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por Leo Cunha
Cinema e esporte - parte 2: deboche e delírio
Na edição 19 do Filmes Polvo, falei sobre a relação cinema/esporte, abordando especificamente a representação do tempo e do espaço esportivo. Neste texto procuro retomar o tema, focando agora três comédias já clássicas, cada uma a seu modo: O calouro (1925), Monty Python ao vivo no Hollywood Bowl (1982) e Corra que a polícia vem aí (1988).
A grande maioria dos filmes citados na parte 1 adota o tom sério – e por vezes solene – para contar uma história envolvendo o esporte. Difícil saber os motivos deste predomínio de romances, dramas, ou aventuras dramáticas, mas arrisco a hipótese de que isto se deve, em boa parte, ao fato de o esporte ser objeto de tamanho fascínio e fanatismo e que, portanto, inspira sobretudo histórias emotivas, passionais, comoventes, redentoras.
Mas há também uma quantidade razoável de filmes que se dedicam a olhar o lado divertido e inusitado do esporte, ou que o encaram com deboche e irreverência. Afinal, não há nenhuma incompatibilidade, a princípio, entre a comédia e o esporte. Pelo contrário: a mesma estrutura narrativa que serve à tragédia (ou ao drama) serve também à comédia, sendo que o que muda é, basicamente, o tom. É o que afirma Harry Levin, em seu livro sobre a teoria e a prática da comédia: o conflito, a disputa central (conhecido desde os gregos como agon) é inerente a qualquer narrativa ficcional e uma das principais distinções entre comédia e tragédia é a maneira como cada uma delas dá resolução a este conflito, na medida em que “exulta com os vitoriosos ou se condói com os vencidos”.
“Em virtude do ‘princípio agonístico’, o instinto pelo jogo/brincadeira é canalizado para as atividades competitivas, o que se evidencia claramente nos esportes organizados, mas também está presente em outras manifestações mais elaboradas da cultura. (...) A batalha dos sexos, a luta de classes, o conflito de gerações – temas principais da chamada comédia antiga, de Aristófanes, continuam moldando os temas de Bernard Shaw. O agon é o plot elemental.” (LEVIN, 1987, p. 30-31)”
Qualquer esporte, então, daria margem a uma história cômica? Se depender de Hollywood, sim. Suas comédias já passearam por quase todos os esportes, com sucesso variado: o basquete (por exemplo, no topetudo Homens brancos não sabem enterrar), o beisebol (na comédia dramática Uma equipe muito especial), o futebol americano (no irregular O rei da água, fortemente inspirado em O calouro, filme de Harold Lloyd, que vou comentar adiante). Algumas vezes até repetiu a dose, como no caso de Clube dos pilantas e Golpe Baixo, que ganharam remakes ou continuações bem piores que os originais. O romance autobiográfico Fever Pitch, de Nick Hornby, que explora humoristicamente a paixão cega pelo futebol, também gerou duas adaptações, uma britânica, de David Evans e uma americana (e americanizada) dos irmãos Farrelly, transpondo a história para o mundo do beisebol e para os padrões da típica comédia romântica.
A Europa já ofereceu boas comédias “esportivas”, quase sempre em torno do futebol, como os ótimos Driblando o destino e Coup de tête , além do próprio Febre de bola, citado acima. Quando atacou de tênis, no filme Wimbledon - o jogo do amor, o romance falou mais forte que o humor.
No Brasil, os exemplos são mais raros. A comédia romântica O casamento de Romeu e Julieta, de Bruno Barreto, satirizou o fanatismo de duas torcidas rivais, numa farsa leve em que um torcedor corintiano precisa se fingir de palmeirense para conquistar a amada e, principalmente, o sogro, que torcem pro arquirival. Mas talvez o diretor brasileiro que melhor usou o humor para falar do esporte é Ugo Giorgetti, com os divertidos, ainda que por vezes tristes e nostálgicos, Boleiros 1 e 2.
Neste artigo, porém, quero me deter sobre três comédias que, embora não sejam 100% dedicadas ao esporte, trazem seqüências esportivas memoráveis.

O calouro
Nesta que é uma de suas obras primas, Lloyd, gênio do humor físico, interpreta um jovem tímido e desengonçado que acabou de entrar na Universidade Tate e tenta de tudo para se ambientar com os novos colegas. Como era de se esperar, o esforço se revela inútil, e o calouro acaba virando vítima de piadas, pegadinhas e muita humilhação. A única pessoa que o entende e que o apóia é Peggy, apresentada, pelo letreiro, como “o tipo de garota que sua mãe deve ter sido”.
