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por Leo Cunha
O Nevoeiro e o obscuro
A narrativa por omissão é procedimento bem sedimentado na literatura e no cinema. Em filmes de terror, sobretudo, quantas vezes nosso medo é provocado por criaturas cujas feições desconhecemos, pois elas pouco ou nada aparecem? O nevoeiro, de Frank Darabont (mais uma vez inspirado em uma história de Stephen King) recorre à estratégia oposta: a explicitação do perigo e dos monstros. De forma cartunesca, o filme apresenta criaturas bem construídas tecnicamente, mas que são quase caricaturas de monstros de outros tantos filmes. Um espectador distraído, ou com má vontade, poderia usar estas criaturas assumidamente oriundas do universo B movie para descartar o filme.
É possível, contudo, uma leitura oposta. A de que Darabont explicita os monstros justamente para sugerir que o verdadeiro mal é disforme, imaterial, abstrato, sutil, e por isso mais daninho. É o mal que aflora na relação entre as pessoas, resultante do obscurantismo, do fanatismo, da intolerância, da incapacidade de compreensão mútua, traços humanos que desabrocham numa situação de perigo extremo, como a narrada no filme.
Numa cidadezinha do interior americano, após um vendaval que cortou a energia elétrica local e destruiu parte de sua casa, David Drayton vai com o filho de 8 anos até um supermercado para comprar mantimentos. Neste momento um espesso nevoeiro invade o estacionamento em torno da loja, tornando inviável a saída. Para complicar, um sujeito adentra o mercado desesperado, gritando que existe “alguma coisa” no nevoeiro. Que coisa? Todos querem saber. Neste primeiro momento, ainda não se sabe (nem se mostra) o que é, apenas sabemos que é algo mortal. Resultado: todos os compradores e funcionários da loja acabam ficando presos ali, sem coragem para sair e enfrentar o mal misterioso. A única exceção é uma mulher, que deixou os filhos sozinhos em casa. Ela implora ajuda, mas, como não consegue ninguém disposto a acompanhá-la, resolve se arriscar sozinha.

Daí para a frente o filme se concentra, de forma claustrofóbica, no interior do supermercado, que, aos poucos, vai sendo cercado pelas criaturas do nevoeiro. Elas surgem nas formas mais variadas (primeiro enormes tentáculos – que, curiosamente, não voltam a aparecer em nenhuma das criaturas posteriores – depois uma série de insetos e aranhas gigantes, como se resultantes de alguma mutação, e até mesmo uns monstros voadores que lembram um cruzamento de Lockheed com os gremlins no estágio maléfico). Como são muitos e famintos, os bichos fazem seus estragos. Mas o estrago maior resulta da disputa entre os humanos entrincheirados ali dentro. Uma disputa inicialmente verbal, ideológica, mas que acaba descambando para a carnificina. De um lado do conflito fica a Sra. Carmody, uma fundamentalista religiosa alucinada (com o perdão do pleonasmo). Ela não demora a concluir – e começar a convencer outros – de que o nevoeiro assassino é um sinal inequívoco do apocalipse e do castigo divino. Em oposição a ela, Drayton se mostra a voz da razão e do equilíbrio, arrebanhando outros tantos seguidores para tentar enfrentar os monstros com a cara, a coragem e algum resquício de lógica que consiga sobreviver ao pânico.

