por Leo Cunha

Onde vive Spike Jonze?

 

 

 

Spike Jonze tem um estranho sentido de tempo e espaço, que costuma dar a seus trabalhos a impressão de descompasso. Ao fazer videoclipes  no início da carreira (para o REM, Weezer, Beastie Boys, Bjork, etc), o diretor fez brotar, daquele ingrato formato, inusitadas e divertidas mini-crônicas da sociedade. Seus clipes pareciam conter histórias, idéias, conceitos demais para o que se esperava de um curto clipe musical.

 

Seus primeiros filmes também passavam a impressão de excessivos. Os detratores diziam haver pelo menos três filmes em cada filme, atribuindo parte da culpa, eventualmente, ao roteirista Charlie Kaufman.  Os admiradores perdoavam a derrapada na parte final de Quero ser John Malkovich, ou o miolo desajustado de Adaptação, como inevitáveis efeitos colaterais da salutar bizarrice jonziana.

 

O filme mais recente do diretor, Onde vivem os monstros, mantém aquela sensação de descompasso, mas agora pelas razões opostas. A primeira impressão, aqui, é a de que há pouca história para muito filme. O livro infantil de Maurice Sendak, no qual a história se baseia, tem menos de trinta linhas, embora haja muitas entrelinhas e muito texto não verbal nas amplas ilustrações. Ainda assim, em termos de trama, propriamente, o livro só oferece um fiapo.

 

O grande mérito de Jonze é mergulhar no universo visual, simbólico e psicológico que está apenas sugerido naquelas entrelinhas e naquelas ilustrações. A história, como quase tudo o que o diretor já filmou, tem a ver com realidades alternativas. Jonze  gosta de personagens que, de alguma forma, escapam do seu cotidiano e embarcam num outro mundo, menos sensato, menos previsível, mais selvagem.

 

Foi assim com Quero ser John Malkovich (onde ficamos conhecendo o inusitado andar “7 e meio” e o portal que lançava as pessoas, durante 15 minutos, dentro da mente do Malkovich real). O “ator-título” declarou, à época do lançamento, que em sua visão o filme falava sobre uma necessidade que todo mundo sente, “de escapar de nós mesmos por alguns minutos. Mas também algo mais sinistro: a idéia de que agora vivemos vidas virtuais. Vivemos nossas alegrias, tristezas e manias através das vidas das pessoas públicas.” (declaração contida no livro Rebels on the Backlot, WAXMAN, 2005).

 

Foi assim também com Adaptação, no qual, como no filme anterior, éramos convidados a conhecer por dentro a mente de um artista. No caso, o artista era o próprio roteirista Charlie Kaufman e o mecanismo para penetrarmos sua mente não era nenhum portal, mas a subdivisão de Charlie em dois (ele próprio e um irmão fictício, que era tudo o que ele não queria – ou não tinha coragem de ser – ousado, cara-de-pau, oportunista e rico).

 

Agora, sete anos após seu último longa, Jonze traz Where the wild things are, título muito mais sugestivo do que o apelativo Onde vivem os monstros. Afinal, a ilha para onde foge o esperto e topetudo Max, após brigar com a mãe, não é habitada propriamente por monstros, e sim por coisas “selvagens”, de visual meio assustador (pelo tamanho) e meio fofinho (pelos olhos melancólicos). Lembram monstros, mas também bichos de pelúcia, fantasias (como o próprio Max veste a sua) e até personagens do bom e velho programa infantil Banana Split. São “wild things”, figuras alheias à realidade cotidiana do garoto (e do espectador, seja adulto ou criança). Onde vive este mundo que Spike Jonze criou para Max? Na brincadeira? No faz-de-conta? Na imaginação? No sonho, no pesadelo? Não importa, e o diretor, ao contrário dos filmes anteriores, não está preocupado em explicitar o mecanismo daquela viagem.

 

Ora, a brincadeira, a imaginação e o sonho, nada disso tem pressa, nada disso obedece ao tempo racional, muito menos aos padrões temporais dos manuais de roteiro. Assim, o filme segue uma lógica temporal peculiar, que vai se desdobrando aos poucos, mesclando momentos frenéticos a outros distendidos, momentos eufóricos a outros amargos, diálogos rápidos a longos trechos de silêncio e calmaria. Daí, talvez, aquela impressão inicial de que o filme seria muito longo para pouca história.

 

Em algumas cenas, as discussões entre Max e os “monstros”, ou das criaturas entre si, forçam um pouco a barra no caminho da psicologização, o que aproxima o filme de um certo tipo de literatura infantil “pedagogizante”, que o livro original não trazia. Certos diálogos parecem discussões de relação ou, talvez, pequenas sessões de terapia grupal, onde se revelam e se debatem sentimentos como inveja, ciúme, raiva, orgulho, solidão. Mas, como sempre, são as pequenas imperfeições típicas de Spike Jonze. Não é nada que se aproxime do didatismo de um Avatar, por exemplo.

 

 Aliás, os lançamentos de Jonze e Cameron têm em comum o fato de serem duas fascinantes viagens visuais, contaminadas por um desejo de discutir questões “relevantes”. Se no filme de Jonze este problema é menos evidente, isto se deve, talvez, à própria personalidade do diretor, célebre por seu espírito irreverente, brincalhão, fanático por pegadinhas e mentiras inofensivas (daí sua participação como roteirista em diversos episódios do infame Jackass).

 

Outra característica do estilo jonziano (e também de seu eterno diretor de fotografia Lance Acord) já presente nos longas anteriores, reaparece aqui. Por mais que conte histórias que passeiam pelo surreal, e, neste caso, pelo sonho e a imaginação, o diretor não recorre a efeitos visuais que afetem o realismo da imagem. Como escreveu o crítico Jérôme Momcilovic, da revista francesa Chronic’Art, é uma estratégia que “captura o impossível sem nunca torná-lo o inverso da realidade, desenha os contornos de um maravilhoso que não quer maravilhar”.

 

 

Assim, as ambientações podem dar a impressão de terem sido produzidas especialmente para o filme – mas trata-se de uma locação verdadeira. O que parecer fantástico credite-se à Austrália, sua praia, suas dunas, seu sol. Da mesma forma, os eventos podem ser ou parecer irreais, mas Jonze conta tudo como algo que realmente aconteceu, ou poderia acontecer. Como em uma de suas pegadinhas.

 

Filmes Citados:

Adaptação (Adaptation, 2002 / Spike Jonze)

Avatar (idem, 2009 / James Cameron)

Onde vivem os monstros (Where the wild things are, 2009 / Spike Jonze)

Quero ser John Malkovich (Being John Malkovich,1999 / Spike Jonze)

 

 

Textos Citados:

MOMCILOVIC, Jérôme. “Max et les maximonstres”. In: Chronic’Art. Disponível no endereço:

http://www.chronicart.com/cinema/chronique.php?id=11576

WAXMAN, Sharon. Rebels on the backlot – six maverick directors and how they conquered the hollywood studio system. New York: Harper Collins, 2005.