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por Leo Cunha
Almodóvar 4 em 1

Em Abraços Partidos, Pedro Almodóvar nos oferece quatro filmes e um sem-número de referências e homenagens (a cineastas, gêneros, escolas, ao super-8, à dublagem, à montagem, etc). Alguns espectadores vão achar excessivo, mesmo para artista tão intertextual como Almodóvar. Por outro lado, é admirável o modo como o espanhol consegue entrelaçar tudo isso.
O segmento “principal” se passa na atualidade. É dele que vão derivar, através da memória ou da narração, os outros três. Ali conhecemos o roteirista cego Harry Caine, que tenta superar um passado trágico. Segundo Harry, tudo de ruim que poderia lhe acontecer já aconteceu. “Agora só me resta curtir a vida”, diz ele, numa das primeiras cenas, quando Judit (uma mistura de agente, produtora, faxineira e mãe) se mostra preocupada com ele. Mas deste passado nebuloso somente aos poucos vamos conhecendo os detalhes.
Em off, Harry informa que ele na verdade é Mateo Blanco, um cineasta que costumava usar o pseudônimo Harry Caine somente para assinar roteiros. Em algum momento, porém, foi obrigado a desaparecer do mapa e converter-se em seu pseudônimo. Foi também quando perdeu a visão. A história do roteirista cego pode provocar no espectador um estranhamento, pois embora inclua eventos que a aproximariam de um melodrama, Almodóvar faz questão de fugir do tom melodramático (tão evidente em filmes como Fale com Ela e Tudo Sobre Minha Mãe, por exemplo). Seja no uso da trilha, seja no tom de voz da narração em off, tudo aponta para a desdramatização dos problemas e traumas do personagem, e o espectador não é levado a se compadecer ou se solidarizar com ele. Então vem a dúvida: se não busca este tipo de emoção e reação, o que pretende Almodóvar?
Uma cena curta, aparentemente solta, pode dar a chave para nos situarmos perante a história de Harry. É quando ele, aos 9 minutos de filme, comenta que gostaria de fazer um filme inspirado na vida do filho do dramaturgo Arthur Miller. Portador da síndrome de Down, o garoto foi rejeitado pelo pai (e escondido até mesmo em suas memórias), mas mesmo assim protagonizou um ato grandioso: certa vez, Miller fazia um discurso em defesa de um deficiente mental condenado à morte, sem saber que o próprio filho rejeitado estava na plateia. Ao final do discurso, um rapaz o abordou e lhe deu um forte e comprido abraço. Miller, sem conseguir se desvencilhar daquele sujeito, acabou ouvindo, atônito, o rapaz dizer que era seu filho e que se orgulhava muito do pai. Segundo Harry, o filme que queria fazer não era sobre a fraqueza do pai, mas sim sobre a força do filho: “uma história sobre a superação e a bondade natural”.
Este mote é aparentemente esquecido no restante do filme, mas se revela essencial no fim, quando Harry decide reeditar, 15 anos depois, sua comédia Garotas e Malas, que fora sabotada pelo produtor e assim, de certa forma, reeditar sua própria vida. Ali, fica evidente que Harry não quer ser levado pela vingança ou pelo rancor, pelo contrário, está pronto para perdoar quem lhe prejudicou (e foram muitos: Martel, Judit, Ray X, o destino). Retoma-se o mesmo abraço grandioso do filho de Miller, que parecia largado lá no início do filme.
O “segundo filme” de Abraços Partidos é um longo flashback em que Harry relata a Diego (seu assistente e filho de Judit) o que ocorrera 15 anos antes. Na época, ainda cineasta, e atendendo pelo nome de Mateo, fazia o casting de Garotas e Malas quando topou com Lena (Penélope Cruz), atriz nada excepcional, a não ser por dois detalhes: sua beleza de Audrey Hepburn latinizada e seu marido milionário, Ernesto Martel, disposto a financiar o filme somente para agradar a jovem esposa (situação semelhante à que o próprio Almodóvar viveu com o produtor de seu filme Maus hábitos).