Os dois se conhecem numa seqüência magistral, no restaurante do trem, a caminho da faculdade. Lloyd senta-se por acaso ao lado da moça e tenta ajudá-la a completar as cruzadinhas do jornal. A palavra de que ela precisa é sinônimo de “a pessoa amada”. Harold sugere “sweetheart”, a moça devolve com “darling”, ele retruca “dearest”, ela vai de “precious”, ele, “honeybunch”. Ao ouvir aquele jovem casal – que na verdade nem se conhece! – trocando tantas “juras de amor”, uma velhinha da mesa de trás fica toda embevecida e diz pros dois: “que coisa linda é estar apaixonado”. Harold fica vermelho (em preto e branco...) e foge atarantado, derrubando, no caminho, garçom, bandeja e pratos. Um primor de ritmo e delicadeza, aliando a comédia de erros ao humor físico.
Mas, afinal, onde entra o esporte? Ora, ele será o responsável pelo suplício e pela “salvação” de Lloyd. O filme define a Tate como “um grande estádio de futebol com uma faculdade em anexo” e o aluno mais popular evidentemente é o capitão do time, Chet Trask. O plano inicial de Harold, para ser aceito na turma, é fazer parte dos líderes de torcida (cheerleaders). Mas logo um colega dá a dica: “Entenda: você nunca poderá ser tão popular como Chet a não ser que entre no time de futebol.” O calouro resolve seguir o conselho do amigo ao pé da letra e na cena seguinte já aparece no treino, o que gera outra gag memorável.
Enquanto o treinador – um durão que se barbeia com um maçarico – passa um sabão no time inteiro e só salva a pele do capitão Chet, Harold bate à porta. É o próprio capitão quem vai abrir a porta e, quando Lloyd se aproxima, ocupa exatamente o lugar onde Chet estava. Sem notar a mudança, o treinador continua rasgando elogios: este é o único homem aqui que tem “espírito de equipe”, o único jogador de verdade, um sujeito que vale mais que vocês todos juntos! Tudo isto apontando para Harold, que, encabulado, acredita ser mesmo o alvo dos cumprimentos. Mais uma vez, como na cena do trem, o recurso é à comédia de erros, ao famoso quiproqüó (aqui apresentado literalmente, pois o quid pro quo pode ser traduzido como “alguém pelo outro”, ou seja, um no lugar do outro, Harold no lugar de Chet).
O gran finale do filme de Lloyd – e é legítimo falar em “filme de Lloyd” na medida em que ele é não apenas o astro, mas também o produtor do filme, o que na época equivalia praticamente à paternidade da obra – ocorre, é claro, no estádio de futebol lotado de torcedores. Sem coragem de expulsar o esforçado Harold do time, o treinador deixa o coitado como waterboy (uma espécie de faz-tudo, leva-e-traz) da equipe. Mas Lloyd acredita piamente que é um dos jogadores reservas. O que ninguém esperava é que, justo no jogo final, vários titulares se machucariam, dando ao calouro, enfim, a oportunidade de entrar em campo. Apesar de todo o desengonço e imperícia, ele consegue se transformar, aos trancos e barrancos, no herói da partida, fazendo o touchdown no último minuto.
Com seus inseparáveis óculos de aro grosso, levemente desajustados no rosto, e seu corpo que fala tanto quanto o rosto, encolhendo-se, encurvando-se, alongando-se, contorcendo-se, Harold Lloyd apresenta, em O calouro, o triunfo do sujeito mediano, comum, como ocorre também em outras obras suas. O filme obteve sucesso estrondoso em seu lançamento, ultrapassando até mesmo a bilheteria de Chaplin com seu Em busca do ouro.
A trama, como acontece na maioria dos filmes de Lloyd (e do cinema burlesco, em geral), é bastante tênue, servindo apenas para costurar as mais diversas situações cômicas. O próprio ator declarou que costumava explorar todas as possibilidades humorísticas de um determinado cenário e só então mudava de seqüência (esta mudança também guardava estreita relação com a própria duração de cada rolo de filme). Se isto dava um caráter episódico ao filme, também garantia uma certa autonomia a cada cena: várias gags poderiam perfeitamente ser vistas e compreendidas de forma isolada. Prova disso é que a seqüência final (a decisão do campeonato) foi reaproveitada na íntegra, em outro contexto, como cena de abertura (e mote) do último filme de Lloyd, O pecado de Harold Diddlebock. Neste filme, de 1948, o roteiro foi criado por Preston Sturges especificamente para tirar da aposentadoria este ator magistral, de quem o cineasta era grande admirador.
