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por Leo Cunha
Comédia à francesa - parte 3: A Grande Escapada
Segunda Guerra Mundial. A França está ocupada pelo exército alemão. Um belo e imponente teatro parisiense foi redecorado com motivos nazistas e está prestes a abrigar obras voltadas para a glória do Führer. Mas alguns franceses, da resistência, planejam explodir o teatro durante um espetáculo, matando centenas de nazistas de uma só vez.
Bastardos Inglórios? Nada disso. É o início da comédia francesa La Grande Vadrouille, de Gérard Oury, conhecida por aqui como A Grande Escapada. É possível que Tarantino, com seu repertório enciclopédico, conheça este filme de 1966 e o tenha usado como uma de suas várias inspirações para sua obra-prima de 2009. Mas isto, no fundo, não importa. O que interessa, aqui, é destacar o fascínio duradouro do filme de Oury. Mesmo porque as duas obras diferem muito em estrutura e estilo: em Bastardos, o ataque ao teatro é o clímax narrativo e emocional, o ponto de encontro dos protagonistas de cada capítulo anterior. Em A Grande Escapada, o ataque ao teatro é apenas o estopim, o ponto de partida para a fuga espetacular anunciada no título.
Quanto ao estilo, pode-se dizer que ambos filmes são cartunescos, mas de modos distintos. Tarantino prefere a violência hiperrealista – ainda que sua realidade seja mais a da própria arte e história cinematográfica. Já o cartum de Oury remete aos desenhos animados e à comédia slapstick. Aqui os corpos caem e não se machucam, uns atiram nos outros e ninguém morre, um simples golpe de mão é capaz de derrubar um inimigo muito mais forte. Atos e gestos improváveis acontecem sem maiores justificativas, numa assumida e complexa comédia corporal, sempre bem coreografada, como ilustra a dança das cadeiras promovida por patéticos oficiais nazistas.

Na abertura de A Grande Escapada, um avião da força aérea britânica se perde nos ares (quando o copiloto derruba café sobre o mapa de navegação!) e acaba adentrando, por engano, o espaço aéreo de Paris. Sem demora, o exército nazista, espalhado pela capital francesa, avista e derruba o avião inimigo. Os três oficiais britânicos se salvam de paraquedas, mas cada um despenca num lugar diferente. A única forma de se reunirem, e de escaparem dos alemães, é contando com a ajuda dos cidadãos locais. Mas nem todos os franceses estão 100% imbuídos do espírito da Resistência.
O maestro Stanislas, por exemplo, é um sujeito ranzinza e egocêntrico que só quer saber de sua música e não demonstra nenhuma propensão, humanista ou ideológica, para ajudar o copiloto que pousou sobre a Opéra Garnier. Para cooperar, ele exige que o inglês lhe garanta que, uma vez salvo, vai sumir de seu caminho e deixá-lo em paz. O que o maestro não sabe é que um grupo de cantores plantou explosivos nas flores que enfeitam a plateia e pretende mandar o teatro pelos ares, durante o concerto. Em outro ponto da cidade, o simpático Augustin, pintor de paredes, tem reação oposta à de Stanislas. Desde o primeiro momento, dispõe-se a colaborar com o oficial britânico que pousou à sua frente. Ainda mais quando surge a linda Juliette para acompanhá-lo na tarefa.
O êxito cômico de A Grande Escapada reside, em boa parte, no jogo de oposição entre os dois protagonistas franceses: o maestro rabugento encarnado por Louis De Funès e o pintor simplório vivido por Bourvil, forçados pelas circunstâncias a atuarem juntos nessa missão improvisada.
A fórmula do duo cômico já foi repisada incontáveis vezes no cinema popular francês, quase sempre inspirado em um clássico duo circense: de um lado, temos o Palhaço Branco, um sujeito sério, impaciente, antipático, mandão; do outro lado, o palhaço Augusto, um sujeito mais brincalhão, calmo, simpático e submisso. Este tandem – como os franceses costumam se referir ao duo cômico – rendeu duplas memoráveis em filmes do próprio Oury (como O Trouxa, Mania de Grandeza, Fantasma com Chofer), Edouard Molinaro (Fuja Enquanto é Tempo, A Gaiola das Loucas 1 e 2), Francis Veber (A Cabra, Os Compadres, O Jantar dos Malas), Jean-Marie Poiré (na série Os Visitantes) e continua marcando presença em filmes mais recentes, como Meu Melhor Amigo (de Patrice Leconte) e Bienvenue Chez les Ch’tis (de Dany Boon), sem esquecer a dupla Astérix e Obélix, nos quadrinhos e no cinema.
