por Leo Cunha

Comédia à francesa - parte 5: La verité si je mens

Retomando a série sobre as comédias populares francesas, este texto aborda o filme La vérité si je mens,  de Thomas Gilou. Cusiosamente, o filme me veio à lembrança a partir de uma cena nada cômica: a tirada infeliz de Lars von Trier, no mais recente Festival de Cannes. Em sua frase infame, o cineasta dinamarquês afirmou: “I really wanted to be a jew, and then I found that I was really a nazi....” Era pra ser uma piada, mas von Trier acabou se enrolando todo e deu no que deu. 

No mundo da ficção, porém, um desejo semelhante pode render bons momentos de humor. É o que ocorreu em 1997 com a comédia La vérité si je mens, grande fenômeno de bilheteria na França, que gerou inclusive duas sequências – a primeira, ainda mais bem sucedida comercialmente, em 2001, e a segunda programada para estrear em 2012. No filme, Edouard Vuibert é um sujeito solitário, sem família, desempregado e afundado em dívidas. Vagando pelo Sentier, um dos bairros judeus parisienses, Edouard se envolve em uma briga, na qual seu agressor perde uma corrente com o símbolo da estrela de Davi. Quando Victor Benzakem, comerciante bem sucedido no bairro vem socorrê-lo, encontra-o estirado no chão ao lado do símbolo judaico e automaticamente o toma por um judeu. Munido do espírito de solidariedade ao correligionário, Benzakem decide contratá-lo como estoquista de sua loja de tecidos.

 

Eddie Vuibert logo percebe o mal-entendido, mas não tem como (nem pode se dar o luxo de) esclarecer a verdade, pois acaba de encontrar seu passaporte para sair da miséria. Começa a se passar por judeu e envolve-se como toda a calorosa comunidade do Sentier – vale sublinhar que se trata dos judeus sefárdicos, ou seja, aqueles oriundos da África do Norte e da península ibérica, de perfil mais popular e mais simples do que, por exemplo, os provenientes de Israel. 

O problema do protagonista, como o público vai notar, é que ele não conhece absolutamente nada sobre a religião nem os costumes judaicos (nem sequer sabe o que é o sabá, dia de descanso semanal do judaísmo). A trama se desenha de forma previsível, a partir daí. A grande questão é: quando a mentira vai ser descoberta? Trata-se, basicamente, da mesma estratégia que embalou dezenas de comédias francesas contemporâneas, nas mãos de Gérard Oury (As loucas aventuras do Rabi Jacob),  Edouard Molinaro (A gaiola das loucas), Claude Zidi (Les ripoux), Francis Veber (O closet), Patrice Leconte (O meu melhor amigo), Pierre Salvadori (Uma doce mentira), entre outras tantas.

O inevitável subplot romântico também vai marcar presença, com Vuibert se interessando pela filha do chefe, moça que já estava envolvida com um empresário desonesto. Mas Gilou, talvez ciente de que tem nas mãos uma trama bastante convencional, toma a liberdade de deixá-la de lado, em determinados momentos. Em mais de uma cena, temos a impressão de que o diretor deixa os personagens o conduzirem um pouco a esmo, descolando-se dos conflitos e contemplando a fauna rica e divertida que circula pelas empresas, pelas ruas, pelas festas. Em vez de se fiar apenas no conflito principal e nos quiprocós derivados, o diretor se permite um interessante mergulho no Sentier: seu dinamismo, sua exuberância de cores, sotaques, gírias e emoções à flor da pele. Neste quadro, que às vezes resvala na caricatura, Eddie se revela um protagonista inesperado, já que é um sujeito discreto, quase triste, em meio ao espalhafato da comunidade.

Segundo Grassin e Sender, no livro “Comédies françaises”, um dos méritos de La vérité si je mens foi mostrar aos franceses essa “tribo” de imigrantes incrustrada bem no meio de Paris, mas bem pouco conhecida, até mesmo pelos próprios moradores da cidade.  Mesmo que, ao fazer isso, tenha folclorizado os personagens. Talvez a sátira não funcionasse tão bem, argumentam os autores, se Gilou tivesse escalado, para os papeis de Eddie e seus amigos, intérpretes conhecidos do público. Foi acertada a opção por atores sem grande notoriedade (pelo menos até então).

Embora passe ao largo do embate entre judeus e palestinos (mesmo porque foi filmado num momento histórico relativamente tranquilo, no que se refere ao oriente médio), o filme sugere pelo menos duas leituras “políticas”. Em primeiro lugar ele ressalta a importância de se dar oportunidades a quem está marginalizado, ou fragilizado. Eddie não é propriamente o self-made man, pelo contrário: simboliza o homem a quem, uma vez dado um empurrão, um pontapé inicial, consegue se erguer e ser bem sucedido. Mas sempre com o apoio dos amigos. 

A outra leitura moral tem a ver com tolerância e religião. Quando finalmente sua farsa é descoberta, Eddie, com grande capacidade de observação e argumentação, consegue desarmar a rejeição dos novos amigos, mostrando como muitos membros da comunidade apenas se afirmavam judeus, mas tinham comportamentos que se desviavam da própria religião. “Sim, eu quero ser judeu”, declara. “Qual a diferença entre vocês e eu?”, ele provoca os companheiros, que não têm como responder. Assim, o filme também sugere que o caráter e a personalidade podem falar mais alto do que o sangue, a raiz, a origem.

 

Filmes citados:

O closet (Le placard, 2001/Francis Veber)

Uma doce mentira (Une vraie mensonge, 2010/Pierre Salvadori)

A gaiola das loucas (La cage aux folles, 1978/Edouard Molinaro)

Golpe de tiras (Les Ripoux, 1984/Claude Zidi)

As loucas aventuras do Rabi Jacob (Les aventures de Rabbi Jacob, 1973/Gérard Oury)

O meu melhor amigo (Mon meilleur ami, 2006/Patrice Leconte)

La vérité si je mens! (1997/Thomas Gilou)

La vérité si je mens 2! (2001/Thomas Gilou)

La vérité si je mens 3! (2012/Thomas Gilou)

 

Livro citado:

GRASSIN, Sophie e SENDER, Robert. Comédies françaises. Paris: Éditions du Moment, 2011.