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por Leo Cunha
Coraline: interação e metalinguagem
Um dos grandes desafios de um filme que explora efeitos especiais é torná-los orgânicos à narrativa, ajudando a compor a atmosfera do filme e não chamando mais atenção do que a trama e os personagens. Alguns diretores de talento já se deixaram levar pelo deslumbramento da computação gráfica, como Ang Lee, cujo Hulk se perde em meio a efeitos demasiado evidentes. Outros cineastas fazem com que efeitos digitais ultrassofisticados passem despercebidos, como ocorreu recentemente com O Curioso Caso de Benjamin Button. Goste-se ou não do filme de David Fincher, é inegável a integração orgânica da tecnologia com uma trama que, sem tal aparato, não teria como ser mostrada de forma convincente.
No caso dos filmes criados para exibição em 3D, há um desafio extra: a identificação, por grande parte do público – sobretudo os mais jovens – entre esta “plataforma” e as atrações dos parques de diversão que se espalham por Orlando e afins. Estes espectadores tomam o 3D essencialmente como uma brincadeira interativa, um trem-fantasma superfantástico (ou um trem fantástico superfantásmico, dá na mesma). O que mais lhes empolga é a sensação de que um determinado objeto vai atingi-los, ou que está ao alcance das mãos – daí vermos tantos braços se estendendo em direção à tela em vários momentos da projeção. Neste ambiente, é bastante secundária a preocupação em acompanhar uma história, deixar-se envolver por ela, sentir-se virtualmente dentro daquele universo ficcional (o que vai muito além da ilusão de poder tocá-lo).
Na animação Coraline e o Mundo Secreto, o diretor Henry Selick consegue agradar a esta parcela do público que espera uma experiência interativa divertida, mas vai além. Algumas cenas visam claramente ao efeito “fácil”, como a agulha que salta da tela pronta para nos espetar, logo no início. Tudo bem: é divertido e não mata ninguém. Na maior parte do filme, porém, os efeitos são usados de forma a criar um universo e nos imergir nele. Na verdade, dois universos distintos, afinal Coraline é sobre isso.
O primeiro universo está centrado na casa real da garota Coraline e sua vizinhança. A família acabou de se mudar para a casa isolada, numa cidadezinha sem graça do interior. É um mundo pouco atraente, desbotado, de poucas cores (o ambiente externo é todo coberto de neve) e aparentemente de pouca vida. O outro mundo, que a menina descobre por detrás de uma portinha, num dos cômodos da casa, é bem diferente: multicolorido, dinâmico, fascinante.

Explorar "mundos secretos" (como explicita o título brasileiro do filme) é relativamente comum na literatura e no cinema voltados para o público infantil. Estes mundos podem estar escondidos detrás de um armário (como em As Crônicas de Nárnia), podem estar no fundo da toca de um coelho apressado (como em Alice no País das Maravilhas), numa passagem misteriosa (A Viagem de Chihiro), na outra ponta de um furacão (O Mágico de Oz), através da plataforma invisível nº 9 ¾, na estação King's Cross (na série Harry Potter), podem ser universos microscópicos escondidos num jardim (em Arthur e os Minimoys) ou ainda uma hilária cidade dos mortos, situada debaixo da terra (A Noiva-Cadáver, cujo trabalho de stop motion, por sinal, foi comandado por Selick). Estes mundos secretos são invariavelmente fantásticos e costumam compartilhar um clima de fantasia, sonho ou mesmo pesadelo. Mas, por mais diferentes que sejam entre si, todos têm em comum o fato de transportarem os personagens a um espaço físico totalmente diferente de sua realidade cotidiana, povoado por personagens também desconhecidos e inusitados.
Já em Coraline, o mundo que a menina encontra por detrás da portinha não é outro senão o seu próprio mundo, mas com sinal invertido. Trata-se de uma dimensão alternativa ocupada basicamente pela mesma geografia, pelos mesmos habitantes, em versões mais sedutoras, mais encantadoras. Ali, seus pais são pessoas disponíveis, atenciosas e talentosas, seu vizinho bêbado e decadente vira o dono de um circo deslumbrante, o garoto intrometido e falastrão do vizinho passa a ser um companheiro recatado. Só a própria menina é que continua sendo ela mesma. Assim, o mundo secreto de Coraline se configura como uma variante de sua própria vida.
