por Leo Cunha

Um convidado bem trapalhão: sobre listas e penetras

Na recém-publicada – e já muito debatida, elogiada, xingada – lista dos 100 melhores filmes da Cahiers du Cinéma, um filme específico me chamou a atenção: Um convidado bem trapalhão, na posição 81. Para ser justo, vale sublinhar que não se trata de uma lista de melhores, mas sim o que a revista chamou de “100 Filmes para uma Cinemateca Ideal”. É evidente que estas listas são circunstanciais, sujeitas a trovoadas e aos modismos da estação.  Muitas vezes o sujeito não vota naquele filme que ele efetivamente adora, mas no que ele julga importante, ou revolucionário, ou ainda no filme em que “pega bem” votar. Ainda assim, por ter a chancela da Cahiers, não se pode negar que esta nova lista é um indicativo de reconhecimento por parte representativa do universo cinéfilo (ela foi montada a partir dos votos de 78 críticos e historiadores do cinema consultados pela revista francesa).

 

 

 

Mas o que me intrigou foi encontrar na lista Um convidado bem trapalhão, um autêntico penetra na festa do bom gosto e da intelectualidade. Rodeado de Renoirs, Welles, Ophüls, Murnaus, Godards e Eisensteins, parece até que o filme de Blake Edwards entrou na lista por engano, exatamente como o protagonista Bakshi (Peter Sellers) entrou na tal festa do título (em inglês, o filme se chama The party).

 

Para quem não viu, vale um resumo: Hrundi V. Bakshi é um figurante indiano em uma superprodução hollywoodiana. Um sujeito tímido e muito – até exageradamente – educado, mas igualmente desastrado. Quando o figurante, sem querer, detona uma bomba e destrói o set de filmagem, Fred Clutterbuck, o chefão do estúdio, fica tão revoltado que põe o nome de Bakshi na lista negra, para nunca mais conseguir emprego na indústria.  Porém, na pressa, Clutterbuck anota o nome justamente no papel da lista de convidados da mega-festa exclusiva que iria promover em sua mansão. Resultado: o figurante acaba sendo convidado para a festa e, ao longo da noite, vai transformá-la num verdadeiro pandemônio.

 

Lançado em 1968, o filme de Blake Edwards é a comédia mais recente da lista da Cahiers. Próximo dele, temos apenas Playtime (1967), de Tati. As outras comédias são no máximo da década de 50, com alguns Chaplins, Renoirs, Tatis, um Keaton aqui, um Lubitsch ali, um Wilder, um Guitry e praticamente só isso. Todos eles de alguma forma identificados com a comédia mais sofisticada, verbal e/ou visualmente.

 

Não há comédia alguma dos anos 70, 80, 90 ou 2000, salvo se considerarmos filmes dramáticos com toques cômicos, como Amarcord (1973), de Fellini, ou Manhattan (1979), de Woody Allen. Mas comédias assumidas? Nenhuma. Fora Manhattan, nenhum Woody está presente (o que surpreende, em se tratando de uma publicação francesa, país onde ele é mais adorado). Nenhuma comédia de Almodóvar, apenas o melodrama Fale com ela, de 2003, na posição 80. Tarantino e os irmãos Coen, cineastas prestigiosos que mais recentemente também encararam a comédia de frente (ou por tabela), não emplacaram nenhum filme na lista. Mas o filme de Edwards está lá, bravamente, como uma ilha de leveza, burla, farsa e despretensão.

 

A comédia e o tempo

 

Que as comédias raramente são reconhecidas em sua própria época não é novidade. A pesquisadora Fatimarley Lunardelli argumenta que, via de regra, a comédia só é efetivamente avalizada pela crítica e valorizada pela academia quando fica antiga. Principalmente no caso do cinema popular. Um exemplo citado pela autora é o das chanchadas brasileiras:

 

“a chanchada acabou se transformando em objeto digno de estudos acadêmicos apenas no momento em que se tornou um cinema do passado. Enquanto produção presente, o filme brasileiro cômico, popular e pobre é considerado um cinema de segunda categoria, um objeto constrangedor para uma elite intelectual empenhada em defender um modelo determinado de cinema nacional. Mudam os tempos, mas não mudam os preconceitos.” (LUNARDELLI, 1996, p. 15).

 

 

O que Lunardelli aponta com relação às chanchadas de meados do século XX serve também para algumas pornochanchadas dos anos 70. Assim como ajuda a entender o que sucedeu com os mestres da chamada “comédia à italiana”. Dino Risi e Mario Monicelli, para citar os dois maiores expoentes, tiveram que esperar décadas até que seus filmes fossem reconhecidos como grandes comédias, às vezes até obras-primas do humor. E não é difícil encontrar, na história recente, exemplos de cineastas que se dedicaram à comédia mais “comercial”, de evidente apelo popular, e, se não acertaram sempre, conseguiram criar ótimos exemplares do gênero: o britânico Frank Oz (Os safados, Morte no funeral), os americanos John Hughes (Curtindo a vida adoidado, Antes só que mal acompanhado) e Harold Ramis (Feitiço do tempo, o primeiro A máfia no divã), os franceses Gérard Oury (A grande escapada, As loucas aventuras do Rabi Jacó) e Francis Veber (O closet, O jantar dos malas).  Raramente, ou muito tardiamente, tais cineastas obtêm reconhecimento crítico ou se tornam objeto de estudo.

