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por Leo Cunha
Comédia à francesa - parte 1: Papai Noel é um Picareta
Este artigo inicia uma série dedicada à comédia francesa, com ênfase no cinema dito “popular”. Ao usar este recorte, não pretendo ratificar uma oposição radical entre filmes comerciais e filmes autorais, apenas salientar meu interesse por obras e cineastas menos identificados aos cânones do cinema francês. Não serão descartadas as comédias de cineastas consagrados pela crítica e pela academia, como Jacques Tati, Jean Renoir, François Truffaut, ou Alain Resnais, mas o foco principal se voltará para filmes e diretores que, embora arrebatem legiões de fãs no “hexágono” (como a França auto-denomina seu território continental), são paradoxalmente menos (re)conhecidos no Brasil.
É curioso notar como grande parte das comédias populares francesas compartilha um dilema: são desdenhadas ou mesmo ridicularizadas pela crítica, quando de seu lançamento, recebendo adjetivos como vulgar, grotesca, populista, incorreta, simplória, ou, para resumir tudo, sendo taxadas como mero “divertimento”. Alguns anos mais tarde, porém, várias delas acabam sendo reavaliadas, quando já revelaram fascínio duradouro junto ao público, doses insuspeitas de inteligência, sutileza e poder crítico, e forte influência sobre filmes posteriores.
Outra característica freqüente na comédia popular à francesa é sua difícil adaptação aos paladares estrangeiros, com raríssimas exceções – A gaiola das loucas é a mais evidente. Isto porque se trata de um humor fortemente calcado em diálogos ágeis, inventivos, sonoros e pouco traduzíveis.
Tal dificuldade gera dois lamentáveis efeitos colaterais: o primeiro é deixar praticamente desconhecidos, fora da França, alguns mestres do roteiro e do diálogo cômico, como Michel Audiard, Bertrand Blier, Francis Veber, Jean-Marie Poiré, entre outros. O segundo efeito colateral, bem mais daninho, é a volúpia com que o cinema hollywoodiano abocanha roteiros cômicos brilhantes e os transforma em remakes quase sempre insípidos e domesticados – novamente A gaiola das loucas pode ser visto como honrosa exceção.
Enfim, para amenizar um pouco este desconhecimento generalizado da comédia francesa, esta série vai abordar, a cada edição do Filmes Polvo, uma obra - menos ou mais recente – que ganhou status de “film culte” na França, atraindo milhões de espectadores aos cinemas e/ou em suas exibições posteriores nos canais de TV. Entre estes filmes estarão: Os tios bons de pistola (Les Tontons Flingueurs, do diretor Georges Lautner, 1963), A grande escapada (La grande vadrouille, Gérard Oury, 1966), Louro, alto, de sapato preto (Le grand blond avec une chaussure noire, Yves Robert, 1972), As loucas aventuras do Rabi Jacob (Les aventures de Rabbi Jacob, Gérard Oury, 1973), Fuja enquanto é tempo (L’Emmerdeur, Edouard Molinaro, 1973), O magnífico (Le magnifique, Philippe de Broca, 1973), A gaiola das loucas (La cage aux folles, Edouard Molinaro, 1978), Golpe de tiras (Les Ripoux, Claude Zidi, 1984), Os visitantes (Les visiteurs, Jean-Marie Poiré, 1993), O jantar dos malas (Le dîner de cons, Francis Veber, 1998), a série Os bronzeados (Les bronzés, Patrice Leconte, 1978, 1979 e 2006), Bienvenue chez les Ch´tis (Dany Boon, 2008), além de Papai Noel é um Picareta (Le Pére Noel est une ordure, Jean-Marie Poiré), que abre a série, sem ordem cronológica.
Papai Noel é um picareta – a perversão do banal
Pierre e Thérèse tentam convencer Josette a dar uma chance a Félix:
Pierre – Minha pequena Josette, se você não estiver disposta a suportar um pouco, não há saída, compreende? Você compreende, Josette? No fundo Félix é um sujeito charmoso, certamente repleto de qualidades. Se você não fizer isto por você, pelo menos faça por nós.
Thérèse – É isso mesmo, Josette, eu acredito que existe um tempo para fugir dos problemas e outro para enfrentá-los.
Este diálogo é o cúmulo da pieguice e da banalidade? Discurso edificante, quase uma lição de auto-ajuda? Em outro filme, talvez. Em Papai Noel é um picareta, trata-se da inversão, ou mesmo a perversão, do banal. O efeito é tragicômico.
Sim, porque Pierre e Thérèse são funcionários do SOS Amizade (ou algo que o valha: SOS Amitié Détresse, no original), e, nesta seqüência, estão sendo ameaçados, juntamente, com Josette, por um Papai Noel alucinado, chapado e armado.