Na maioria destas comédias, o palhaço Augusto é evidentemente o mais engraçado (ou mesmo o único efetivamente engraçado), criando uma série de embrulhadas e quiproquós para o desespero do palhaço Branco e o delírio do espectador. A Grande Escapada, porém, traz uma peculiaridade: um raro equilíbrio entre Stanislas (o Branco) e Augustin (o Augusto, não por acaso). Nenhum dos lados do duo sobressai, pelo contrário: cada um tem uma cota generosa de falas, cenas e situações cômicas, a começar pela célebre cena do banho turco.
Stanislas e Augustin têm que ir ao banho turco para localizar o piloto, líder do grupo inglês. Para tanto, eles só dispõem de duas informações: 1) o nome da operação é Tea for two, como a conhecida canção romântica; 2) o piloto é um sujeito bigodudo. De posse das duas dicas, Bourvil e De Funès protagonizam uma sequência antológica: nus, fumaça até a cintura, cada um rodeia um bigodudo incauto, que estava ali por acaso, lança para ele olhares insinuantes e cantarola “tea for two, and two for tea; me for you and you for me”.
De Funès, um dos grandes gênios do humor francês, é capaz de transformar o maestro reclamão, egoísta e pedante numa figura irresistível. Para isso, recorre a todo o seu arsenal de gestos, caretas, olhares e resmungos que o faziam parecer um personagem saído de algum desenho animado, muito mais do que um sujeito de carne e osso. Este tom burlesco, surreal, irreal (pois cometia gestos e movimentos que o suspendiam momentaneamente de qualquer lógica realista) é que nos fazia perdoar e rir dos defeitos de seus personagens. Como não rir do Pernalonga ou do Papaléguas, mesmo conhecendo suas pequenas maldades?
Ao longo deste inusitado road movie, o maestro Stanislas faz várias crueldades contra o ingênuo Augustin, chegando a ponto de convencê-lo a carregá-lo nos ombros, sem nenhum motivo aparente que não sua “posição social” superior. Esta imagem – a mais picaresca (e pitoresca) do filme – estampa a capa de algumas edições do DVD.

Difícil imaginar outro ator capaz de se safar com um personagem tão mesquinho e agressivo, mas De Funès tira de letra. Até mesmo o implacável Serge Kaganski, crítico da Inrockuptibles, insuspeito de qualquer simpatia pelas comédias populares francesas, reconhece a grandiosidade do ator.
“De Funès continua, a meus olhos, um dos campeões do riso de nosso cinema, mesmo se lhe faltaram grandes cineastas para melhor florescer seu talento. Não havendo um Billy Wilder francês, de Funès se contentou com Jean Giraud (ruim), André Hunebelle (mediano), Edouard Molinaro (melhor) e Gérard Oury (nada mal, melhor escrito que Dany Boon). Meu top 5 de Funès: O trouxa, Mania de grandeza, As loucas aventuras do Rabbi Jacob, Oscar, A grande escapada. A cada vez, um personagem antipático, fraco, calculista, dúbio, que provoca mudança nos gentios. Ele tinha um rosto de uma plasticidade incrível, passando da cólera à doçura dissimulada, do espanto exagerado ao pavor, com uma lendária gama de tiques e caretas. Seu corpo não parava quieto, pronto para todos os movimentos, todas as agitações. E ainda por cima havia sua voz, uma verdadeira modulação de freqüência sem igual. De Funès tinha a aparência física de um grande burguês, de um diretor de banco, mas o dinamitava com uma dose de loucura e anarquia própria a todo grande cômico.”
A abordagem burlesca de De Funès é sublinhada também por seu biógrafo Pascal Djemaa, no livro Louis de Funès – le sublime antihéros du cinéma français.
“Com ele não havia situação dramática: tudo era acelerado e embalava a todos os públicos (...) Ele elevou a gag visual maldosa à altura de uma ciência exata, atingindo o mais alto grau cômico por meio de um estilo bastante rigoroso. Louis descartou o lado ‘bom moço’ que predominava nas comédias rodadas em série nos anos 50.” (DJEMAA, 2008, p. 13-14).
Em A Grande Escapada, algumas das melhores gags de De Funès tiram proveito do fato de que o personagem é um maestro. Numa delas, ele rege o ronco de um brutamontes nazista, fazendo-o mergulhar novamente no sono. Em outra, talvez a mais nonsense de todo o filme, Stanislas está guardando sua peruca de maestro quando, ao espetá-la no suporte de isopor, sente o alfinete lhe furando a cabeça, como um vodu.
Reações
Há 43 anos, A Grande Escapada levou mais de 17 milhões de franceses aos cinemas, número que até hoje só foi superado por Titanic (de 1997) e por outra comédia francesa, Bienvenue Chez Les Ch’tis (de 2008), também calcada na força de um tandem, mas muito mais comportada do que o filme de Oury. Considerando que a população francesa em 1966 era de 48,9 milhões (em comparação com os 62,1 milhões de 2008), dá pra ter uma noção do fenômeno obtido pelo trio Oury-Bourvil-De Funès.
