por Leo Cunha

Foi Apenas Um Sonho

Primeira cena. Num plano de conjunto, numa estação de trem, dezenas de pessoas caminham em direção à câmera. Todos se vestem de forma semelhante (terno, gravata, chapéu, tudo em tons pastéis), todos têm o semblante sério ou desanimado. Entre eles está Frank Wheeler (Leonardo Di Caprio), apenas mais um na multidão. Quando está bem próximo, em primeiro plano, Frank ocupa o meio da tela. Mas já não vemos seu rosto, perdido na sombra.

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Frank Wheeler: sombra perdida na multidão

 

A cena acontece aos 10 minutos do filme Foi Apenas um Sonho (Revolutionary Road). Naquele momento, Frank é exatamente o que sugere a imagem: um sujeito sem rosto, sem cor, sem vontade, que sufocou sonhos e projetos para ganhar a vida, quase anônimo, em meio a uma multidão de funcionários burocráticos de uma empresa qualquer.

 

Segunda cena. Outro plano de conjunto, em contra-plongée. Dezenas de pessoas descem a escadaria da estação de trem. De forma quase coreografada, a multidão se divide. Metade vai para a esquerda, a outra metade vai para a direita. Bem no centro da tela, à frente de todos, alheio à multidão, Frank Wheeler sorri, apoiado na mureta. Seu rosto não está escondido na sombra, sua roupa é mais clara, seu colarinho está aberto. Este Frank descontraído não é mais um homem perdido na multidão. Ou pensa, ou sonha, que não. 


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Wheeler: fora do fluxo

 

Esta segunda cena acontece aos 33 minutos de filme. Na trama, ela ocorre alguns meses depois daquela primeira cena da estação de trem. Atiçado pela esposa April (Kate Winslet), Frank acabou de decidir que vai abandonar seu trabalho burocrático e mudar-se com a mulher e os filhos para Paris, cidade que ele sempre citou, no início do namoro dos dois, como sinônimo de vida, liberdade, felicidade.

 

Estas duas cenas – assim como várias outras do filme – reforçam um dos conceitos frequentemente atribuídos a Sam Mendes: trata-se de um diretor com grande habilidade para encontrar soluções plásticas, elegantes e interessantes para suas cenas, ainda que muitas vezes não consiga, em seus filmes, atingir um conjunto coerente ou convincente.

 

Sim, Mendes é um esteta. Mas Foi Apenas um Sonho deve ser tomado meramente como um filme de esteta? Parece-me injusto dizer que sim. Além do apuro visual e das grandes atuações (vale lembrar que o cineasta veio de longa experiência do teatro), há também aqui, muito mais que em seus filmes anteriores, um autêntico interesse pela história daquelas pessoas, suas angústias, sonhos, desejos, erros e frustrações.

 

Baseado no romance de mesmo título de Richard Yates, um dos pontos altos da literatura norte-americana do século XX, Mendes nos apresenta uma história extremamente triste, pessimista, de um jovem casal que se julga especial, diferente, e acaba se descobrindo um casal trivial, com angústias (sonhos, desejos etc) corriqueiros.

 

Mais do que isso, o filme é (assim como o livro já era) um ensaio sobre a força das palavras, do discurso, para o bem e para o mal. Numa cena chave, April relembra seu encantamento pelo jeito e sobretudo pela fala de Frank no dia em que se conheceram. Com isso, ela quer convencê-lo a voltar a ser como era naquele primeiro dia e a tomar coragem para largar tudo e mudar (fugir?) para Paris. Mas a resposta de Frank, tão sincera quanto resignada, é algo como “que nada, eu era um sujeito metido a espertinho e com muita lábia. Estava exibindo uma erudição que eu nem tinha" (Oh, hell, I was a little wise guy, with a big mouth. I was showing off a lot of erudition I didn't have).

 

Na breve cena de abertura, testemunhamos Frank Wheeler conquistando April com suas tiradas espirituosas. A moça se encanta por aquele sujeito de fala rápida e esperta. Acredita que ele é um cara especial e que os dois seriam também um casal especial. Mas, a partir dali, o relacionamento desaba. Uma elipse despeja, à nossa frente, o casal já em crise, alguns anos depois.

 

Se o futuro promissor nunca chega, não é somente porque Frank não consegue ser, full time, um eterno espertinho cheio de lábia. Mas principalmente porque ele tem o hábito de "discutir a relação" – que talvez seja um vício, na visão de Mendes e Yates. Pode-se reclamar que os personagens falam demais, que o filme é demonstrativo, pedagógico quase. Mas há que se lembrar que a fala, o discurso, é justamente um dos temas centrais do filme.

 

Além das já citadas acima, diversas situações giram em torno da importância da fala, ou do silêncio. Uma delas ocorre quase ao final, quando um novo casal se muda para a ex-casa dos Wheeler e vai visitar os Campbell, vizinhos e amigos de Frank e April. No meio da conversa com os novos vizinhos, Shep Campbell trava e tem que sair da casa. Caminha até o jardim e fica ali parado, olhando para a casa dos Wheeler (certamente com saudade de April, por quem fora apaixonado). Quando a esposa vai atrás dele, Shep faz um pedido que é pura melancolia e desespero: “por favor, não vamos mais falar dos Wheeler”. Para manter o casamento, as aparências, a sanidade, o único jeito é não falar mais.