Estamos na noite de Natal e toda esta cambada miserável não tem nada mais feliz a fazer do que se amontoar e se trombar naquele escritório. Pierre e Thérèse estão trabalhando no plantão natalino. Josette foi até lá fugindo de Félix, o Papai Noel Lixão (ordure, do título, significa “lixo” em francês), um sujeito violento e desonesto que, por sua vez, despencou no SOS disposto a matar alguém, ou talvez todo mundo, se não conseguir de volta sua Josette, a quem ama e maltrata em doses iguais.
Quando Thérèse e Pierre despejam, em cima de Josette, aquelas frases patéticas de auto-ajuda, é pura ironia (do roteiro, não do personagem). Ocorre que os dois são treinados para ajudar pessoas desesperadas, e ali, na hora do aperto, só conseguem recorrer aos mesmos clichês que costumam repetir ao telefone. Os apelos que lançam a Josette têm a mesma sinceridade e mesma eficácia de seus outros atendimentos, ou seja, nenhuma.
No início do filme, um suicida liga para o SOS Amizade com o revólver apontado na cabeça. Como a ligação está muito ruim, Thérèse pede para ele discar de novo. O sujeito não escuta direito e insiste, inconsolável: “O que eu faço agora?” E Thérèse sugere: “aperte o botão.” Bummm! Missão cumprida. Estas duas cenas dão bem o tom do filme. Cruel, ácido, politicamente incorreto. Poiré não demonstra nenhuma piedade por aqueles pobres coitados. Interesse, sim, compreensão, talvez. Mas nada de piedade.
Tomemos Pierre (Thierry Lhermitte), como exemplo. É um sujeito sem sal, estabanado, reprimido até a alma. Ao longo daquela longa noite ele vai acabar esmagando os dedos no elevador enguiçado, engolindo vários quitutes nojentos do vizinho iugoslavo (um deles enrolado no sovaco), dançando romanticamente com a travesti deprê Kátia (Christian Clavier), participando de um assassinato e ao final, literalmente, jogando a humanidade às feras.
Por outro lado, Pierre vai ter uma recompensa, ao finalmente se enroscar, na banheira, com sua parceira de trabalho e paixão platônica, a não menos desinteressante Thérèse (a atriz Anémone). E que não venham falar mal de sua colega! Quando Josette (Marie-Anne Chazel) não aceita Félix (Gérard Jugnot) de volta, alguém sugere que ele fique com Thérèse: “a feia eu não quero!”, ele grita. É quando Pierre intervém, com o romantismo mais atrapalhado do mundo: “Ela não é feia, só tem um físico difícil, são coisas diferentes”. E bota dificuldade nisso: como presente de natal, Pierre pintou para Thérèse um quadro onde, numa paisagem rural, ela aparece nua, ao lado de um porco. Notando que a colega não apreciou muito seu trabalho, Pierre admite, constrangido: “Agora é que eu reparei que, infelizmente, você saiu pior que o porco”.

Quando chega a vez de Thérese entregar seu presente (uma espécie de colete esburacado), Pierre se esforça para não demonstrar seu desapreço: “Escute, sabe que este colete veio em boa hora? Ontem mesmo eu me dizia que estou precisando de alguma coisa pra descer com o lixo.”
Recheados de gafes, duplos sentidos, mal-entendidos e tiradas politicamente incorretas, os diálogos entre Pierre e Thérèse são um dos motivos que levaram Papai Noel é um picareta a se tornar uma das comédias mais reprisadas, alugadas e decoradas pelos franceses. Talvez o melhor exemplo seja a conversa sobre as luvas que Thérèse está tricotando para as crianças de Jacarta:
Thérèse: Eu estou quase terminando as luvas pros leprosinhos de Jacarta. Achei isso completamente inútil, mas é coisa da Cruz Vermelha, eles me pediram pra fazer luvinhas de três dedos.
Pierre: Com certeza, com certeza. Mas Thérèse, se você me permite, um bom par de meias já resolveria, hem?
Thérèse : Oh, esse Pierre…
Pierre : A gente fala umas besteiras, de vez em quando.
Mau gosto? Sem dúvida. Mas, no contexto, o diálogo funciona perfeitamente para reforçar o constrangimento mútuo, o incômodo do convívio entre os dois, secretamente enamorados um pelo outro. Sem saber direito o que se dizer, os dois acabam soltando barbaridades.
Adaptações
O filme é a adaptação da peça de mesmo nome, apresentada com imenso sucesso durante anos em Paris (mais de 400 mil espectadores), no café-teatro Le Splendid. Foi ali que os roteiristas e atores Michel Blanc, Christian Clavier, Gérard Jugnot e Thierry Lhermitte, amigos de infância, se uniram a Josiane Balasko, Marie-Anne Chazel, Claire Magnin e Bruno Moynot e formaram a trupe Splendid, que obteve inúmeros sucessos no teatro e no cinema (como a série de sucesso Os bronzeados, inspirada na peça Amor, conchas e crustáceos).