Como lembra outra biografia de De Funès, o público francês se encanta pelo tipo irascível e “coloridamente colérico” cujo ápice pode ser encontrado neste Stanislas:
“Os franceses adoram este personagem no qual eles podem identificar a si ou a seu vizinho: o francês médio que ruge, que esbraveja, mas que não chega a se revoltar. Ele urra contra a polícia, os vizinhos, o pároco, os impostos. Ele exprime em voz alta aquilo que todo mundo pensa em silêncio; ele erige sua própria vida como verdade absoluta! O pároco é benigno quando precisamos dele, maldito quando nos incomoda. Não saberíamos reagir assim na nossa vida e, no entanto, bem que gostaríamos. Agimos respeitosamente diante de uma pessoa e, mal ela vira de costas, fazemos uma careta. De Funès surgia, então, como um exutório, para ajudar as pessoas a se curarem de sua própria agressividade, de sua frustração social, ao exibir seus defeitos condenáveis e não menos humanos” (BONNOTE, 2002, p. 23)
Já a crítica... Bem, como de praxe, a comédia popular de Oury foi recebida pelos críticos com desdém. Com o tempo, porém, as boas comédias se impõem e os críticos têm a chance de voltar atrás. A redenção definitiva de A Grande Escapada (e do cinema popular de Oury, como um todo) ocorreu em 2001, quando o cineasta recebeu um Prêmio Especial no Festival de Cannes.
A acusação mais comum ao filme, ainda hoje, é a de que ele seria politicamente revisionista, ao passar a impressão de que o grosso dos franceses participava da resistência aos nazistas, quando na verdade uma grande parcela da população colaborou com a ocupação. Mas esta hipótese pode ser contraposta por dois argumentos: 1 - a trama está centrada em franceses que realmente resistiram, portanto é natural que eles sobressaiam; 2 - o próprio Stanislas é exemplo de um francês que não participou voluntária e ideologicamente da oposição aos nazistas.
Sua aversão aos “invasores” só ganha força quando eles começam a atrapalhar sua música, como na cena em que os alemães interrompem os ensaios da orquestra para procurar os ingleses supostamente escondidos na Ópera – ao que Stanislas reage com irritação, informando aos músicos: “O ensaio será interrompido por doze minutos por força das metralhadoras!” No início do filme, é evidente que o maestro não tem maiores simpatias pela Resistência, nem vice-versa. Stanislas quase é vítima da explosão no teatro, armada pela Resistência e, depois, ao longo da escapada, ele é tragado pelo movimento, contra sua vontade.
A forma como Stanislas usa e abusa do pobre Augustin – justificada meramente na crença de sua superioridade social ao pintor – funciona como espelho e crítica da ocupação alemã e da doutrina nazista, como um todo – justificada na crença na superioridade racial. Será preciso que o pintor salve sua vida 2 ou 3 vezes até que o maestro desça do seu pedestal e de sua mesquinhez. Neste sentido, pode-se dizer que, por trás de todos os quiproquós, tombos, correrias e caretas, Oury fez um filme fortemente humanista.
Filmes Citados:
Bastardos Inglórios (Inglourious basterds, 2009 / Quentin Tarantino)
Bienvenue chez les Ch’tis (2008 / Dany Boon)
A cabra (La chêvre, 1981 / Francis Veber)
Os compadres (Les compères, 1983 / Francis Veber)
Fantasma com chofer ( Fantôme avec chauffeur, 1995 / Gérard Oury)
Fuja enquanto é tempo (L’Emmerdeur, 1973 / Edouard Molinaro)
O jantar dos malas (Le dîner de cons, 1998 / Francis Veber)
A gaiola das loucas 1 e 2 (La cage aux folles 1 et 2, 19 e 198 / Edouard Molinaro)
A grande escapada (La grande vadrouille, 1966 / Gérard Oury)
As loucas aventuras do Rabbi Jacob (Les aventures de Rabbi Jacob, 1973 / Gérard Oury)
Mania de grandeza (La folie des grandeurs, 1971 / Gérard Oury)
Meu melhor amigo (Mon meilleur ami, 2006/ Patrice Leconte)
Oscar (idem, 1967 / Edouard Molinaro)
O trouxa (Le corniaud, 1965 / Gérard Oury)
Os visitantes 1 e 2 (Les visiteurs 1 et 2, 1993 e 1998 / Jean-Marie Poiré)
Livros Citados:
BONNOTE, Stéphane. Louis de Funès – jusqu’au bout du rire. Neuilly-sur-Seine: Ed. Michel Lafon, 2002.
DJEMAA, Pascal. Louis de Funès – le sublime antihéros du cinéma français. Paris: Ed. Autretemps, 2008.
Blog Citado:
Le blog de Serge Kaganski (http://blogs.lesinrocks.com/s-kaganski)