 

Ou não ouvir mais, como vemos na última cena do filme. A senhora Givings (Kathy Bates), ao mesmo tempo fascinada com os Wheeler e frustrada com o que eles fizeram, desfia para o marido um rosário interminável de comentários acerca de Frank e April. O marido, sentado numa poltrona, começa a escutar, mas, ao perceber a ladainha, simplesmente abaixa o volume de seu aparelho auditivo e deixa a mulher falando sozinha. 

 

Esta cena funciona como um contraponto ao desfecho do casamento entre Frank e April. A relação dos Wheeler se destruía e se destruiu pelo excesso de diálogo, ou, em outras palavras, pela incapacidade de silêncio, sobretudo por parte de Frank. Já a relação do velhinho com a mulher se manteve exatamente pela capacidade de silêncio. De forma alguma era uma relação feliz, ou mesmo saudável. Mas conseguia se manter. Constatação triste e pessimista, coerente com a história e os personagens.

 

Vale frisar que esta cena final foi apontada por alguns críticos como uma solução “esperta”, uma piscadinha para o público, uma piada fácil, desconectada da narrativa. Seria um tique típico de Sam Mendes desde Beleza Americana. Discordo duplamente. Primeiro porque a cena, como apontei acima, está plenamente conectada com a trama e com o tema central da fala/silêncio. Segundo porque a cena não é invenção de Mendes, já que segue fielmente os parágrafos finais do romance de Yates.  

 

O louco: alter-ego e catalisador

 

Outro personagem que fala pelos cotovelos, que simplesmente não consegue ficar calado, é John Givings (Michael Shannon), um sujeito que vive saindo e entrando no manicômio (na funny farm, como ele mesmo zomba). Da primeira vez em que visita os Wheeler, John diz exatamente aquilo que Frank e April querem ouvir (afinal, eles próprios já sabiam daquilo e já tinham falado aquilo): que a vidinha perfeita do sonho americano não passa de uma ilusão, uma farsa, recheada de vazio e desesperança.

 

Ao ouvirem o discurso do sujeito tachado como “maluco”, os Wheeler o admiram. Frank o apóia na frente de todos: “Na verdade, John, eu concordo com tudo o que você acabou de dizer. Nós dois [ele e April] concordamos. É por isso que eu vou sair do emprego na próxima estação e nós vamos nos mudar para Paris”. Pouco depois, April comenta: “É a primeira pessoa que parece entender exatamente o que pensamos”.

 

Mas tudo muda quando da segunda visita de John aos Wheeler. A esta altura, Frank já se acovardou, já aceitou uma promoção qualquer e já desistiu de Paris (Foi apenas um sonho, entrega o infeliz título brasileiro). Assim, quando o maluco repete essencialmente o mesmo discurso anterior, Frank não apenas não o apóia, como se revolta e, aos gritos, manda que ele leve aquelas idéias malucas de volta pro hospício, de onde nunca deveriam ter saído. O curioso é que John não alterou em nada seu discurso. Frank é quem mudou de convicção. Sua reação contra o maluco é uma revolta contra sua própria covardia.

 

Uma leitura apressada do filme pode dar a impressão de que o personagem de John Givings existe apenas para repisar e reforçar o discurso da obra contra o american way of life. Sem dúvida, John pode ser entendido como um alter-ego de Yates (e por tabela, de Mendes), na medida em que resume a visão de mundo do autor, uma visão ácida e questionadora. Mas, muito além disso, John tem outra função narrativa na trama: ele é um catalisador. Não se pode ignorar a última e mais contundente fala de John, antes de ir embora, arrastado pelos pais. Com o dedo acusador apontado para a barriga grávida de April, John vaticina: “Sabe a única coisa que me deixa feliz? Eu estou feliz por não ser esta criança aí!” 


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John Givings: “Eu estou feliz por não ser esta criança aí!”

 

(Atenção, spoiler adiante) Se April ainda tinha alguma dúvida quanto ao aborto, não teve mais, diante da fala devastadora de John.

 

Affair mal resolvido

 

Uma relação que não parece bem resolvida no filme é o caso entre Frank e sua colega de trabalho, Maureen (Zoe Kazan). Da maneira como o acompanhamos, parece que o affair surgiu do nada, de forma repentina e gratuita. A única indicação anterior que temos é a cena rapidíssima em que Maureen e Frank trocam olhares curiosos e tímidos no elevador. Dali já saltam para a cena em que Frank pede a ela um favor no trabalho e a convida para um almoço fora de hora, no qual vão iniciar imediatamente o affair. Esta pressa faz com que vejamos Frank como um mulherengo abusado, um traidor, ao passo que no romance a traição é, mais claramente, a consequência de um esgotamento no casamento dos Wheeler.

 

Filmes Citados: 

Beleza Americana (American Beauty, 1999 / Sam Mendes)

Foi Apenas um Sonho (Revolutionary Road, 2008 / Sam Mendes)