- The beaver: mea culpa ou chantagem emocional?
- Passe livre: os Farrelly e a crise da meia-idade
- Cisne Negro: Darren Aronofsky e a autodestruição
- Mario Monicelli: idade, covardia e coragem
- Pôsteres, títulos, créditos: os paratextos de Quentin Tarantino
- Comédia à francesa - parte 4: A Riviera não é aqui
- O Escritor Fantasma – o homem que sabia de menos
- Alice no país de Tim Burton
- Onde vive Spike Jonze?
- Almodóvar 4 em 1
- Comédia à francesa - parte 3: A Grande Escapada
- Amantes e Arraste-me para o inferno: sobre o mal e os males
- Moscou: cinema mais teatro, menos teatro, versus teatro
- Jean, um brasileiro
- Comédia à francesa - parte 2: Os Tios Bons de Pistola
- Comédia à francesa - parte 1: Papai Noel é um Picareta
- Sinédoque: Nova York – Isto não é uma cidade
- Coraline: interação e metalinguagem
- Foi Apenas Um Sonho
- Milk

por Leo Cunha
Amantes e Arraste-me para o inferno: sobre o mal e os males
Assistir em seqüência a dois filmes muito diferentes costuma sugerir afinidades e analogias inesperadas entre eles. Foi o que me ocorreu recentemente ao ver Amantes, de James Gray, e Arraste-me para o inferno, de Sam Raimi, dois diretores que vêm constituindo carreiras bem pessoais, na tangente da indústria hollywoodiana (Raimi namora com a superprodução e o cinema de gênero, mas não renega sua origem mais independente; Gray se inserindo na tradição da narrativa clássica, mas também preservando um intimismo e um despojamento mais típicos do cinema independente).
Mais especificamente, três aspectos chamaram minha atenção: o modo como cada um dos filmes lida com “o mal”, o modo como ambos acabam apontando para outros males do mundo atual, e a forma como constroem seus (un)happy ends.
A princípio, temos filmes que operam em lógicas (ou talvez crenças) distintas: Arraste-me é um filme sobre o mal, ou, no mínimo, um filme que acredita na presença eterna do mal. Toda a trama, desde o prólogo, aponta para a imortalidade das forças ocultas, inumanas e inevitáveis.

Amantes, por sua vez, dispensa a presença da maldade (e do inumano). É aquele tipo incomum de filme onde não há más intenções, não há vilões. O mal, quando irrompe, é essencialmente físico (a incompatibilidade genética que impede o casamento de Leonard com a ex-noiva; o vício em cocaína de Michelle) e nunca moral.
No filme de Gray, os possíveis antagonistas se mostram sujeitos sensíveis e sensatos. O amante de Michelle não é um sacana, conquistador barato, pelo contrário, é um sujeito em crise no casamento, que se mostra bem intencionado e preocupado com a moça. O futuro sogro não é um empresário inescrupuloso, disposto a engolir gananciosamente o pequeno negócio dos pais de Leonard, a semelhança de um vilão de Capra, por exemplo. É um sujeito genuinamente disposto a abrir as portas da empresa, da casa, e também o coração, para o namorado instável e aparentemente pouco confiável da filha.
Na ausência de antagonistas, ficamos um pouco como Leonard, sem um canal para despejar nossa raiva ou a frustração. A solução para o rapaz seria jogar tudo no mar, ou mesmo se jogar no mar? Também não, sugere Gray, pois a água traz tudo de volta à tona, ou à margem.
Gray constrói um filme cheio de ambigüidades, sem emoções fáceis, telegrafadas. Não tem medo de esticar os tempos, de deixar os personagens se construírem a nossa frente, de nos fazer prever o pior... mas o que seria o pior? De um lado está a linda Michelle, fã de discoteca e ópera: a escolha impulsiva e explosiva, mas de futuro imprevisível. Do outro lado a linda Sandra, fã de A noviça rebelde: uma opção sensata e reconfortante, mas incomodamente similar ao passado (família, tradição, domesticação).

(Atenção, spoiler adiante)
A cena final, com a consumação do noivado e da união harmoniosa das famílias, é de uma amargura imensa, revelando o quão difícil, quase impossível, pode ser a tal felicidade. Quando Sandra vê uma lágrima cair do olho de Leonard, pergunta: “você está chorando?” Ele mente: “só estou feliz”. É a última frase do filme. Em atuação preciosa, Joaquin Phoenix nos concede (e à noiva) um meio sorriso, um abraço contido, um beijo de olho aberto (e mirando diretamente a nós, espectadores). E sobem os letreiros ao som de uma ópera triste.