Monty Python ao vivo no Hollywood Bowl
No início da década de 80, o Monty Python lançou nos cinemas esta obra estruturalmente inusitada (pelo menos para os padrões da época): um filme/espetáculo que registrava uma das apresentações ao vivo do grupo. Espécie de vaudeville atualizado, o filme mesclava esquetes teatrais e musicais, apresentadas ao vivo, com pequenos curtas filmados e exibidos para a platéia daquele mesmo espetáculo. Na melhor tradição nonsense dos pythons, cada quadro é mais delirante e mais cáustico que o outro, alvejando desde a burocracia (como na sensacional esquete do sujeito que vai a uma repartição pública para comprar uma discussão, mas, por engano, entra no setor de insultos) até as guerras (como na canção “Nunca seja rude com um árabe”). Em outros momentos o grupo simplesmente brinca de metalinguagem, como o quadro que finge contar o desenvolvimento histórico da comédia pastelão, ou a esquete dos andares idiotas (silly walks). Mas o que interessa, aqui, são duas pérolas que debocham do esporte, ou, para ser mais preciso, debocham das transmissões esportivas pela televisão.
A primeira esquete traz a “Silly Olimpiad”, uma espécie de para-olimpíada surreal, com modalidades como: os 3.000 metros com barreiras para pessoas que pensam que são galinha (os atletas param no alto dos obstáculos e simplesmente começam a chocar); a maratona para pessoas com incontinência urinária (os corredores criam um balé, um vai-e-vem interminável, do matinho para a pista, da pista pro matinho, para esvaziarem a bexiga); os 1.500 metros para surdos (os atletas não dão a partida mesmo após vários tiros, levando o juiz ao desespero), entre outros. A locução, feita em tom absolutamente sério e “profissional”, very british, cria um choque com as imagens absurdas, ampliando a graça do quadro. Em tempos politicamente corretos, como os de hoje, fatalmente se acusaria o grupo de calúnia, discriminação, etc, se tudo não acabasse num gordo processo judicial.
Outra seqüência (literalmente) histórica é a partida de futebol entre os filósofos alemães e gregos. Os primeiros entram em campo engravatados, jogando no esquema 4-2-4, com a seguinte formação: Leibniz no gol, Kant, Hegel Schopenhauer e Schelling; Beckenbauer e Jaspers no meio-campo; Schlegel, Wittgenstein, Nietzsche e Heidegger na ponta esquerda. Embora Beckenbauer esteja surpreendentemente em campo, o técnico Lutero preferiu dar a braçadeira de capitão para Hegel. O esquentadinho Nietzsche, pendurado com dois cartões, não demora a quebrar o pau com o árbitro Confúcio, a quem acusa de negar o livre... arbítrio. Será que Marx, relegado ao banco, pode entrar em campo e decidir a disputa?

Do outro lado, os gregos aparecem com uma formação bem mais defensiva: Platão no gol; Epíteto, Aristóteles, Sófocles e Empédocles na defesa; Plotin (que na verdade era egípcio), Epicuro, Heráclito e Demócrito; Sócrates e Arquimedes no ataque. Dado o apito inicial, a partida se arrasta em ritmo filosófico, com a bola esquecida no círculo central, e os 22 “atletas” caminhando compenetrados pra um lado e pro outro. Até que Arquimedes tem uma brilhante idéia...
Toda a estética das tele-coberturas esportivas é parodiada no filme, desde o estilo do locutor e dos comentaristas, passando pelo replay, pela trilha sonora e pelo som ambiente das torcidas. Com arbitragem de Confúcio e seu cronômetro-ampulheta, e bandeiras a cargo de Santo Agostinho e São Tomás de Aquino, a “emocionante” peleja está disponível no You Tube, assim como a Silly Olimpiad. Mas o melhor mesmo é se dirigir a uma boa locadora e assistir ao filme inteiro.
Corra que a polícia vem aí
No primeiro filme da série The naked gun, o trio ZAZ – dos roteiristas David Zucker (também diretor), Jim Abrahams e Jerry Zucker – debocha do esporte de uma forma ao mesmo tempo mais escrachada e mais sutil. Aproveitando a fama de “cabeça oca” dos jogadores de beisebol, o filme apresenta um plano mirabolante para assassinar a rainha da Inglaterra, durante a final do campeonato, realizando lavagem cerebral num dos atletas. O resultado, como nos melhores filmes do ZAZ, é uma sucessão quase ininterrupta de gags visuais (o trio costumava apresentar uma edição preliminar de seus filmes, com mais de duas horas, para platéias americanas e em seguida eram retiradas da edição final todas as gags que não provocavam gargalhadas neste público teste).
