por Leo Cunha

O filme é uma porcaria... ou, melhor, é brilhante! (Parte 1)

Atire o primeiro tomate o crítico que jamais se enganou diante de um filme. Quem nunca desprezou um filme que acabou venerado pelo público e pelo restante da crítica? Quem nunca deu cinco estrelas a uma maçaroca pretensiosa e incompreensível? Não estou falando simplesmente de remar contra a corrente, mas de rasgar elogios ou blasfêmias que, tempos depois, o próprio crítico percebe como imerecidos.

 

Os motivos para o engano podem ser muitos. Na fila de trás tinha um sujeito comendo pipoca que me tirou a concentração... Naquele dia eu estava mal-humorado... Ou naquele dia eu estava tão apaixonado que qualquer bobagem seria uma obra-prima... Ou isso, ou aquilo.

 

Calma com os tomates, que o erro é humano, é natural e não engorda.

 

Raro, mesmo, é ver o crítico reconhecendo um engano, ou nem isso, reconhecendo que simplesmente mudou de opinião.

 

Ficou famoso o caso de Joseph Morgenstern, prestigioso crítico da “Newsweek”, que, em 21 de agosto de 1967, publicou uma crítica extremamente negativa de “Bonnie & Clyde – uma rajada de balas”, acusando-o de violência gratuita e desinteressante. Uma semana depois, após rever o filme, Morgenstern voltou atrás e, sem pestanejar, escreveu: “Lamento dizer que eu considero minha crítica anterior grosseiramente injusta e lamentavalmente imprecisa.” O segundo texto enxerga coerência no uso da violência e elogia a maestria artística do diretor Arthur Penn.

 

O célebre Roger Ebert – único crítico de cinema a vencer o prêmio Pulitzer – é outro que não se acanha em mudar de opinião. Dois anos atrás ele fez isso com relação a “Menina de Ouro”, de Clint Eastwood: a primeira crítica elogiava a obra, mas sem muita empolgação. A segunda tratou o filme como “obra prima”.

 

Mais recentemente (julho de 2007) Ebert fez algo ainda mais notável, porque incomum. Retratou-se de uma crítica publicada 30 anos antes. O filme em questão era “The killer of sheep”, de Charles Burnett. O novo texto diz o seguinte:

 

“A vida comum cotidiana é uma das coisas mais difíceis de serem retratadas em um filme, pois tantos outros filmes nos treinaram a esperar certos padrões e enredos. Em minha crítica de 1977 de Killer of Sheep, eu caí no erro da expectativa, com uma avaliação tão equivocada que está gritando para ser corrigida. Eu escrevi: ‘Em vez de fazer uma declaração abrangente sobre seus personagens, Burnett escolheu mostrá-los envolvidos numa série de tarefas rotineiras, nas lutas, sucessos e fracassos que compõem uma vida na qual, por causa da pobreza, há pouca liberdade para a escolha’. Evidentemente eu deveria ter visto que o que Burnett decidiu mostrar é, na verdade, uma declaração abrangente. Neste filme poético sobre uma família pobre, ele observa a nobreza silenciosa das vidas vividas com valores mas sem oportunidades. As vidas não vão a lugar algum, o filme não vai a lugar algum e, ficando onde estão, ambos evocam um sentimento de tristeza e perda. (...) Você tem que estar preparado para ver um filme como este, ou deve ser capaz de relaxar e deixar que o filme se desdobre. Ao contrário da maioria dos filmes, ele não vem com instruções embutidas sobre como deve ser apreciado.”

 

O próprio Ebert já escreveu, mais de uma vez, que o crítico que publica seus textos na imprensa se arrisca muito mais, na medida em que precisa escrever no calor do momento e, portanto, pode ter surpresas desagradáveis quando a temperatura esfria.

 

Mas se por um lado a crítica jornalística costuma ser mais arriscada e destemida, por outro lado ela deveria sempre ser entendida como relativa e provisória e não como absoluta, definitiva. Tanto pelos leitores quanto pelos próprios críticos. Mesmo porque ela ainda não passou pelo teste do tempo.

