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por Leo Cunha
Milk
Se comparado a Last Days, sua quase-biografia dos últimos momentos de Kurt Cobain, Gus Van Sant faz em Milk uma biopic mais tradicional. Porém, se comparada à grande maioria das cinebiografias lançadas nos cinemas (entre as exceções recentes estão Control e Não estou lá), a vida do ativista gay Harvey Milk é mostrada de forma bem ousada.
A ousadia está, em boa parte, na abordagem da questão sexual. Gus não disfarça o tesão que aqueles homens compartilham, não limpa nem estetiza o suor e a saliva daqueles corpos e rostos. Os personagens, mais que homossexuais, são sexuais. Quando um adversário político (e moral) o provoca perguntando se os gays são capazes de reproduzir, Milk se delicia ao dar a resposta sacana: “não, mas a gente não se cansa de tentar”.
Em algumas cenas o sexo ocupa o primeiro ou mesmo primeiríssimo plano, com olhos, mãos, bocas, bundas, etc. Mas, mesmo quando não está no centro da ação e da tela, ele está nas beiradas, no fundo dos cômodos, nos segundos planos, sempre a pontuar o clima fortemente libidinal e liberado daquela época pré-aids.
Esta opção pela desdramatização do tabu sexual contribui para suavizar o que o filme tem de mais convencional: a linha narrativa explícita, calcada na locução em off, de Milk gravando uma fita cassete onde narra sua história e sua luta pela causa gay, fita que deveria ser ouvida caso ele fosse assassinado.
Harvey realmente foi assassinado, o que sabemos desde as primeiras cenas. Com isso, Van Sant também se afasta de qualquer clima de mistério, expectativa ou surpresa. O que lhe interessa não é a morte de Milk, mas sua vida e seu combate. Uma trama com tantos eventos – votações, passeatas, brigas, ameaças, festas, batidas policiais, mortes – e que atravessa tantos anos não teria como ser contada no ritmo pausado, com planos estendidos no tempo, como vimos por exemplo em Elefante e Last Days, cujos eventos se passavam em poucos dias e que escondiam, dispersavam, o que havia de “tramas”.
Tendo isto em conta, pode-se dizer que, embora utilize uma narrativa essencialmente linear e cronológica, Gus Van Sant não abandona completamente a “anti-narração” que marcou seus filmes recentes. Em outras palavras: embora o filme avance com peripécias e desdobramentos que não seriam incomuns numa cinedramaturgia convencional, consegue configurar-se como um painel, um retrato incisivo de um certo grupo, num certo ambiente, num dado momento histórico, e num registro próximo ao documental, como ocorre nos últimos filmes do diretor. Aqui, o tom documental é reforçado pelas cores e texturas utilizadas, que se mesclam organicamente com as imagens de arquivo (jornais, fotos e telejornais da época).
O colega polvo Leonardo Amaral, em texto sobre Van Sant (aqui), apontou uma diferença entre os primeiros filmes do cineasta e os mais recentes: nos primeiros filmes, em geral, “o personagem é o observador” enquanto nos últimos “ele passa a ser o objeto de contemplação; a câmera e os movimentos, de uma certa maneira, agora o perseguem.”
Neste sentido, Milk talvez represente uma conciliação entre as duas tendências. Aqui, seguimos o personagem em vários momentos (talvez o melhor exemplo seja a cena em que ele está sendo perseguido, ou imagina que está). Mas não seguimos apenas ele, acompanhamos como testemunhas a cena gay californiana. Ao mesmo tempo, esta cena é observada através da locução, e portanto da memória e da percepção, do próprio protagonista. Se não sempre, em algumas cenas chave é o próprio olhar de Milk que testemunhamos. O ápice disso está na cena de sua morte, com o jogo de foco e reflexos entre o rosto de Milk e o teatro do outro lado da rua, onde estava sendo exibida sua amada ópera Tosca.

Filmes Citados:
Control (idem, 2007/ Anton Corbijn)
Elefante (Elephant, 2003 / Gus Van Sant)
Last days (idem, 2005 / Gus Van Sant)
Milk – a voz da liberdade (Milk, 2008 / Gus Van Sant)
Não estou lá (I’m not there, 2007 /Todd Haynes)