Em consonância com todo o filme, trata-se de um final não apenas desglamourizado, mas totalmente isento de moralismo e julgamento. Embora aponte para o casamento, estamos longe do happy end, ou melhor, nos vemos diante da fragilidade do happy end .
E aqui voltamos a Arraste-me para o inferno, cujo final surpreendente nega o casamento (e o “felizes para sempre”) e, apesar disso, já foi acusado de moralismo. Foi, por exemplo, a visão do critico Luiz Carlos Merten, do Estadão.
“o desfecho não me convenceu. A ausência de catarse me deixou pissed off. Quando a gente pensa que acabou, aí, sim, vem a barra pesada, só para que o moralismo hollywoodiano prevaleça. Não tem perdão, os culpados têm de pagar – é verdade que na ficção, mais do que na realidade.”
Segundo Merten, o moralismo está no fato de que a morte da “mocinha” Christine representa a punição por um ato de ganância, ou pelo menos, de carreirismo. Afinal de contas, ela mesma reconhece, para o noivo, que poderia ter resolvido o problema financeiro da cliente idosa, mas não o faz para agradar ao chefe, de quem esperava uma promoção. Portanto, mereceu a maldição rogada pela "bruxa velha".
A conclusão de Merten me parece injusta com o filme. Se levada a sério, um filme como este ficaria sempre entre a cruz e a espada: se apostasse no final feliz, com a mocinha salva e o casal unido, Raimi seria acusado de fazer concessão ao happy end hollywoodiano. Como aposta no final violento e cruel, acaba acusado de moralista, ao fazer a moça pagar por seu pecado.
Vale sublinhar que uma das principais críticas feitas ao cinema industrial, ou de entretenimento, é a de que ele introduz a fórceps o final feliz numa estrutura narrativa que não o comportaria ou não o justificaria, visando sobretudo ao maior apego e identificação do público com o herói. Este, perdendo o caráter quase sagrado que tradicionalmente possuía, acabaria se transformando numa espécie de alter-ego do espectador. Segundo Edgar Morin, a adoção indiscriminada do happy end na cultura de massa representa uma verdadeira revolução no reino do imaginário, na medida em que ele significa
“a felicidade dos heróis simpáticos, adquirida de modo quase providencial, depois das provas que, normalmente, deveriam conduzir a um fracasso ou a uma saída trágica. A contradição que fundamenta toda a qualquer atividade dramática (a luta contra a fatalidade, o conflito com a natureza, a cidade, o outro, ou consigo mesmo) ao invés de se solucionar, como na tragédia, quer com a morte do herói, quer com uma longa prova ou expiação, se resolve com o happy end. (...) Esforçando-se para expulsar a tragédia, o happy end se esforça, ao mesmo tempo, para exorcizar o sentimento do absurdo e da loucura dos empreendimentos humanos.” (MORIN , 1997, p. 92/97)
Dentro desta perspectiva, não se justifica, a meu ver, a pecha de conservadorismo ou rendição à lógica hollywoodiana. Ao contrário, parece legítimo entender a solução radical, apresentada por Raimi, como um bom achado narrativo, que não carrega necessariamente o peso de um julgamento moral. Um caso particular, perfeitamente coerente com a trama e com a tradição do gênero. Se for reduzido a uma fábula sintomática dos males contemporâneos, Arraste-me para o inferno perde efetivamente muito da sua força – sem dizer que Raimi já foi bem mais contundente em seu Um plano simples, este sim dotado de um olhar moral (não necessariamente moralista) acerca do poder destruidor do dinheiro.
Já o filme James Gray, com seu (un)happy end, me parece muito mais próximo de uma fábula, embora sem tons moralistas e acusatórios, como indiquei acima. Gray não aponta o dedo para alvos previsíveis e cabíveis dentro daquela história: o capitalismo, o chauvinismo, o hedonismo. Mas acaba cutucando, de forma delicada, outros males mais sutis e escondidos: a dificuldade da comunicação e da franqueza, mesmo entre tanta gente de bem; a improvável coincidência de desejos, mesmo entre tanta gente bonita e interessante.
Filmes Citados:
Amantes (Two lovers, 2008 / James Gray)
Arraste-me para o inferno (Drag me to hell, 2009 / Sam Raimi)
Um plano simples (A simple plan, 1998 / Sam Raimi)
Livro Citado:
MORIN, Edgar. Cultura de massa no século XX: a neurose. 9 ed. Rio de Janeiro: Forense, 1997.
Blog Citado:
Blog do Merten. (link: http://blog.estadao.com.br/blog/merten/ )







