por Leo Cunha

Comédia à francesa – parte 2: Os Tios Bons de Pistola

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Em seu livro de memórias, “On Aura Tout Vu”, o cineasta Georges Lautner conta dois casos interessantes acerca de seu filme mais conhecido e cultuado, Os Tios Bons de Pistola (Les Tontons Flingueurs), lançado em 1963.

 

“À época, eu estava muito influenciado pelo cinema de Orson Welles, que explorava muito a profundidade de campo. Atores em primeiro plano, atores em segundo plano, iluminação bastante complicada... Eu costumava preparar meus planos estudando o lugar de cada ator e prevendo todos os seus deslocamentos com antecedência, para que os ajustes de um plano servissem também a outros. Toda a iluminação e os movimentos de câmera eram também planejados, em função destes deslocamentos. Era assim o meu sistema, minha tecnologia, e tudo tinha funcionado bem até então. Mas no primeiro dia de filmagem de Les Tontons Flingueurs, quando eu disse a Lino Ventura: ‘dê três passos e diga seu texto...’, ele me olhou e respondeu: ‘por que três passos?’  Ele sentia que o melhor eram quatro passos, e eu não pude ir contra seu movimento, quebrar seu ritmo. Assim, naquele instante, eu compreendi que o belo sistema que eu tinha estabelecido acabara de desmoronar. Minha técnica se ferrou. Quando temos a oportunidade de ter no set alguém como Lino, devemos aprender a segui-lo, e não a precedê-lo.”

 

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“Houve uma época em que eu achava que o sucesso do filme vinha somente dos diálogos de Audiard, os quais todo mundo conhecia... Até que um dia, Thierry Frémaux, que cuida do Festival de Cannes e da Cidade Lumière em Lyon, me convidou para uma exibição do filme, numa tela gigantesca instalada nas arenas de Fourvière. Eu perguntei: ‘O que vocês exibiram ontem?’ Ele respondeu: ‘Gladiador’. ‘E amanhã?’  ‘2001, Uma Odisseia no Espaço’, ele explicou. E eu me espantei: ‘Vocês vão colocar meu filminho, em preto e branco, no meio destes dois?’ Mas eu vi a arena se encher de pouco a pouco até que havia, ali, mais de três mil pessoas, quase todas mais jovens do que o próprio filme. E foi fabuloso, porque eles riam dos atores, dos gestos, riam antes da hora, porque já conheciam de cor, já tinham visto tantas vezes o filme. É por isso que eu digo que não são apenas os diálogos de Audiard. Há também o filme, os atores, o diretor... E voltei muito orgulhoso de Fourvière.”

 

O encontro destes dois depoimentos de Lautner nos ajuda a entender o sucesso tão duradouro de Os Tios Bons de Pistola, hoje considerado um clássico tanto da comédia quanto do polar francês.  Como mise-en-scéne, certamente é aquela em que o seu “sistema” – enquadramentos, ângulos, timing – funcionou de forma mais eficiente e pessoal, mas sem passar por cima, como ele próprio indica, da contribuição de cada um dos envolvidos. Lautner, que costumava filmar vários filmes com a mesma equipe, conseguiu promover em Tontons Flingueurs um grande encontro de talentos: os diálogos hilários, provocantes e cruéis de Michel Audiard (com quem faria uma dupla prolífica, em comédias policiais como Les Barbouzes e Ne Nous Fâchons Pas); a graça espontânea e o entrosamento do elenco (liderado por Lino Ventura, Bernard Blier, Francis Blanche e Robert Dalban); a trilha de Michel Magne, tão simples, em nível melódico, e tão rica na mistura dos mais variados tipos de timbres, arranjos e ritmos, do rock ao clássico à canção francesa, que lhe permitiram, sem se afastar do núcleo melódico, transitar do suspense à ironia ao deboche e ao romance.

 

Um história de gângsteres

 

O ponto de partida da trama não tem nada de surpreendente: um gângster que abandona o mundo do crime e depois, por algum motivo, é obrigado a voltar e aceitar uma última “missão”. No caso, Fernand Naudin (Lino Ventura) é o criminoso que passou anos afastado do submundo, até receber o fatídico telegrama do Mexicano (Jacques Dumesnil): sua presença é indispensável em Paris. Acontece que o chamado não é para nenhuma missão criminosa, nenhum grande golpe: na verdade, o Mexicano, capo da contravenção local, está à beira da morte e quer deixar sua filha, Patrícia (Sabine Sinjen), aos cuidados de Fernand, única pessoa em quem confia.

 

A primeira reação de Fernand, como a de todo herói que se preze, é recusar o chamado. Afinal, ele também tem seus negócios pra cuidar e, o que é melhor (pior?): são negócios legais. O Mexicano apela para o sentimentalismo – “os amigos só aparecem quando tudo vai bem...” , “você vai deixar minha pequena Patrícia para os abutres?”, “eu a criei num convento e ela vai acabar nas ruas”, mas Fernand não se dobra. Então, o Mexicano dá sua última cartada: em seu leito de morte, na frente de todos os comparsas, informa que escolheu Fernand como seu sucessor nos “negócios”.

 

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Os outros membros da gangue não recebem nada bem a notícia, mas não há tempo para queixas, pois o Mexicano morre em seguida. Seu último pedido, a Fernand, é que lhe conte como estão as ruas, pois, da cama ele só enxerga o céu. Fernand olha pela janela e vê apenas o Arco do Triunfo e a Champs Elysées vazia, mas descreve o que o Mexicano gostaria de ouvir: as “meninas” saindo da boate Lido. A cena revela como era, afinal, a relação entre os dois: repleta de afeto, nostalgia e até mesmo um toque de poesia. É o que convence Fernand a aceitar a tarefa.

