por Leo Cunha

As aventuras de Molière: jogo de cena

Cartaz
 

O título original francês é simplesmente Molière. O brasileiro, estampado no cartaz, é uma obscenidade: As aventuras de Molière – um irreverente e adorável sedutor. O responsável por esta pérola não teve nenhum constrangimento de atirar para todos os lados para conquistar, à força, o espectador. O público atual quer filmes de ação? Podemos acrescentar ao título a palavra “aventura”. O público identifica o cinema europeu, francês sobretudo, com cenas picantes, sexo, nudez? Então acrescentemos também o termo “sedutor”. Ah, mas é preciso capturar os que preferem o humor francês, a alegria, a famosa “joie de vivre”. Fácil: taquemos ali um “irreverente”.


Será que o sujeito chegou a assistir o filme antes de criar este título absurdo? Provavelmente não. A trama, criada por Laurent Tirard (que também dirigiu o filme) e Grégoire Vigneron, é uma especulação sobre o que teria ocorrido ao jovem ator Jean-Baptiste Poquelin (de apelido Molière) durante alguns meses em que teve paradeiro desconhecido, segundo as biografias. Segundo o filme, Molière (interpretado por Romain Duris), praticamente falido, aos 22 anos de idade, teria aceito o convite de um burguês milionário, Jourdain (interpretado por Fabrice Luchini), que queria aulas de teatro para aprender a conquistar a jovem nobre Célimène (Ludivine Sagnier). Para que o esquema não seja descoberto pela senhora Jourdain (a bela balzaquiana Laura Morante), o burguês finge que seu convidado é um pároco de nome Tartufo. É evidente que – assim como nas peças do próprio Molière – o plano vai dar errado. Mais que isso: o jovem ator se encanta pela mulher do anfitrião e vice-versa. Embora ágil e divertido, o filme não tem nada que justifique o título rocambolesco As aventuras de Molière – um adorável e irreverente sedutor.

 

Pra começar, o máximo de “aventura” que o jovem Molière vive é fugir de um cachorro bravo. Não se trata, nem de perto, de um filme de aventura. Tampouco se justifica a alcunha de “sedutor” que o título brasileiro impinge ao ator/dramaturgo. Embora tenha criado, mais tarde na vida, a peça Don Juan, não se mostra, ele próprio, nenhum conquistador, Don Juan, Casanova, nada deste tipo. Ao longo do filme ele se apaixona uma única vez e seduz uma única mulher, justamente a senhora Jourdain.

 

E a irreverência não é, também, uma marca tão fundamental da personalidade de Molière. Trata-se de um grande ator cômico, um sujeito expansivo e divertido. Mas irreverente? Nem tanto. Aliás, a origem de sua frustração, o que mais o atormenta, é justamente a reverência excessiva com que ele encara a tragédia – como gênero teatral pretensamente superior. Incrivelmente dotado para o humor, Jean-Baptiste Poquelin se mostra patético quando insiste em fazer tragédias. O público, perspicaz, lhe responde com tomates na cara. A madame Jourdain, ao vê-lo interpretar uma cena dramática, cai na risada e garante, sem pestanejar, que “suas palhaçadas são mais comoventes do que qualquer tragédia”. É este o momento da epifania, para Molière, a primeira vez em que ele se dá conta de todo o poder e profundidade do humor. Ainda tenta retrucar à amante que precisa fazer tragédias porque quer falar de coisas sérias e não existe comédia que faça isso (vale lembrar que, até aquele momento, o teatro cômico era dominado pelas farsas, que historicamente eram mais curtas, grosseiras e muito improvisadas, com forte influência da commédia dell’ arte). Mais uma vez, é a senhora Jourdain quem dá a dica/pedido/ordem: Se não existe esta comédia, então trate de inventá-la!

Moliere 3

 

O resto, como se diz, é história: Molière vai se tornar o dramaturgo que, ao longo de sua carreira, recriará o gênero cômico. Extrapolou os esquemas, situações e personagens típicos da farsa, incorporou a ela, com seu agudo olhar satírico, a crônica de costumes e assim elevou o teatro humorístico ao nível de grande arte. No livro “Molière, ou a essência do gênio cômico”, Ramon Fernandez lembra que, no século XVII, considerava-se difícil, para as comédias, tocar “o fundo do coração humano”. Mas Molière, 

 

“pelo peso de sua experiência, por seu humor repleto de élan e provocacão, pela clareza e seriedade de seu pensamento, iria tocar este fundo a todo momento. Daí ele provavelmente ter se confundido sobre a forma que deveria dar à sua mensagem. Inicialmente começou se inspirando em modelos (trágicos) que não lhe convinham. Ao mesmo tempo, para responder às demandas do público, para aumentar sua receita, para continuar a se exercitar num gênero em que ele brilhava inconteste, Molière aperfeiçoou a linguagem cômica. Talvez não tivesse consciência clara disso, pois as grandes obras sérias, com as quais sonhava, não se exprimiriam perfeitamente nesta linguagem. Não estava longe, portanto, o momento em que os lados cômico e trágico, separados pelas convenções, iriam se reunir e se ligar indissoluvelmente em sua vida.” (FERNANDEZ, 1979).

 

As melhores cenas do filme giram em torno da tensão entre o que é ou não tocante, o que é ou não profundo, o que é essência, o que é aparência, o que é encenação. Num dos primeiros diálogos entre Molière e a senhora Jourdain, ela, ainda acreditando que ele  era um padre, comenta: “Senhor Tartufo, há muito tempo eu compreendi que os homens da igreja são, na maioria, meros atores que repetem incessantemente as mesmas frases, com menor ou maior convicção.”  