No caso de Papai Noel é um picareta, a criação da peça e do roteiro foi feita de forma coletiva, com a participação de todos do grupo, com exceção de Blanc, que faz apenas uma participação especial, como o sujeito que telefona várias vezes para o SOS e dispara ofensas e palavrões em cima de qualquer um que atender. Além disso, foram convidados, para o elenco, Anémone e Martin Lamotte, que não faziam parte oficialmente do grupo. O título original “Papai Noel levou um tiro no rabo”, acabou sendo abandonado, depois de ameaças de boicote.
Embora a adaptação seja bastante fiel, em nenhum momento se tem a impressão de “teatro filmado”. Em parte porque Poiret soube explorar o espaço cênico de forma dinâmica, com múltiplos pontos de vista e movimentos de câmera, transitando entre os cômodos do apartamento e também saindo dele, entrando no elevador, descendo escadas e desbravando a vizinhança. Em outra parte, porque foram incluídas diversas cenas externas, no centro e periferia de Paris, além da impagável cena final, no zoológico.

Poiret cria algumas gags visuais eficientes, como o terno careta de Pierre, que se confunde com a estampa do sofá, ou a cena em que Katia, sorrateira, se aproxima de Pierre, cada vez que as luzes piscam. Mas a graça do filme se concentra sobretudo nos diálogos, na comédia de erros, e na sátira virulenta aos serviços do tipo SOS Amizade. Em meio a toda a confusão que se instala no local, não sabemos mais, nem importa mais, quem são os solitários que buscam ajuda e quem são os solidários, que estariam ali para ajudar. Mesmo porque Pierre e Thérèse (assim como a colega Madame Musquin, que passa quase o filme inteiro presa no elevador) logo demonstram que não são tão diferentes assim de sua clientela: também são sozinhos, egoístas, impacientes, estressados, desajustados, marginais. E cada vez que tentam ajudar, correm o risco de piorar a situação. Muito ajuda quem não me atrapalha, parece dizer a turma do Splendid.
Era quase inevitável que uma comédia como esta, que não demorou para ganhar o status de cultíssima na França, chamasse a atenção de Hollywood. Mas o remake, como também já é de praxe, desperdiça não apenas a ótima premissa, como também um grande elenco (Steve Martin, Anthony LaPaglia, Juliette Lewis, Adam Sandler, entre outros), e principalmente, o clima sujo e anárquico que domina Papai Noel é um picareta. Infelizmente, é esta versão americana, chamada Um dia de louco (escrito e dirigido por Nora Ephron), que se consegue encontrar nas locadoras brasileiras. Para ver o original francês é preciso algum esforço. Ele foi exibido em várias cidades brasileiras, na mostra “Humor à Francesa, 7 comédias cult do cinema francês”, em 2006, e está disponível na cinemateca do Cine-France .
Mais próximo, pelo menos no nível da irreverência e do sarcasmo, é outro filme americano, Papai Noel às avessas, embora se concentre no personagem do Papai Noel, e não no conjunto de personagens. Além disso, este filme também acaba cedendo, ao final, a um certo sentimentalismo que não passa nem perto da comédia francesa. O filme de Poiret é mal-comportado e não tem a menor responsabilidade social. Melhor assim.
Filmes Citados:
Bienvenue chez les Ch´tis (2009 / Dany Boon)
Os bronzeados (Les bronzés, 1978 / Patrice Leconte)
Um dia de louco (Mixed Nuts, 1994 / Nora Ephron)
Fuja enquanto é tempo (L’Emmerdeur, 1973 / Edouard Molinaro)
A gaiola das loucas (La cage aux folles, 1978 / Edouard Molinaro)
A gaiola das loucas (The birdcage, 1996 / Mike Nichols)
Golpe de tiras (Les Ripoux, 1984 / Claude Zidi)
A grande escapada (La grande vadrouille, 1966 / Gérard Oury)
O jantar dos malas (Le dîner de cons, 1998 / Francis Veber)
As loucas aventuras do Rabi Jacob (Les aventures de Rabbi Jacob, 1973 / Gérard Oury)
Louro, alto, de sapato preto (Le grand blond avec une chaussure noire, 1972 / Yves Robert)
O magnífico (Le magnifique, 1973 / Philippe de Broca)
Papai Noel às avessas (Bad Santa, 2003 / Terry Zwigoff)
Papai Noel é um Picareta (Le Pére Noel est une ordure, 1982 / Jean-Marie Poiré)
Os tios bons de pistola (Les Tontons Flingueurs, 1963 / Georges Lautner)
Os visitantes (Les visiteurs, 1993 / Jean-Marie Poiré)







