou pelo menos conivência - com sequestros, tortura e outros crimes de guerra. Lang remete a figuras como Tony Blair, que ao longo da década distorceram a lógica e abusaram da retórica para justificar o apoio incondicional à chamada “guerra ao terror” promovida pelos Estados Unidos. Por mais que acredite agir, e afirme agir, de acordo com suas convicções, o premiê parece não ter plena noção das forças secretas que o influenciam e das traições que o aguardam. Como descobriremos ao final, ele também é um homem que sabia de menos, assim como seu ghost writer.

 

Entre as forças ocultas que regem Lang está sua própria esposa, Ruth, que podemos entender como uma virtual ghost writer do marido. Não, ela não escreveu as memórias do premiê, mas, sutilmente, escreveu a vida dele, foi a eminência parda por trás de todas as suas decisões e convicções. “Ele sempre pedia meus conselhos e os seguia. Até pouco tempo atrás”, Ruth se queixa para o ghost writer, indicando que, nos últimos tempos, o marido teria se afastado de sua influência e se aproximado da assessora Amelia Bly.

 

Outro fantasma que assombra a história – sobretudo ao personagem de McGregor – é justamente o ghost writer que o antececeu e morreu afogado, em circunstâncias suspeitas, antes de completar serviço. Se jamais ficamos sabendo do nome do protagonista – Lang, por exemplo, só o chama de “cara” (man), pois mal se recorda de seu nome – o oposto ocorre com Michael McAra, o escritor morto: o tempo todo somos lembrados não só de seu nome, mas de suas qualidades, seu estilo, sua intimidade com Lang e das descobertas que fez sobre o passado nebuloso do biografado.  O protagonista será praticamente conduzido pelo espírito do morto, cujos passos e deduções ele tenta reconstruir, num mote que remete a outras tramas hitchcockianas, como Rebeca e Um corpo que cai, mas também a O inquilino, do próprio Polanski.

 

Almas bondosas e fantasmas ambíguos

 

O ghost writer vivido pro McGregor não chega a ser pusilânime, mas tampouco se confunde com um herói, ou um idealista. É um fantasma ambíguo, que, quando se vê em perigo, não reluta em recorrer a um adversário de seu cliente. Pode ser bem intencionado, esperto e até mesmo habilidoso em sua investigação, mas quando finalmente alcança a verdade falta-lhe malícia, falta-lhe o tal conhecimento político que ele desprezou no início do filme, e que poderia tê-lo alertado e protegido da tragédia final.

 

Após dois filmes (O pianista e Oliver Twist) cujos protagonistas eram almas bondosas e valentes lutando para sobreviver em meio à maldade e à ganância, Polanski retorna, aqui, a um universo mais nuançado, repleto de ambigüidades e dúvida, onde num mesmo coração podem coabitar a admiração, o desejo, a repulsa e a vingança, como os personagens que ele explorou em filmes tão diversos como Repulsa, Chinatown, Lua de fel, A morte e a donzela. O personagem do ex-premiê, por exemplo, não se limita a caricaturar Tony Blair, sua inspiração mais evidente. Trata-se de um personagem complexo, dividido entre duas mulheres– a esposa e a assessora – mas também entre iniciativa e submissão, culpa e convicção, orgulho e infâmia, ternura e fúria.

 

Um elemento, contudo, se manteve dos dois filmes anteriores do cineasta: o clima de degradação. Em O pianista, ela estava retratada na Polônia devastada e na desumanidade dos campos de concentração. Em Oliver Twist, no submundo de uma Londres suja e infestada pela miséria. Agora, Polanski aponta o dedo para uma degradação mais sutil: a decadência moral e ética da classe política, o abismo elegante e  cool impregnado em mansões de decoração impecável, mas descolorida e impessoal, em biografias insossas que mal conseguem esconder as relações viciadas, em esquemas de segurança super-complexos, mas incapazes de conter a revolta e a verdade que vazam pelas frestas .

 

Ironias

 

É impossível não notar algumas ironias que cercaram este projeto de Polanski. A mais evidente, já (in)devidamente explorada pela mídia, é o fato de um diretor que passa décadas banido dos Estados Unidos e ameaçado de prisão caso ponha os pés em solo americano, como é o caso de Polanski, agora filmar a história de um ex-primeiro ministro que se encontra exatamente na mesma situação.

 

Mas outra ironia tem passado despercebida. Numa das primeiras cenas do filme, o editor da Random House argumenta que preferiu contratar um ghost writer britânico porque só ele conseguiria “pegar as inflexões corretas”, ou seja, só ele poderia ser fiel aos mínimos detalhes e peculiaridades da fala do ex-premiê. Por isso soam injustas as muitas críticas publicadas, sobretudo na imprensa americana, censurando a falta de cuidado que Polanski teria tido ao retratar os detalhes de Martha’s Vineyard, Massachussets, local onde se passa a história. Com um olhar policialesco que dificilmente seria voltado para outro cineasta, menos polêmico, muitos críticos reclamam que as locações (alemãs, na maioria) não se parecem com a região, que a vegetação não teria aquela cor, que os coletes salva vidas não são exatamente como os usados no local etc etc.  Ora, se o cineasta está proibido de pisar nos Estados Unidos, o que lhe restaria senão recriar a sua própria Martha’s Vineyard? Não é à toa que, na visão de Polanski, o solo americano nos pareça tão sombrio, ameaçador e (como não?) fantasmagórico.

 

Filmes Citados: 

Busca Frenética (Frantic, 1988 / Roman Polanski)

Chinatown (idem, 1974 / Roman Polanski)

Um corpo que cai (Vertigo , 1958/ Alfred Hitchcock)

Lua de Fel (Bitter moon, 1992 / Roman Polanski)

A morte e a donzela (Death and the maiden, 1994 / Roman Polanski)

Oliver Twist (idem, 2005 / Roman Polanski)

O homem que sabia demais (The man who knew too much, 1956/ Alfred Hitchcock)

O inquilino (Le locataire, 1976 / Roman Polanski)

O pianista (The pianist, 2002 / Roman Polanski)

Rebeca, a mulher inesquecível (Rebecca, 1940 / Alfred Hitchcock)

Repulsa (Repulsion,  1965 / Roman Polanski)

O último portal (The ninth gate, 1999 / Roman Polanski)