 

Seu primeiro desafio é vencer a resistência dos outros bandidos. Num jogo inteligente de imagem e som, vemos um copo deslizar pelo bar até se espatifar na parede. Em seguida, ouvimos uma bola de boliche deslizar pela pista até derrubar os pinos. Corta para Fernand, expressão perturbada: será ele o próximo alvo? Embora passe praticamente todo o filme às voltas com motins, ciladas e sabotagens, Fernand não demora para mostrar seu pulso forte (em todos os sentidos)  e provar que não é “um mafioso fake nem um retardado” (como os outros cogitavam).

 

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Nestes trechos, Os Tios Bons de Pistola se aproxima de um filme de gângsteres tradicional, repleto de tiroteios, explosões e pancadaria, embora não deixe de explorar um lado satírico, especialmente quando seus “comandados” inventam desculpas para as propinas atrasadas. A cafetina lamenta a queda do movimento, alegando que os culpados são a televisão e o automóvel, que capturaram a atenção e o tempo da clientela masculina. O contrabandista de bebidas também joga a culpa no progresso: o problema seria a concorrência dos refrigerantes, da água mineral e até mesmo do petróleo, cujo mercado em expansão estaria atraindo seus motoristas.

 

Gângster em família

 

Além de lutar contra a resistência interna na organização, Fernand enfrenta outro tipo de desafio, que leva o filme para o campo da paródia: ele logo descobre que, mais difícil que suceder o chefão, é cuidar da filha. Pela descrição do Mexicano, Fernand esperava encontrar uma garotinha mimada e temperamental, mas acaba topando com uma moça linda, coquette, que promove uma festa atrás da outra, sempre acompanhada de Antoine Delafoy, o namorado dândi e debochado.

 

A moça, que só o chama de “titio” (o tonton do título original) vai lhe render inúmeros momentos de desconforto e constrangimento. Numa das melhores cenas, Fernand irrompe na sala de música e flagra Patricia e Delafoy deitados no sofá. Como estão encobertos pelo móvel, não vemos o que os dois estão fazendo, mas podemos imaginar. Numa grande sacada, os diálogos sacanas de Michel Audiard tratam o coitus interruptus sob a forma de metáfora musical: “oh, não, bem no momento em que a flauta ia responder às cordas!” , reclama Antoine, assim que Fernand aparece na sala.

 

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E assim nosso herói vai se virando, dividido entre ser titio ou pistoleiro (tonton ou flingueur). Esse dilema é que torna hilária a mais célebre sequência do filme, ambientada na cozinha. Lá dentro, o grupo de Fernand e o de Raoul Wolfoni (Bernard Blier) se ameaçam, armas apontadas para todos os lados, montes de dinheiro espalhados pela mesa. Do lado de fora, a festa de Patrícia corre solta. De tempos em tempos, a garota e seus convidados entram na cozinha, incautos e sorridentes, para buscar mais canapés e bebidas e, em seguida, saem sem se dar conta do tiroteio que está prestes a estourar. A cada uma dessas interrupções, os gângsteres têm que esconder as armas e se passar por bons amigos, enquanto Paul Wolfoni (Jean Lefebvre) filosofa sobre a diplomacia e os aperitivos. Acabam todos chapados de aguardente vagabunda e chorando as mágoas do passado glorioso do submundo.

 

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Essa cena antológica passa tanta descontração e intimidade que parece ter sido largamente improvisada. Mas Lautner, em seu livro de memórias, faz questão de negar a hipótese:

 

“Era uma verdadeira cozinha, num galpão de periferia. Devia ter dois metros por três, se tanto. É por isso que há poucos movimentos de câmera na cena. Os atores estavam de um lado da mesa, e nós do outro. Hoje em dia, me perguntam muito se houve muita improvisação e, sobretudo: ‘os atores estavam mesmo bêbados?’ Arriscando decepcionar meus interlocutores, devo dizer a verdade: nada foi improvisado. Tínhamos que rodar filmes muito depressa e tudo estava escrito e previsto, os mínimos gestos, os movimentos de câmera e cada uma das palavras.”

 

Após 46 anos, o filme ainda impressiona, não apenas pelos diálogos magistrais, mas também pela direção inspirada e elegante de Lautner, cineasta que acabou fazendo uma grande quantidade de filmes, nem todos com o mesmo rigor  E, ao vermos aquele bando de gângsteres em situações tão prosaicas e descontraídas, podemos pensar em Les Tontons Flingueurs como um dos antecessores de Tarantino ou de séries como Os Sopranos.

 

Uma dica final, para quem se arriscar a procurar o filme na web: escolha a versão original, em belíssimo preto e branco fotografado por Maurice Fellous. A versão colorizada, embora chancelada pelo próprio Lautner, é mais criminosa do que estes titios.

 

Filmes Citados:

Les Barbouzes (1963 / Georges Lautner)

Ne Nous Fâchons Pas (1963 / Georges Lautner)

Os Tios Bons de Pistola (Les Tontons Flingueurs, 1963 / Georges Lautner)

 

Livro Citado:

LAUTNER, Georges. On Aura Tout Vu. Paris: Ed. Flammarion, 2005.