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por Leo Cunha
Moscou: cinema mais teatro, menos teatro, versus teatro

Moscou é um projeto repleto de liberdade, experimentação e improvisação, mas regido justamente pelo seu único elemento arbitrário: o fator tempo. Como as primeiras cenas já deixam claro, Eduardo Coutinho se propôs a filmar, durante 18 dias, o Grupo Galpão ensaiando a peça As três irmãs, de Tchekhov. Dezoito dias, e não mais do que isso. Afinal, a peça jamais seria encenada pra valer (talvez por isso tenham abandonado o título provisório Antes da estréia). Esta limitação temporal, auto-imposta por Coutinho, possivelmente servia bem ao projeto do cineasta, por mais que confrontasse a lógica de trabalho do Galpão.
Com décadas de estrada, o Galpão tem como uma de suas marcas a criação coletiva, colaborativa. Sem abrir mão de um diretor/encenador, os espetáculos do grupo mineiro valorizam muito os vários outros “personagens” do espetáculo: a dramaturgia, a iluminação, a música, a preparação corporal, etc. Foi assim nos arrebatadores Romeu e Julieta, A rua da amargura e Um Molière Imaginário, por exemplo, assim como nos surpreendentes Partido, Um trem chamado desejo, Pequenos milagres, entre outros. Como resume bem o professor Ernani Maletta em sua tese de doutorado, trata-se de um teatro essencialmente polifônico, no qual diversas contribuições (e portanto vozes) se manifestam de forma simultânea e equipolente.
A princípio, portanto, o projeto de Coutinho se adequaria perfeitamente ao estilo e ao modus operandi do grupo, na medida em que o cineasta seria mais uma das vozes no jogo dialógico. Acontece que o estilo de criação coletiva do Galpão demanda não apenas dialogismo, mas também tempo. O ritmo (ou melhor, o andamento) do trabalho é outro. Por isso, quando cria um limite temporal arbitrário, Coutinho inevitavelmente interfere no próprio processo de construção da peça, acelerando e antecipando etapas que naturalmente só viriam semanas ou meses depois. Quando vai para o palco, após uma longa jornada de ensaios e preparação, o grupo costuma ter nas mãos um espetáculo consistente e orgânico, que pede uma visão de conjunto, tanto em termos de espaço quanto de tempo.
Nas peças do Galpão, é importante captarmos visualmente o conjunto do palco (ou do espaço de exibição, nem sempre um palco), pois freqüentemente há ações ocorrendo simultaneamente em pontos distintos. Da mesma forma, existem conexões temporais entre as cenas que só serão percebidas quando assistimos o espetáculo do início ao fim.
Em Moscou, Coutinho deliberadamente nos impede de vislumbrar este conjunto, tanto temporal quanto espacial. Sua opção é filmar as cenas de ensaio, quase todas, em planos mais fechados, focando poucos personagens, detalhes do que seria, visualmente, a cena num teatro. Quando opta por um plano mais aberto, teoricamente mais próximo da visão da platéia teatral, cria-se um contraste bonito e surpreendente (como na cena em que a tela/palco/sala de ensaio está às escuras, só iluminada por isqueiros).
Inteligente, Coutinho percebeu que aqueles ensaios, por si só, não seriam um retrato justo do Grupo Galpão e seu processo de trabalho. Assim, mescladas às cenas de ensaio, surgem outras imagens, com depoimentos dos atores, memórias, reflexões, algumas vezes reais, outras vezes fictícias, tomadas de empréstimo da própria peça encenada ou de depoimentos alheios (ou melhor, dos outros atores, em estratégia que se aproxima do filme anterior de Coutinho, Jogo de Cena).
Se o conjunto espacial não se revela, o mesmo ocorre no aspecto temporal. Ainda que siga, de forma aproximada, a cronologia do texto de Tchekhov, Coutinho fragmenta bastante a dramaturgia e jamais cai numa postura descritiva, muito menos explicativa. Ele não quer fazer making of e também não busca um espetáculo pronto. Sua intenção é captar a etapa intermediária, incompleta, sofrida, repleta de exercícios, dúvidas, apreensões, sensações e descobertas, o que, num grupo do quilate do Galpão, é certamente uma etapa rica. Em depoimento à tese de doutorado de Ernani Maletta, Paulo José (que dirigiu o Galpão na montagem de O inspetor geral) explica que no processo de preparação da peça os atores eram “estimulados a desenvolver ao máximo suas potencialidades, trabalhando o corpo, a voz, tocando os mais variados instrumentos, cantando, dançando e interpretando os imortais personagens de Gogol, com inspiração, transpiração, rigor e liberdade.”
Neste processo, cada exercício pode desembocar em alguma contribuição ao resultado final. Mas o exercício é sempre uma atividade meio, preparatória, jamais o fim. O filme às vezes passa a impressão de ser, ele próprio, um destes exercícios. Mas um exercício de quem? Do Galpão? De Coutinho? De Enrique Diaz, o diretor (da peça) convidado?
Nesta situação de ensaio um tanto quanto artificial e improvável (porque muito mais acelerada do que o tempo natural do grupo), os atores do Galpão são como cobaias e o cineasta é o cientista. Não um cientista maluco, evidentemente, mas um pesquisador generoso, curioso para testemunhar e/ou descobrir no que ia dar aquele experimento.
Consultando o blog em que Eduardo Moreira, integrante do Galpão, descreveu o diário de filmagem de Moscou, encontro alguns trechos que reforçam esta impressão:
[Assim que o grupo fica sabendo que a peça a ser ensaiada é Três irmãs]: “É um universo familiar ao diretor [Diaz], e bastante distante para nós. O teatro do Galpão está a léguas e milhas de distância de um Tchekov. Ótimo! Vamos apanhar, e estamos aqui para isso mesmo.”
Mais abaixo:
[Após uma reunião tensa e mudanças de rumo] “Parece existir uma certa saia justa por parte dos atores, que se sentem meio aprisionados pela proposta.”
E também:
“Acho que o tema do filme do Coutinho poderia ser sobre o desespero da criação.”
A leitura do diário de Eduardo Moreira permite especular que o material bruto filmado pelo xará Coutinho (várias horas, segundo afirmou em entrevistas) provavelmente é muito mais rico em termos teatrais. Já o filme de 80 minutos, como foi editado para exibição nos cinemas, parece ter mais peso como experimento cinematográfico (em sua exploração das interseções entre realidade e ficção, vivência e representação) do que teatral.
Filmes Citados:
Jogo de Cena (2007 / Eduardo Coutinho)
Moscou (2009 / Eduardo Coutinho)
Peças Citadas (do grupo Galpão):
O inspetor geral
Um Molière imaginário
Partido
Pequenos milagres
Romeu e Julieta
A rua da amargura
Um trem chamado desejo
Tese Citada:
MALETTA, Ernani de Castro. A formação do ator para uma atuação polifônica: princípios e práticas. Belo Horizonte: FAE-UFMG, 2005.
Blog Citado:
Diário de filmagem, por Eduardo Moreira. (link:
http://www.grupogalpao.com.br/blog/?p=89 )