Espelho
 

Na seqüência que melhor revela o talento de Laurent Tirard como encenador, Molière – que combinara um encontro secreto com a madame Jourdain – treina suas falas diante de um espelho. Ela, paralelamente, também eufórica e ansiosa – treina o que vai dizer diante de outro espelho. Cenas similares já apareceram aos montes no cinema, mas Tirard cria um estupendo jogo de angulações e reflexos, onde o posicionamento da câmera nos deixa, o tempo todo, como espiões e cúmplices, sem nunca saber ao certo se o diálogo já está ocorrendo, ou se ainda é ensaio.  Na cena seguinte, o diálogo real no jardim, tudo o que foi ensaiado cai por terra, como a dizer que uma coisa é o teatro, outra é a vida.

 

Outra cena marcante, neste jogo de encenações, é aquela em que Molière, dando aula de teatro ao senhor Jourdain, pede que ele imite um cavalo. Em termos diegéticos, o que temos é Jourdain fazendo um cavalo que ele acredita plausível, mas fora da diegese o que assistimos é o grande ator Lucchini imitando exageradamente um clichê de cavalo. Molière condena a encenação de Jourdain: “Você não fez um cavalo, fez um homem imitando um cavalo” e em seguida dá mostras de como seria um cavalo. A graça e a sutileza da cena são maiores na medida em que se atenta para o fato de que temos um bom ator – Duris – ensinando um excelente ator – Lucchini, a diferença entre um bom e um mau ator.

 

Na França o filme dividiu a crítica. A Cahiers du Cinéma, por exemplo, elogiou o dinamismo, a agudez e a capacidade de popularizar um personagem clássico. A Positif, por sua vez, considerou o filme pálido, pouco inspirado e deselegante.  As comparações do filme de Tirard com o Molière de Ariane Mnouchkine são despropositadas, já que o longo e complexo filme de 1978 era um drama de forte caráter  biográfico. Ali Molière estava inserido claramente na história da França e no universo do teatro, inclusive sendo quase indissociável de sua trupe. O novo Molière, por sua vez, não se pretende uma biografia sobre o ator/dramaturgo, e sim uma comédia, e mostra o ator separado da trupe, quase o tempo todo. Embora sejam propostas diametralmente opostas, cada uma bem sucedida em seu campo, é inegável que o filme de Tirard é o que mais se aproxima do universo ficcional molieresco, repleto de trapaças, enganos, fugas, esconderijos, respostas espirituosas. Se não é fiel à biografia do dramaturgo (pelo contrário, é pura especulação), o filme de Tirard é absolutamente coerente com a declaração de Molière que, após vencer seu recalque acerca da tragédia e do teatro sério, acabou se rendendo à diversão e declarou: antes de mais nada, eu faço teatro para agradar ao público.

 

Uma crítica comum a este tipo de história – que ficcionaliza um período da vida de um escritor ou dramaturgo – é a de que a trama forçaria a barra para mostrar diversas situações em que o autor teoricamente encontra a inspiração para suas  futuras criações. Este tipo de acusação recaiu, por exemplo, sobre Shakespeare Apaixonado e Em busca da terra do nunca, dois filmes que, particularmente, me agradam. Não resta dúvida de que As aventuras de Molière pode ser atacado na mesma base. Afinal, numa estadia de poucas semanas no palácio do Senhor Jourdain, Molière acaba vivendo inúmeras situações e conhecendo personagens que – na lógica interna do filme – iriam inspirar várias de suas obras: O Burguês Fidalgo (a mais evidente de todas, até pela presença do personagem Jourdain), As preciosas ridículas, Tartufo, Don Juan e As artimanhas de Scapino, entre outros.

 

Pode-se estranhar, aliás, que algumas das frases clássicas das peças de Molière (por exemplo, “Esconda este seio que eu não saberia ver”, ou “Que diabos ela foi fazer naquele navio?”, entre outras) sejam proferidas, no filme, por outros personagens. Então quer dizer que Molière não criou estas tiradas, mas apenas se apropriou do que disseram outras pessoas? Não vejo nenhum demérito nisto, pois o talento de um autor (especialmente um autor cômico) não está apenas em criar frases divertidas, mas também em perceber o quão engraçadas, curiosas, ridículas podem ser as frases e o comportamento do ser humano. Assim, quem estiver disposto a relevar estas licenças poéticas vai se divertir muito identificando as inúmeras citações e referências a trechos e diálogos das peças de Molière.

 

O final grave, pra baixo, é outro elemento que pode causar estranheza num filme que, afinal de contas, é um grande elogio da comédia. Mas me parece um final coerente, em se tratando de Molière, dramaturgo que gostava de deixar no público um certo gosto amargo e um bocado de assunto para reflexão e debate.

 

Filmes citados:

 

As aventuras de Molière – um adorável e irreverente sedutor (Molière, França, 2007 / Laurent Tirard)

Em busca da terra do nunca (Finding Neverland, EUA-Inglaterra, 2004 / Marc Forster)

Molière (idem, França, 1978 / Ariane Mnouchkine)

Shakespeare apaixonado (Shakespeare in love, EUA-Inglaterra, 1998 / John Madden)

 

Livros citados:

FERNANDEZ, Ramon. Molière, ou l’essence du génie comique. Paris: Ed. Bernard Grasset, 1979.