 

Estas considerações ecoam, curiosamente, aquela célebre tirada do personagem Lester (Alan Alda), em Crimes e Pecados, de Woody Allen: “A comédia é a tragédia, mais o tempo. (Comedy is tragedy, plus time)”. Se o tempo é capaz de transformar qualquer desgraça em graça, parece que somente este mesmo tempo é capaz de qualificar esta graça, ou seja, de estabelecer o valor de uma comédia.

 

Voltando a Blake Edwards, pode-se dizer que ele dedicou quase toda a carreira a dirigir comédias populares. Mesmo aquelas que flertavam com a sofisticação, como Bonequinha de luxo e Vítor ou Vitória, jamais se descuidaram de seu apelo popular. Não correria o “risco” de ser considerado um “autor”, no sentido proposto e difundido pela própria Cahiers du Cinéma, e recentemente utilizado pela professora Raphaëlle Moine, que utiliza o termo “comédia de autor”, para abranger as comédias produzidas por certos cineastas mais identificados com o cinema autoral sejam eles oriundos da nouvelle vague, como Resnais e Rivette, sejam mais jovens, como Labrune e Podalydès.  Vale ressaltar que o termo “comédia de autor” tem um viés propositalmente irônico ao unir dois conceitos aparentemente opostos, já que muitos teóricos contrapõem a noção de “autor” a “gênero”, considerada muito mercadológica. É o que explica Michel Marie, no prefácio do livro “O cinema francês frente aos gêneros” (Le cinéma français face aux genres):

 

“A tradição crítica nacional dominante valoriza demais o autor e o cinema de arte, a expressão pessoal de um cineasta-artista. (...) Contamos nos dedos de uma mão os livros consagrados ao cinema colonial francês, ao filme policial, ao cinema cômico. Porém é fundamental, para deslocar os caminhos excessivamente balizados da história do cinema, sair dos limites estreitos dos filmes canônicos e das obras dos grandes autores, e redescobrir o ‘continente esquecido’ do cinema de gênero”. (MARIE in MOINE, 2005)

 

Esta afirmação de Marie privilegia, evidentemente, o cenário francês e seus paradoxos locais. Por exemplo, ela reflete o fato de que o mesmo grupo de críticos que, na Cahiers, valorizava cineastas identificados com certos gêneros (Hitchcock com o suspense, Boetticher com o faroeste, Hawks com o faroeste e a comédia, etc) acabou fortalecendo, na própria França, a noção de um cinema autoral mais descolado dos gêneros.

 

A festa

 

Um convidado bem trapalhão foi um dos maiores culpados por minha paixão pelo cinema. Não foi o primeiro filme a que assisti no cinema, mas certamente foi o primeiro a que assisti mais de uma vez. Eu ainda era um pré-adolescente, quando entrei naquele cinemão de rua de BH (Metrópole? Jacques? Não lembro mais). Lembro que já saí da sessão doido para assistir de novo, rir tudo de novo, entender por que eu tinha me divertido tanto assim, entender o que aquele filme tinha de diferente. 

 

Talvez eu não tenha captado à época todos os elementos que, muito bem combinados, faziam daquela comédia uma experiência especial: a sátira cáustica ao mundo dos “chiques e famosos”, o humor físico orquestrado quase como um balé, os toques surrealistas, um quê de poesia – ecoando Harold Lloyd (o homem comum diante do imprevisto) e Jacques Tati (o homem que não se entende com as novidades tecnológicas) – naquele personagem deslocado que acaba deslocando todo o resto.

 

 

 

 

Talvez eu não tenha atinado para a construção rítmica daquela festa, que começa com episódios cômicos esparsos, fluindo lentamente, como o sapato que Bakshi perde na piscina de água corrente, assim que chega à mansão. Aos poucos, de forma crescente, o convidado vai acumulando gafes e mal-entendidos, o garçom vai se embebedando, outros presentes vão se soltando e se desentendendo e, quando damos conta, um elefante todo pintado já se instalou na piscina e o mais delirante caos tomou conta daquele universo.

 

 

Talvez eu não tenha me dado conta de como a trilha sonora de Henry Mancini (cuja parceria com Edwards rendeu as trilhas clássicas da série A pantera cor-de-rosa, além da mais que clássica Moon River, do Bonequinha de Luxo) não só ilustrava como potencializava cada um dos momentos climáticos do filme, passando pela música indiana, a bossa nova, o jazz e o rock.

