por Leo Cunha

Vou de Volta

Vou de volta
 


Existem,  dentre os vários tipos de documentários, dois bastante comuns: aqueles que procuram demonstrar uma tese e outros que procuram desvendar ou conhecer um universo, seja ele um grupo de pessoas, uma comunidade, um lugar, um ambiente, etc. Não acredito que um dos tipos seja necessariamente melhor do que o outro, mas costumo embarcar mais nos filmes do segundo tipo, especialmente quando nos levam junto nesta viagem.

 

Falei de embarque e viagem de forma apenas metafórica, claro. Mas no caso do documentário “Vou de volta”, estas palavras podem ser lidas de forma literal, também. A idéia do filme de Cláudio Assis e Camilo Cavalcante é relativamente simples. Camilo acompanhou, de mala, câmera e cuia, a viagem de um precário ônibus clandestino no longo trajeto Caruaru/São Paulo. Cláudio fez o mesmo, no trajeto oposto. Ali se instalaram para observar e entrevistar os passageiros, registrar suas falas, silêncios e olhares. O projeto original era um pouco diferente, como explicou Assis em 2003, em entrevista para a Revista de Cinema:

 

“Ele [Camilo] virá com uma equipe de Pernambuco até São Paulo, registrando uma família que migra cheia de ilusões nestes ônibus clandestinos, bem barra-pesada. Eu irei de São Paulo para Pernambuco, com outra família, miserável, desiludida, e também num ônibus clandestino. Vamos registrar esta ida e vinda num só filme.”

 

Em algum momento do processo, os diretores abandonaram a idéia de focar apenas duas famílias e as câmeras se voltaram para o conjunto dos passageiros de cada ônibus. A idéia se mostrou acertada. Mas o grande acerto do filme está mesmo é na edição. As duas viagens, filmadas separadamente (embora no mesmo dia), são exibidas de forma entrelaçada, a ponto de, a maior parte do tempo, não termos idéia se um determinado ônibus está subindo rumo ao nordeste ou descendo pra São Paulo. O filme não teria o mesmo sentido e o mesmo impacto caso mostrasse uma viagem e depois a outra. Não, porque logo percebemos que tudo faz parte de uma só viagem, um só movimento: um movimento de busca. Os passageiros que vão e os que vêem muitas vezes alegam os mesmos motivos para a viagem (a família, o amor, a saudade, a esperança, a oportunidade, o trabalho, o dinheiro). “Bom é sítio!”, diz um. “Bom é cidade!”, garante outro.

 

Embora em direções opostas, estão todos divididos entre sonho e realidade, futuro e passado, projetos e decepções. Entre a ida e a volta, como ressalta o inspirado título do filme.  Se nos road-movies tantas vezes o deslocamento simboliza alguma forma de descoberta, revelação ou crescimento – basta lembrar de Central do Brasil, O Caminho das Nuvens, Cinema, Aspirinas e Urubus, Deus é Brasileiro, para ficar só em alguns recentes – em Vou de volta a viagem já traz incluído o refluxo das viagens de retorno, um refluxo muitas vezes amargo, outras vezes resignado, outras feliz.

 

Com 54 minutos, o média-metragem – que desde seu lançamento em 2007 vem sendo exibido em festivais e sessões especiais, promovidas pelo SESC, pelo Itaú Cultural e outras entidades – tenta realizar uma espécie de radiografia do Brasil, afirma o diretor no making-of. Talvez não chegue a tanto, mas certamente nos ajuda a descobrir, ou pelo menos reparar com outros olhos, várias paisagens (mata, sertão, montanhas, planícies), estradas e restaurantes desta ampla região que se estende de Pernambuco a São Paulo. No caminho, acaba jogando luzes sobre vários problemas do país: a miséria, a falta de investimentos em infra-estrutura, a política pública de transportes, a corrupção. Nada disso surge de forma muito discursiva, ou num discurso muito articulado – em oposição, por exemplo, aos discursos panfletários que, mesmo quando bem articulados, perdem sua força transformadora devido à arrogância e falta de sutileza.

 

Longe de ser um tratado sobre os  “problemas brasileiros”, Vou de volta enche a tela com o cotidiano brasileiro: em vários depoimentos e diálogos surgem, de forma menos ou mais evidente, a religião, o futebol, a música, a bebida. A identidade (ou pelo menos o temperamento) nacional surgem de forma tão forte que dispensam qualquer argumentação.

 

No filme nos vemos como um povo adepto (ainda que contra nossa vontade, às vezes) da informalidade e da cordialidade. Usamos e abusamos dos ônibus clandestinos (ou piratas? ou alternativos?). Um passageiro assume, com a maior naturalidade e boa-vontade, o papel de repórter. Um dos motoristas conta que adora ver filmes pornôs com a família, mas só com a família! O jeitinho brasileiro aparece a todo momento, no sujeito que chuta a mala para ela caber no compartimento, ou no vendedor de beira de estrada que explica: tudo depende do motorista, se ele for legal e parar eu entro e vendo meus doces, se não, o jeito é esperar o próximo...

 

Para atingir este nível de naturalidade, o maior desafio do documentarista é conseguir a confiança e a cumplicidade das pessoas/personagens. É tênue a linha entre a espontaneidade autêntica e a vontade de aparecer, ou nem isso, a rara oportunidade se mostrar visível. Este é certamente um dos méritos de Assis e Cavalcante. Se não atinge tantos momentos de beleza, surpresa e emoção como os alcançados por Eduardo Coutinho num Edifício Master, ou Walter Carvalho e João Jardim num Janela da Alma, nem por isso Vou de Volta deixa de ser um retrato contundente (como é típico do cinema ficcional de Assis, mas sem a virulência de Amarelo Manga ou Baixio das Bestas), revelador e por vezes intrigante de um universo tão comum e tão pouco banal.

 

Filmes citados  

 

Amarelo manga (Brasil, 2002 / Cláudio Assis)

Baixio das bestas (Brasil, 2006/  Cláudio Assis)

O caminho das nuvens (Brasil, 2003 / Vicente Amorim)

Central do Brasil (Brasil, 1998 / Walter Salles)

Cinema, Aspirinas e Urubus (Brasil, 2005 / Marcelo Gomes)

Deus é brasileiro (Brasil, 2003 / Cacá Diegues)

Edifício Master (Brasil, 2002 / Eduardo Coutinho)

Janela da Alma (Brasil, 2001 / João Jardim e Walter Carvalho)

Vou de volta (Brasil, 2007 / Camilo Cavalcante e Cláudio Assis)