 

Claro, toda crítica é, em certa medida, circunstancial. Mas isto se torna mais evidente quando o texto é elaborado de forma rápida, inserido na rotina produtiva de um veículo jornalístico. Os estudiosos que consideram a crítica jornalística menor (do que aquela de caráter acadêmico) apóiam-se, entre outras coisas, neste aspecto.

 

O italiano Giulio Carlo Argan, por exemplo, defende que a crítica é indissociável da história da arte. Não apenas as duas se preocupam com questões semelhantes – como a autenticidade e a originalidade – mas tais quesitos “se verificam comparando a obra que se estuda àquilo que foi feito antes e depois, e portanto, estudando a situação da cultura figurativa em que se inseriu e que a modificou. (Assim) é claro que o caráter artístico da obra não é diferente da sua historicidade e que o juízo crítico é juízo histórico, de tal modo que não pode existir nenhuma distinção, no plano teórico, entre crítica e história da arte” (1995, p. 142).

 

Não é comum o leitor de jornais e revistas ter acesso a retratações como esta. Mas a internet, com sua capacidade quase inesgotável de armazenamento e busca, torna possível, e mesmo corriqueira, a leitura comparada de duas críticas divergentes de um mesmo crítico. Neste aspecto, o site de Roger Ebert é impressionante, pois traz tudo o que o crítico publicou na imprensa nos últimos 40 anos. Para quem gosta de ler e pesquisar críticas, como eu, o site é uma mina de ouro.

 

Um dos episódios mais irônicos que podemos acompanhar no site envolve uma comédia de verão americana chamada “Golpe Baixo”. Em 2005, Ebert escreveu pedindo a seus leitores que “relativizassem” o elogio feito ao filme, algumas semanas antes: “Eu me encheria de remorsos se não incentivasse vocês (leitores) a levar em conta a melancolia deste texto e a procurar um filme que possa gerar uma conversa interessante.” Escrevendo a segunda crítica de “Golpe Baixo” logo após retornar do festival de Cannes, o jornalista se justifica assim: “Eu acabei de voltar de 12 dias em Cannes, onde, várias vezes por dia, fui relembrado de que os filmes podem enriquecer nossas vidas, ao invés de simplesmente nos ajudar a passar pela vida”.

É fascinante ver um crítico de primeira linha se desnudando a nossa frente. Corajosamente, Ebert  explica: “Eu não digo que estava errado sobre o filme (na primeira crítica). Eu disse o que eu realmente pensava, naquele momento. Eu acreditei no filme como alguém pode acreditar numa boa xícara de café: bem-vinda enquanto você a bebe, talvez até mesmo envolvente, mas nada que mereça discussão três semanas depois. Para falar a verdade, após minha imersão nos filmes de Cannes, eu mal consigo me relembrar alguma coisa sobre “Golpe baixo”, já que ele representa uma visão muito limitada do que um filme pode ser e para que servem os filmes.”

 

Neste caso, é claro como as circunstâncias alteraram a percepção do crítico, que reconhece e aponta isto no texto. Afinal, mudar de idéia não é nenhum bicho-de-sete-cabeças. Mas este bicho, e as críticas ao filme com este título, de Laís Bodanzky, ficam para a Parte 2 deste artigo. Até lá.

 

Filmes citados:

BURNETT, Charles. Killer of sheep, 1977.

EASTWOOD, Clint. Menina de ouro, 2004.

PENN, Arthur. Bonnie & Clyde – uma rajada de balas, 1967.

SEGAL, Peter. Golpe baixo, 2005.

 

Livros citados:

ARGAN, Giulio C. Arte e crítica de arte. Lisboa: Estampa.

EBERT, Roger. Questions for the movie answer man. Kansas: Andrews McMill, 1997.

 

Site de Roger Ebert

http://rogerebert.suntimes.com