 

Mas, mesmo sem a percepção “teorizada” destes pontos, a percepção intuitiva já dava conta de que eu estava diante de uma comédia sui generis, filmada e interpretada com evidente prazer e calor. Felizmente, na época eu ainda não tinha o hábito de acompanhar as críticas, como faço hoje quase obsessivamente, até mesmo por razões profissionais. Assisti ao filme em alguma reprise, no final da década de 70, mas consta que, à época do seu lançamento, em 1968, a crítica foi devastadora, acusando o filme de mau gosto, grosseria, vulgaridade, etc, como lembra Isabela Boscov no livreto que acompanha a recente edição em DVD da coleção “Cinemateca Veja”.

 

Pois bem: é este filme execrado pela crítica (com as exceções de praxe) à época do lançamento que agora, 40 anos depois, acaba de ser incluído na Cinemateca Ideal da Cahiers. Mais uma vez, o tempo redime e se curva à comédia. 

 

Costumo defender uma hipótese um tanto provocadora e arbitrária, mas que me parece justa: os críticos jamais deveriam assistir comédias (sobretudo as populares) nas sessões de cabine, ou em pré-estréias exclusivas para públicos selecionados.  Ocorre que todos estes termos (exclusivo, selecionado, cabine, etc) ocupam um campo semântico diametralmente oposto ao que se propõem as comédias populares. Quando está assistindo a um filme entre seus pares (críticos, jornalistas, acadêmicos, etc), o crítico dificilmente se sentirá à vontade para ser bobo. Irresponsavelmente, puerilmente, docemente, deliciosamente bobo. Vai estar muito self-conscious, como dizem os americanos. Não vai baixar a guarda. Não vai se contaminar pelas gargalhadas ao redor. Pior: provavelmente não haverá gargalhadas ao redor, pois todos os demais presentes estarão, tanto quanto ele, imbuídos de seus papéis e visões pré-concebidas acerca do que é “o” humor (como se houvesse uma divisão dicotômica entre um humor “correto” e outro não, um “aceitável” e outro não).

 

Claro que estou generalizando um bocado, já que nem toda a crítica mantém esta postura “intelectual” no mau sentido diante das comédias. Foi surpreendente, por exemplo, a boa recepção crítica de outro filme assumidamente popular que também fala de festas e convidados trapalhões: Penetras bons de bico, de David Dobkin. Este caso ilustra, a meu ver, uma salutar receptividade de parcela da “nova crítica” a comédias contemporâneas que aliam este senso de “popularidade” a um cinema ágil, de câmera e edição dinâmicas, uma certa urgência tanto em termos visuais quanto temáticos. Além do filme de Dobkin, poderíamos incluir, nesta tendência, boa parte dos filmes dos irmãos Farrelly e da turma de Judd Apatow, entre outros.

 

Ainda assim, mantenho minha provocação: não seria melhor o crítico ignorar a sessão cabine e assistir ao filme no sábado seguinte, na sala lotada, junto àqueles para quem o filme realmente foi feito: um público amplo, variado e disposto, acima de tudo, a se divertir? Esta gente – como eu, naquela sessão da década de 70 – provavelmente vai rir tanto e tão alto que o crítico não terá vergonha de soltar a garganta também. Quem sabe, 40 anos depois, aquela comédia não estará na Cinemateca Ideal de alguma revista de prestígio?

 

Filmes citados

 

Antes só que mal acompanhado (Planes, Trains & Automobiles, 1987 / John Hughes)

Bonequinha de luxo (Breakfast at Tiffany’s, 1961 / Blake Edwards)

O closet (Le placard, 2001 / Francis Veber)

Um convidado bem trapalhão (The party, 1968 / Blake Edwards)

Curtindo a vida adoidado (Ferris Bueller's Day Off , 1986 / John Hughes)

Feitiço do tempo (Groundhog day, 1993 / Harold Ramis)

A grande escapada (La grand vadrouille, 1966 / Gérard Oury)

O jantar dos malas (Le dîner de cons, 1998 / Francis Veber)

As loucas aventuras do Rabi Jacó (Les aventures de Rabbi Jacob, 1973 / Gérard Oury)

A máfia no divã (Analyze this, 1999 / Harold Ramis)

Morte no funeral (Death at a funeral, 2007 / Frank Oz)

Penetras bons de bico (Wedding crashers, 2005 / David Dobkin)

Os safados (Dirty rotten scoundrels, 1988 / Frank Oz)

Vítor ou Vitória (Victor Victory, 1982 / Blake Edwards)

 

Textos citados

 

BOSCOV, Isabela. Um convidado bem trapalhão – uma das melhores comédias dos anos 1960. São Paulo, Abril Coleções, 2008.

 

Lunardelli, Fatimarlei. Ô, Psit – o cinema popular dos Trapalhões.

Porto Alegre: Artes e Ofícios, 1996.

 

MOINE, Raphaëlle. “Reconfigurations génériques de la comédie dans le cinéma français contemporain – l’émergence des ‘comédies d’auteur’ ”. In: MOINE, Raphaëlle (org). Le cinéma français face aux genres. Paris, AFRHC, 2005, p. 223-232.