por Leo Cunha

Jean, um brasileiro

jean

Não sei se alguém já cotejou o filme Jean Charles com a novela América, que a Globo exibiu em 2005. Não acompanhei tão de perto o folhetim de Glória Perez, mas lembro que me incomodava o caráter anedótico, a relativa facilidade com que os problemas se resolviam para Sol, a personagem de Deborah Secco. A grande batalha dela, se a memória não me falha, foi atravessar a fronteira do México para os EUA, mas, depois de instalada, conseguiu se virar razoavelmente bem, com a vantagem irreal de sobreviver em português, mesmo quando conversava com os “chicanos”.

 

Jean Charles, por sua vez, apresenta de forma bem mais coerente e convincente este universo dos imigrantes ilegais, ou em vias de legalização (eufemismo que completa bem um outro a que já nos acostumamos: país em via de desenvolvimento). Mesmo o filme tendo romanceado algumas passagens e personagens, ou até por causa disso, está claro ser o trabalho de uma equipe que realmente se debruçou sobre os dilemas envolvidos pelo tema – imigração, sub-emprego, preconceito, corrupção, violência policial, arrogância  britânica, jeitinho brasileiro.

 

Entre os produtores do filme, estão Stephen Frears – que, entre outras obras, dirigiu os excelentes Coisas Belas e Sujas e Minha Adorável Lavanderia, ambos lidando diretamente com o tema dos imigrantes em Londres – e Rebecca O’Brien, veterana produtora de Ken Loach, com quem trabalhou em filmes que também tratam da imigração, como Pão e Rosas  e Mundo Livre.

 

O roteirista e diretor Henrique Goldman – que foi imigrante em Londres e sentiu na pele muitas das pancadas sofridas pelos brazucas nesta condição – não embeleza, não idealiza nem faz melodrama com seus personagens. Ao contrário da Sol da novela, Jean não é nenhum herói bondoso e coitadinho. Está mais para um herói picaresco. Como Lazarilho, pícaro primordial, Jean mente desde a primeira cena, trapaceia, trai – e, mesmo assim, vai angariando nossa simpatia, até admiração, pela forma esperta, pertinaz e bem-humorada como dribla a maioria dos desafios e roubadas, ajudando seus companheiros (sempre que possível), aproveitando a vida e seguindo em frente, até ser vitimado pela fatalidade e pelo erro da polícia britânica.

 

Selton Mello já tinha interpretado outros personagens de perfil picaresco, como o Chicó de O Auto da Compadecida e o Leléu de Lisbela e o Prisioneiro. Mas, aqui, sua construção é muito mais nuançada, nada caricatural. Jean vacila, sofre, se empolga e se atormenta. Seu telefonema para a mãe, dentro de uma cabine telefônica, é uma das cenas mais fortes do filme.

 

Passando a limpo

 

Inácio Araujo argumentou, em seu blog, que Jean Charles perde um pouco a força quando vem para o Brasil, pois “o filme sofre com alguma hesitação, como se não soubesse muito bem o que fazer com os ingleses.” Em termos narrativos, isso é verdade. Mas em termos de imagem, me pareceu muito marcante a passagem da Inglaterra para o Brasil, sobretudo a primeira cena. Enquanto passa o caminhão de bombeiros com o caixão, vemos a estradinha de terra, o matagal, os cavalos pangarés. Até então, nas cenas londrinas, quase tudo era cimento, ferro, andaimes, vidro, “civilização”. Talvez porque Jean e seus conterrâneos estivessem ali para construir (às vezes literalmente), para conquistar algo material, sólido.

 

Os famosos parques da capital britânica passam quase despercebidos em meio a tanto prédio, tanta obra, tanto trânsito. Até os cavalos são finérrimos e comem a mesma cenoura que a rainha (como debochou o próprio Jean). Assim, quando a imagem corta para a folhagem balançando ao vento, à beira da estrada, o impacto é forte. Em seguida, casebres mal rebocados, ruas de poeira, um campinho improvisado de futebol. Um país rascunhado que exporta seus filhos para passar o Primeiro Mundo a limpo. Mas aí já estou fazendo discurso, algo que, felizmente, o filme não faz.

 

Pelo contrário: Jean Charles tem a grande vantagem de não ser, nem precisar ser, panfletário, já que seu “fato gerador” – o assassinato do rapaz, bisonhamente confundido com um terrorista árabe – é, por si só, um manifesto exemplar de tudo aquilo contra o qual o filme poderia soltar o verbo.

 

Quando, a certa altura, Jean lamenta (“tô na luta, mas o sistema é bruto”), não está fazendo discurso e não tem a menor noção da brutalidade que está para chegar. Ele apenas chora seus pequenos reveses, a falta de perspectivas numa cidade onde os brazucas ilegais, segundo ele, se multiplicam “feito Gremlins”. 

 

O mais perto que o filme chega do tom panfletário está nos desabafos de Alex, parente que dividia o apartamento com Jean em Londres. Mas o ator Luís Miranda (apoiado no roteiro, é claro) consegue fazer de sua revolta uma manifestação muito mais íntima e afetiva do que propriamente política. Quando ele grita que vai falar em português mesmo, porque, lá em Londres, “não tem ninguém pra traduzir pra gente”, o que temos não é uma fala ideológica, mas uma constatação pragmática, resultante de sua ralação em terras e fumaças britânicas.

 

Ao final, a imagem que fica de Jean Charles não é a de um mártir, mas a de um sujeito mais complexo e ambíguo, que pode ser visto como um exemplo (bom ou mau), um alerta e até uma inspiração. Neste sentido, a última cena é de grande delicadeza e sutileza: a prima Vívian partindo para viver o sonho mochileiro que Jean não conseguiu realizar.

 

Filmes Citados:

O Auto da Compadecida (2000 / Guel Arraes)

Coisas Belas e Sujas (Dirty Pretty Things, 2002/ Stephen Frears)

Jean Charles (2009 / Henrique Goldman)

Lisbela e o Prisioneiro (2003 / Guel Arraes)

Minha Adorável Lavanderia (My Beautiful Laundrette, 1985 / Stephen Frears)

Mundo Livre (It’s a Free World, 2007 / Ken Loach)

Pão e Rosas (Bread and Roses, 2000 / Ken Loach)

 

Novela Citada:

América (2005 / Glória Perez)

 

Livro Citado:

Anônimo. Lazarilho de Tormes. SP: Ed. 34, 2006.  

 

Blog Citado:

Cinema de boca em boca (Inácio Araujo) - http://inacio-a.blog.uol.com.br/