Mateo resolve a questão financeira do filme, mas ganha outro problema: ele e Lena se apaixonam perdidamente e precisam esconder o amor de todos, principalmente do marido, de quem ela tem nojo, mas uma dívida de gratidão (pois o “velho”, de quem era inicialmente secretária, a ajudara na doença de seu pai). Espremido entre a paixão proibida e a necessidade pragmática de concluir o filme, Mateo tenta dar conta dos dois, até que um episódio violento o leva a optar pelo desejo (palavra sempre essencial em Almodóvar). E com isso deixa a película inacabada nas mãos vingativas de Martel.
Como se pode perceber, este segmento, ao contrário do anterior, é mais próximo do universo almodovariano. Além do tom e da profusão de eventos melodramáticos, está presente um tema recorrente: a tênue separação entre os instintos de amor e violência. Em Matador, a advogada María e o toureiro Diego só atingem o orgasmo quando matam o parceiro. Em Ata-me, Ricky sequestra e amarra a estrela pornô Marina, na esperança de que ela se apaixone por ele. Em Fale com Ela, Benigno ama uma mulher que para todos efeitos está morta, e a salva da morte com um ato de violência. Quantos personagens escritos por Almodóvar amam tanto, ou de forma tão obsessiva, que acabam destruindo, ou tentando destruir, seu objeto de devoção? Em Abraços Partidos, é Martel que, confrontado com o nojo e o desdém da esposa, prefere vê-la morta a perdê-la para outro. A cena, filmada de forma primorosa, remete a Interlúdio, de Hitchcock.
Outra característica almodovariana deste segundo segmento é justamente a quantidade e a variedade de citações a outros filmes e diretores (além de Hitchcock, há referências a Douglas Sirk, Vincent Minnelli, Billy Wilder, entre outros). O segmento ganha força, também, pela presença de Penélope Cruz. É inegável seu poder de sedução (algo que alia talento, beleza e carisma), sua capacidade de mudar o tom e mesmo o ritmo de uma narrativa, especialmente quando surge já no meio do filme, como aqui e em Vicky Cristina Barcelona, por exemplo. Por várias vezes, Almodóvar enche a tela com o corpo e sobretudo o rosto de Penélope.
Voltando ao ato violento de Martel contra Lena, é curioso notar que Almodóvar o deixa impune, algo incomum em sua obra. Se em seus filmes nenhuma nudez será castigada e toda perversão será perdoada, pode-se dizer que praticamente todo ato violento encontrará punição: por exemplo, morrerão os amantes assassinos de Matador, os molestadores de Volver, Má Educação e Tudo Sobre Minha Mãe e mesmo o violentador “benigno” de Fale com Ela. Já em Abraços, o canalha Martel se safa da tentativa de assassinato de Lena e também do assassinato “simbólico” do filme dirigido por Mateo. Almodóvar deixa a entender que, desta vez, não está interessado nas culpas e culpados, e sim na grandeza do perdão e da superação, como apontei acima.
O terceiro filme de Abraços é, na verdade, uma variação do que os franceses chamam de mise en abyme: não apenas um "filme dentro do filme", mas o making of deste "filme dentro do filme". A pretexto de filmar os bastidores de Garotas e Malas, Ernesto Jr, o filho mimado e medroso do produtor, aceita, a mando do pai, o serviço sujo de acompanhar, ou melhor, perseguir, Mateo e Lena, registrar todos os instantes em que os dois passam juntos. Neste segmento, Almodóvar homenageia o super-8, formato no qual rodou seus primeiros curtas e pelo qual se diz apaixonado até hoje. É justamente uma limitação do super-8 (a falta de som) que irá gerar algumas das cenas mais marcantes do filme. Martel tem em mãos todas as imagens dos diálogos entre sua esposa e o amante, mas para descobrir o que estão efetivamente dizendo, precisa contratar uma especialista em leitura labial.

Lola Dueñas, a tal leitora de lábios, faz seu serviço com grande competência e igual insensibilidade, não demonstrando qualquer constrangimento de “traduzir” para Martel as palavras de desprezo com que Lena se refere a ele. O efeito é ao mesmo tempo cômico e dramático, e faz lembrar a cena antológica em De Salto Alto, em que a apresentadora de um telejornal confessa ao vivo um assassinato, enquanto, a seu lado, uma especialista em libras repete tudo em gestos para os espectadores. A diferença é que a tradutora de De Salto Alto entra em pânico, enquanto Lola não se abala com a podridão.
Enquanto no “filme principal” a cegueira de Harry é essencial, aqui a questão da visão tem papel definidor. Se o filme em super-8 é incapaz de se fazer ouvir, é pelos olhos de Lola que Martel vai descobrir a ojeriza e o ódio que Lena nutre por ele. Até o momento crucial em que Lena irrompe pela sala de projeção, toma o lugar de Dueñas e dubla ela mesma suas falas. Cena deslumbrante, com Penélope à beira de um ataque de nervos.
E com isso chegamos ao quarto filme de Abraços Partidos, que nada mais é do que uma autocitação, ou uma homenagem de Almodóvar à sua já clássica comédia Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos. Só vemos alguns trechos de Garotas e Malas, mas a trama rocambolesca, os diálogos, a estética, tudo reconstrói a farsa alucinada de 1988. Poderíamos até mesmo falar de um quinto filme, pois há duas versões de Garotas e Malas: a que foi lançada nos cinemas por Martel, após uma edição maldosa que escolheu propositalmente os piores takes de cada cena, e o filme reeditado por Harry, tantos anos depois, como um acerto de contas com o passado, selecionando meticulosamente, embora às cegas, os melhores takes.

Para Harry Caine (nome cuja pronúncia “espanholizada” é quase idêntica a hurricane), é preciso concluir os filmes, mesmo às cegas. Ou mesmo no olho do furacão.
Filmes Citados:
Interlúdio (Notorious, 1946 / Alfred Hitchcock)
Abraços Partidos (Los abrazos rotos, 2009)*
Volver (idem, 2006)*
A Má Educação (La mala educación, 2004)*
Fale com Ela (Hable com ella, 2002)*
Tudo Sobre Minha Mãe (Todo sobre mi madre, 1999)*
De Salto Alto (Tacones lejanos, 1991)*
Ata-me (Átame!, 1990)*
Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos (Mujeres al borde de un ataque de nervios, 1988)*
Matador (idem, 1986)*
Maus hábitos (Entre tinieblas, 1983)*
*Dirigidos por Pedro Almodóvar