Para impedir o assassinato da rainha, o atrapalhado tenente Frank Drebin (Leslie Nielsen) é convocado e, em sua missão, acaba se travestindo de cantor (e, de forma tão iconoclasta quanto os pythons, consegue destruir o hino nacional americano, antes do início do jogo) e de árbitro (provocando uma pancadaria entre os jogadores), até finalmente conseguir seu strike.
O filme se aventura em outros campos do humor (a paródia, o humor verbal, a sátira), mas é o burlesco que se destaca (da mesma forma como ocorre em O calouro e nas cenas esportivas do Monty Python). Como forma cômica, o burlesco é um humor essencialmente visual, marcado pela ação contínua e vertiginosa, não apenas dos personagens como também dos próprios eventos. Guarda, portanto, várias semelhanças com uma disputa esportiva.
Embora freqüentemente inclua tombos, acidentes, brigas, correria e perseguições, o que realmente distingue o burlesco, segundo Jean-Philippe Tessé, é a presença da hipérbole, o que pode incluir desde a habilidade até a inabilidade extrema, desde o azar completo até a sorte exagerada.
“O burlesco é aquilo que continua, por uma forma de perseverança tenaz. Isto não significa que as ações burlescas não têm fim, mas que seu princípio motor se encontra nelas próprias, e não fora delas, razão pela qual nada as pode conter, nem deter. Groucho Marx é movido por sua logorréia nonsense como Carlitos pelas convulsões de seu corpo, como Lloyd é levado pelo movimento da multidão, Keaton por suas quedas, Hulot pelas absurdas lógicas funcionais. Esquematicamente, o burlesco é uma interioridade que se excede, tanto a do corpo quanto a das entidades inanimadas.” (TESSÉ, 2007, p. 56)
Assim, a moral do burlesco (e ele a tem, embora tão freqüentemente seja desprezado como amoral ou imoral pelos pretensos “detentores do bom-gosto”) seria a de que agir neste mundo, qualquer que seja o motivo da ação, é exprimir a vitalidade e o vigor humanos.
Assistido hoje, Corra que a polícia vem aí traz uma ironia adicional que era imprevisível quando de seu lançamento em 1988. É que um dos protagonistas do filme é O.J. Simpson, grande astro do futebol americano que se tornou ator de sucesso (sobretudo devido a este filme e suas continuações) e posteriormente caiu em desgraça, quando foi acusado de assassinar sua esposa e o amante. Desde então, O.J. é uma das personalidades mais odiadas pelo público norte-americano. Pois bem, neste filme (e em toda a série) o agente Norberg, personagem de Simpson, é justamente o grande saco de pancadas, o sujeito azarado que apanha do primeiro ao último minuto.
No início do filme, Norberg se vê dentro da cabine de um barco, cercado por uma dúzia de capangas do vilão Vincent Ludwig (Ricardo Montalban). Quando o bandido ordena: “Kill him”, segue-se uma saraivada de tiros capaz de matar vinte heróis dramáticos. Mas o pobre Norberg não morre... Pelo contrário: cambaleia para trás, acerta a cabeça num cano, salta de dor, cai com a mão numa chaleira fervendo, bate numa porta com tinta fresca, prende a mão na janela, prende o pé numa armadilha para ursos (que obviamente não tinha nenhuma razão lógica para estar ali) e sai pulando desesperado do barco até despencar no rio, não sem antes, muito adequadamente, cair de cara numa imensa torta de aniversário. Tudo isso em coisa de 20 segundos.
Petr Kral, em seu livro sobre o burlesco – cujo subtítulo é justamente “a moral da torta de creme” – valoriza este aspecto concreto, material, das gags. Segundo ele, a maior parte dos estudos sobre o humor se dedicou a analisar o esquema intelectual e formal, construtivo, sobre o qual as gags se sustentam.
“Ao longo de toda a história do burlesco, de Sennet a Mel Brooks, encontramos gags cujo efeito e cuja ‘mensagem’, confundidos em uma única evidência, escapam a esta maneira (formalista) de visão: gags menos espirituais que materiais, a ponto de os americanos as terem sistematizado, e cujo ‘modelo’ elementar é a clássica torta de creme na cara. Quando Dali, a propósito dos Irmãos Marx, fala do ‘desejo de uma irracionalidade sistemática e concreta, latente ao longo da história do cinema cômico’, ele presta homenagem, na verdade, a esta gag materialista, praticada, antes dos Marx, notadamente por Sennett e Larry Semon.” (KRAL, 2007, p. 169)
O que o trio ZAZ nos propõe é este humor do excesso materializado. Não basta um tombo, tem que ser vários seguidos, não basta ser atropelado, tem que ser atropelado por um carro, uma moto, um caminhão, um rolo-compressor... Assim, para Norberg, a cena do barco é o anúncio de um suplício que está apenas começando e vai se repetir, como um leit-motiv, ao longo de todo o filme (e da série), no quarto de hospital, na rua, preso debaixo de um carro, até o tombo final no estádio de beisebol.