Claro que, como a garota vai acabar descobrindo, a sedução e o encantamento deste “outro mundo” são só aparência. Isto se revela, de forma impactante, na sequência em que Coraline descobre a farsa: as imagens idealizadas do “outro mundo” vão se apagando, e a tela se (des)preenche inteira de branco. Diante da total ausência de cor, forma e volume, a paisagem descolorida do mundo real ganha uma nova dimensão e já não parece tão pálida assim.

Neste sentido, o filme permite uma interessante leitura metalinguística: o “outro mundo”, calcado na aparência, no efeito fácil, no espetáculo, seria o equivalente do filme 3D que aposta suas fichas na sensação interativa, no ambiente de parque de diversão. Já o mundo real de Coraline, embora menos sedutor, a princípio, acaba mostrando que vale a pena investir na paciência e nas relações. Afinal, aquele garoto que parece ser apenas um pirralho chato e falastrão pode se revelar o amigo atento e confiável que Coraline precisava naquela nova fase de sua vida. E o inverno não dura para sempre.
Para crianças destemidas
Não se pode dizer, de forma alguma, que Coraline e o Mundo Secreto seja uma animação voltada para o público adulto – como As Bicicletas de Belleville, por exemplo. Mas sua narrativa repleta de humor negro, o clima de pesadelo e tensão, o tom frequentemente sinistro e sua construção visual sofisticada o aproximam de outros filmes “infantis” que, em muitos casos e muitas casas, empolgaram mais os pais do que os filhos, como A Viagem de Chihiro e O Estranho Mundo de Jack (também dirigido por Selick, a partir de roteiro de Tim Burton), ou mesmo A Noiva-Cadáver.
Caroline é desenhada – ou melhor: modelada, já que se trata de uma boneca animada em stop motion – de forma estilizada, com cores e contornos bem distantes da estética Disney. Se nos interessamos e nos preocupamos com seu destino, não é por sua aparência, mas porque ela é uma garota autêntica. Não é nenhuma santa, modelo de comportamento, pelo contrário: é impertinente, atrevida, impaciente como qualquer pré-adolescente. Além disso, acabou de chegar a uma cidade que lhe parece pouco hospitaleira, nada sedutora, e tem pais que praticamente a ignoram, mergulhados em catálogos sobre jardinagem. Portanto nada mais natural do que a menina se lançar à aventura e ao perigo.
E esta aventura, mesmo sem recorrer a nenhuma imagem de grande violência gráfica, consegue provocar seus arrepios. As crianças se divertem em sentir medo, se afligem com os dilemas enfrentados pela garota e se impressionam com toda a exuberância de ângulos, cores e detalhes inventados por Selick ao longo de três anos de produção.
Já quem espera de um filme infantil uma carga forte de emoção (no sentido mais lírico da palavra, ou seja, quem espera um filme que amoleça o coração e faça brotar nos olhos poucas ou muitas lágrimas) talvez se decepcione. Não que Coraline não almeje isso: as cenas finais parecem buscar este tipo de emoção. Mas a tentativa não chega a um bom resultado. Talvez a própria força do incômodo, do medo e do encantamento visual ofusquem o envolvimento emocional.
Filmes Citados:
Alice no País das Maravilhas (Alice in Wonderland, 1951 / Clyde Geronimi, Wilfred Jackson e Hamilton Luske)
Arthur e os Minimoys (Arthur et les Minimoys, 2006 / Luc Besson)
As Bicicletas de Belleville (Les triplettes de Belleville, 2003 / Sylvain Chomet)
Coraline e o Mundo Secreto (Coraline, 2009 / Henry Selick)
As Crônicas de Nárnia: o Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupa (The chronicles of Narnia: The Lion, the Witch and the Wardrobe, 2005 / Andrew Adamson )
O Curioso Caso de Benjamin Button (The curious case of Benjamin Button, 2008 / David Fincher)
O Estranho Mundo de Jack (The Nightmare before Christmas, 1993 / Henry Selick)
Harry Potter e a Pedra Filosofal (Harry Potter and the Sorcerer's Stone, 2001 / Chris Columbus)
Hulk (idem, 2003 / Ang Lee)
O Mágico de Oz (The Wizard of Oz, 1939 / Victor Fleming)
A Noiva-Cadáver (Corpse bride, 2005 / Tim Burton e Mike Johnson)
A Viagem de Chihiro (Sen to Chihiro no Kamikakushi, 2001 / Hayao Miyazaki)