O problema é que, diante deste pânico crescente, o apelo místico e catastrófico da Sra. Carmody é mais sedutor. Isto, claro, para as pessoas que estão ali dentro. Já para o espectador, ocorre o inverso: Darabont nos joga claramente contra a fundamentalista e a favor do desenhista. Como o desenhista se mostra inteligente, corajoso e tem um filho pequeno a quem quer proteger acima de tudo, não há como não criarmos empatia por ele e por suas opções ao longo do filme.
Pois é aí que entra a grande sacada narrativa das seqüências finais (atenção: spoilers adiante). Neste ponto, já estamos totalmente identificados e simpáticos ao desenhista, já acompanhamos seus dilemas, admiramos sua coragem em fugir da seita que se montou no mercado, e em seguida, compreendemos e louvamos sua decisão de matar os quatro passageiros do carro e se oferecer em sacrifício aos monstros do nevoeiro. Mas, justo neste momento, Darabont nos mostra os tanques e caminhões do exército chegando para o resgate. Na carroceria de um dos caminhões, a salvo, vemos a mãe que foi a primeira a tomar coragem pra enfrentar o nevoeiro, para cuidar dos filhos.
Diante desta imagem inesperada, somos levados a questionar nossa própria identificação com o desenhista e repensar todo o filme. A "mensagem" do filme é provocadora? É preciso enfrentar logo o perigoso, o nebuloso, o obscuro? Ou sua “mensagem” (sempre entre aspas) é fatalista? Não adianta resistir ao perigoso, ao nebuloso, ao obscuro (tanto do nevoeiro quanto do fanatismo) pois tudo ainda vai depender, em grande parte, da sorte ou do azar?
Não há resposta clara ou única, e estas possibilidades de leitura (ou outras ainda) tornam O nevoeiro fascinante. O que incomoda, no filme, é que, ao demonizar a fundamentalista, Darabont/King põem o outro time tão moralista quanto ela, e de forma muito didática, numa tentativa um pouco forçada de explicitar a dicotomia. Algumas falas de Ollie, por exemplo, parecem sociologizadas demais na boca daquele sujeito que não é, nem de perto, um intelectual ou algo que o valha.
“Como espécie nós somos fundamentalmente insanos. Ponha dois ou mais de nós em um quarto, logo começamos a escolher lado e sonhamos em formas de matar um ao outro. Por que você acha que inventamos a política e a religião?”
Pode ser que a intenção fosse exatamente esta, a de mostrar que ambos os lados ali no supermercado estavam equivocados em seus discursos e ações. Talvez, mas o moralismo e o didatismo da fundamentalista são coerentes e plausíveis. O deles não me convenceu. De todo modo, a seqüência final é tão impactante que praticamente apaga esta falha.

Consta que Darabont nutriu este projeto durante anos até conseguir viabilizá-lo. A julgar pelos filmes de tema apocalíptico que ocupavam as telas dez anos atrás (Armageddon, Impacto Profundo, Godzilla, para ficar apenas nas produções de 1998, que inegavelmente aproveitaram a onda de incerteza e pânico pré-virada do milênio), podemos concluir que esta demora foi providencial, pois, em termos narrativos e políticos, O Nevoeiro dialoga melhor com alguns filmes apocalípticos atuais (estou pensando sobretudo em obras como Filhos da esperança, Fim dos Tempos e Ensaio Sobre a Cegueira) que se afastam da linha de produção blockbuster, repleta de explosões, correria e edição ultraveloz. Claro que são filmes bem distintos entre si, mas me parece que Darabont, Cuaron, Shyamalan e Meirelles conseguiram contar histórias apocalípticas com boas doses de suspense e terror, sem descuidar dos dramas e conflitos humanos.
Já no aspecto visual, o cineasta remeteu principalmente a filmes dos anos 70, mas garante que não queria ter rodado o fime em cores. Tanto assim que o DVD duplo lançado nos EUA traz uma versão alternativa em P&B. Darabont explica que, na verdade, este seria o seu “director’s cut”: sem alterar em nada a montagem final, apenas retrabalhando os tons e luminosidade para se aproximar ao máximo de um filme realmente rodado em P&B.
PS: Uma curiosidade sobre a sequência final. Muita gente chiou contra a canção que serve de fundo para a chegada dos “salvadores”. Trata-se de uma canção extremamente melancólica e meio etérea, que pode ser confundida com algo da malfadada música new age. Na verdade, "The host of Seraphim", é a primeira faixa do CD "The Serpent's Egg" (coincidência ou não, num filme que fala de intolerância?), do duo australiano Dead Can Dance. A banda tem forte influência da música árabe, erudita, dos saltarellos medievais, mesclado com elementos do pós-punk. A principal compositora (e cantora) da banda é Lisa Gerrard, autora de inúmeras trilhas sonoras, inclusive de filmes importantes, como O Informante e Ali, do Michael Mann, e oscarizados, como Gladiador, de Ridley Scott.
Filmes citados
Armageddon (idem, 1998 / Michael Bay)
Ensaio sobre a cegueira (Blindness, 2008 / Fernando Meirelles)
Filhos da esperança (Children of men, 2006 / Alfonso Cuarón)
Fim dos tempos (The happening, 2008 / M. Night Shyamalan)
Godzilla (idem, 1998 / Roland Emmerich)
Gremlins (idem, 1984 / Joe Dante)
Impacto profundo (Deep impact, 1998 / Mimi Leder)
O nevoeiro (The mist, 2007 / Frank Darabont)







