por Leo Cunha

The beaver: mea culpa ou chantagem emocional?

 

The beaver, de Jodie Foster, seria talvez um filme descartável se tivesse outro ator no papel principal. O ponto de maior interesse da obra é a presença de Mel Gibson, não por seu talento (embora seja uma atuação grandiosa), mas sim pela gritante paralelo da trama com a vida pessoal do ator. O leitor pode argumentar que uma crítica não deveria levar em conta aspectos extra-fílmicos como este. Talvez não, se a escalação do ator fosse um detalhe ou um acaso. Mas, aqui, ela é uma opção narrativa, expressiva, até mesmo moral. 

Como é amplamente conhecido, Mel Gibson enfrenta há anos a doença do alcoolismo, que em várias ocasiões o levou a comportar-se de forma misógina, preconceituosa, intolerante e violenta. Ou talvez sua índole já fosse essa e a bebida simplesmente o levou a externá-la. Não interessa, aqui, a origem do mau comportamento, mas sim o fato de que, independentemente desta origem, a via crucis de Gibson tem sido pública, como a do protagonista de seu A paixão de Cristo.  

O meloso título brasileiro, Um novo despertar, sublinha a relação entre a trajetória do protagonista e a do ator. No filme, o empresário Walter Black, deprimido, alienado da realidade, frustrado profissionalmente e em crise com a família, descobre por acaso, numa lata de lixo, o fantoche de um castor. Como costuma ocorrer com a bebida e outras drogas, o bonequinho se mostra, inicialmente, como uma salvação: com o fantoche na mão, Black se sente mais confiante, mais alegre, mais criativo, mais inteligente, mais sociável, mais ousado. E menos autocrítico. 

Não vai demorar, evidentemente, para o castor botar as garras de fora, distorcendo (ainda mais) a visão de mundo de Black. Se inicialmente o fantoche é um estímulo, torna-se aos poucos uma bengala e em seguida uma obsessão. Quando o vício/castor passa a exigir dedicação exclusiva, forçando Walter a maltratar todo mundo à sua volta, mesmo quem mais o ama, a saída encontrada é radical e mesmo surpreendente para o filme que se anunciava. 

Sim, porque, em torno dessa metáfora central, Foster construiu um típico teledrama familiar e não muito distante da maioria dos filmes de high school da Sessão da Tarde. Estão ali personagens bastante manjados: a garota mais popular da escola que na verdade reprime uma grande vocação artística; o garoto meio rebelde apaixonado por essa mesma garota mais popular da escola; a mãe que condena o talento da filha, que atrapalharia o desempenho acadêmico etc. 

Tanta mesmice acaba canalizando as atenções para o drama do personagem – e do ator – principal. Afinal de contas, Mel Gibson estará fazendo um mea culpa por meio de Walter Black? Estará assumindo seus erros e pedindo perdão, com o apoio moral (mais do que profissional) da amiga Jodie Foster? Pode até ser que sim, mas, no fundo, é difícil afastar a sensação incômoda de que o ator, pelo contrário, está posando de “coitadinho”, como quem diz: vejam, pessoal, eu já carreguei minha cruz, já cortei na carne, já recebi minha punição, agora mereço um habeas corpus, mereço sair do exílio (por mais que seja um simbólico, disfarçado, hollywoodiano, não deixa de ser um exílio o que Gibson sofreu recentemente). Em outras palavras, o clima é de mal disfarçada chantagem emocional. 

Nesse sentido, o Walter Black de Gibson é bem diferente de outros personagens que também ironizaram, debocharam ou questionaram os próprios atores escalados para interpretá-los: o crooner sedutor, cafajeste, bebum e decadente de Dean Martin, em Beije-me, idiota, de Billy Wilder; o genial mas irritadiço comediante Jerry Langford, interpretado (quase como um espelho) por um Jerry Lewis já maduro, em O rei da comédia, de Martin Scorsese; o surreal e metalinguístico Jack Slater de Schwarzenegger, no subestimado O último grande herói, de John Mc Tiernan; ou mesmo o talentoso, genioso e viciado Sherlock Holmes vivido por Robert Downey Jr, no filme de Guy Ritchie. 

Isso para não citar os atores que literalmente interpretam a si mesmos (ou pelo menos uma auto-caricatura): Jerry Seinfeld no seriado que leva seu nome; Larry David, em Curb your enthusiasm; o Malkovich de Quero ser John Malkovich, filme de Spike Jonze que ao mesmo tempo reforça e desconstrói a aura intelectual do ator; ou ainda a ponta hilária de Julia Roberts, que vira uma sósia dela mesma em Doze homens e outro segredo, de Steven Soderbergh. 

Há que se considerar que todos os filmes citados acima são essencialmente cômicos (até mesmo o de Scorsese com seu humor mais sombrio), mas o tratamento dramático da questão aparece, por exemplo, em Crepúsculo dos deuses. Como lembra Ana Lucia Andrade em seu estudo sobre Billy Wilder, o filme traz diversas pessoas interpretando a si mesmos (como o diretor Cecil B. De Mille e a jornalista Hedda Hopper) e mescla ironia e melancolia na construção dos personagens de Gloria Swanson e Erich von Stroheim: 

“ [Eles] parecem confundir-se entre realidade e ficção, pois evocam seus ‘papéis interpretados’ na própria história do cinema. O personagem Norma Desmond – uma famosa estrela esquecida – é interpretado por Swanson que, na vida real, foi uma grande atriz do cinema mudo, tendo ficado reclusa com a transição para o cinema sonoro. Seu mordomo Max – um diretor desiludido – é interpretado por Stroheim, um dos grandes diretores do cinema mudo, também afastado com a chegada do som.” (ANDRADE, 2004, p. 96) 

Se Billy Wilder pontua o que há de tragicômico na auto-ilusão de Norma, Jodie Foster não deseja ou não consegue explorar tal dualidade. O filme se leva a sério até demais. Talvez por se basear numa premissa tão esdrúxula, a diretora se esmerou em criar um tom sóbrio, que reforçasse a seriedade e a “profundidade” de sua metáfora central. Um pouco de leveza, contudo, não faria mal ao filme, como mostra outra obra de premissa bastante similar a The beaver: A garota ideal. Nesse filme, o tímido e solitário Lars encomenda uma boneca inflável e passa a circular com ela pela cidade e entre os amigos, tratando-a como sua namorada e esperando que todos façam o mesmo. O diretor Craig Gillespie consegue equilibrar a narrativa entre dois riscos: o do ridículo e o da lição edificante. Na dúvida, Jodie Foster optou pelo segundo.
 

Filmes Citados:

Beije-me, idiota (Kiss me stupid, 1964/Billy Wilder)

Doze homens e outro segredo (Ocean’s twelve, 2004/Steven Soderbergh)

Garota ideal, A (Lars and the real girl, 2007/Craig Gillespie)

Novo despertar, Um (The beaver, 2011/Jodie Foster)

Paixão de Cristo, A (The passion of the Christ, 2007/Mel Gibson)

Quero ser John Malkovich (Being John Malkovich, 1999/Spike Jonze)

Rei da comédia, O (The king of comedy, 1983/Martin Scorsese)

Sherlock Holmes (idem, 2009/Guy Ritchie)

Último grande herói, O (The last action hero, 1993/John McTiernan)

 

Seriados Citados:

Segura a onda (Curb your enthusiasm, desde 2000)

Seinfeld (idem, 1989 a 1998)

 

Livro Citado:

ANDRADE, Ana Lúcia. Entretenimento inteligente: o cinema de Billy Wilder. Belo Horizonte: UFMG, 2004.