Mas de todas as cenas protagonizadas por Simpson, aquela em que ele melhor se auto-ironiza, como ex-atleta, é certamente a abertura do último filme na série, “Corra que a polícia vem aí 33 e 1/3”. Numa paródia da cena da escadaria de Os Intocáveis (que por sua vez já citava O Encouraçado Potemkin), Norberg se vê no meio de um tiroteio e precisa salvar um carrinho de bebê (de gêmeos, claro, pois um só não basta) que desce destrambelhado pelos degraus. O carrinho é seguido por um cortador elétrico de grama, pela comitiva do presidente, pela comitiva do papa, por um homem-bomba e por uma quadrilha de carteiros rebelados... A cena termina com vários bebês voando pelos ares e sendo agarrados por Norberg, exatamente como o atleta O.J. Simpson faria no campo de futebol americano. Num uso brilhante da profundidade de campo, Norberg permanece em segundo plano, onde faz aquela dancinha infame de comemoração, típica do atleta que acabou de fazer o touchdown. Quando está prestes a atirar a bola/bebê no chão, para completar a comemoração, Norberg é impedido pela mãe (do bebê, claro!). Enquanto isso, em primeiro plano, o tenente Drebin continua seu duelo eterno contra os bandidos.
Coincidentemente, ou não, os três filmes que escolhi para análise recorrem a um humor mais rasgado, de natureza fortemente burlesca. Em Lloyd, o burlesco se alia à sátira e, principalmente, à comédia de erros e quiproqüós. No Monty Python, o burlesco também ganha tom satírico e uma grande presença do nonsense. O trio ZAZ, sem descartar a sátira, cria uma comédia que mescla, principalmente, o burlesco e a paródia.
Filmes citados:
Amor em jogo (Fever Pitch, 2005 / Peter e Bobby Farrely)
Driblando o destino (Bend it like Beckham, 2002 / Gurinder Chadha)
Boleiros - Era Uma Vez o Futebol (1998 / Ugo Giogetti)
Boleiros 2 - Vencedores e Vencidos (2006 / Ugo Giorgetti)
O calouro (The Freshman, 1925 / Fred C. Newmeyer e Sam Taylor)
O casamento de Romeu e Julieta (2005 / Bruno Barreto)
Corra que a polícia vem aí (The naked gun: from the files of Police Squad, 1988 / David Zucker)
Corra que a polícia vem aí 2 e 1/2 (The naked gun 2 1/2: the smell of fear, 1991 / David Zucker
Corra que a polícia vem aí 33 e 1/3 (The naked gun 33 1/3: the final insult, 1994 / Peter Segal)
Coup de tête (1979 / Jean-Jacques Annaud)
O clube dos pilantras (Caddyshack, 1980 / Harold Ramis)
Uma Equipe muito especial (A league of their own, 1992 / Penny Marshall)
Em busca do ouro (The gold rush, 1925 / Charles Chaplin)
O Encouraçado Potemkim (Bronenosets Potyomkin, 1925 / Sergei Eisenstein)
Febre de Bola (Fever Pitch, 1997 / David Evans)
Golpe baixo (The longest yard, 1974 / Robert Aldrich)
Golpe baixo (The longest yard, 2005 / Peter Segal)
Homens brancos não sabem enterrar (White Men Can't Jump, 1992 / Ron Shelton)
Os intocáveis (The untouchables, 1987 / Brian de Palma)
Monty Python ao vivo no Hollywood Bowl (Monty Python live at the Hollywood Bowl, 1982 / Terry Hughes e Ian MacNaughton)
Rei da água (The waterboy, 1998 / Frank Coraci)
The sins of Harold Diddlebock ( 1947 / Preston Sturges)
Wimbledon, o jogo do amor (Wimbledon, 2004 / Richard Loncraine)
Livros citados:
HORNBY, Nick, Febre de bola. Rio de Janeiro: Rocco, 2000.
KRÁL, Petr. Le Burlesque, ou la morale de la tarte à creme. Paris: Ramsay, 2007.
LEVIN, Harrry. Playboys and killjoys: an essay on the theory & practice of comedy. New York: Oxford Press, 1987.
TESSÉ, Jean-Philippe. Le burlesque. Paris: Cahiers du Cinéma, Scéren-CNDP, 2007.








