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por Ursula Rösele
A Nova Geração da Comédia Americana: Judd Apatow e cia (Parte 2)

Na primeira parte deste texto a ideia foi discorrer acerca de filmes dirigidos por Judd Apatow – apesar do início ter sido focado na série de Paul Feig com produção de Apatow, Freaks and Geeks. Há algo central nessas produções contemporâneas, que se trata de estarem sempre ligadas a um conflito de base que geralmente é apresentado no início dos filmes e é responsável por desencadear a maioria dos eventos, porém, por vezes mascara outras questões mais doces ou passíveis de algum tipo de reflexão para além do terreno da sátira e do fazer rir.
Nesta segunda parte, a ideia é focar em produções da Apatow Company, além de filmes nos quais ele participou do roteiro. Sua essência – se pensarmos nos filmes em que ele de fato assinou a direção – paira na maioria desses filmes, de uma maneira ou de outra. O conjunto de participantes (autores, atores, etc) da equipe de Apatow contribui para fortalecer esta tal essência. São filmes por vezes escritos por ele, em outras em parcerias com os atores (Seth Rogen, Adam Sandler, Jason Segel, etc), mas sempre mantendo uma unicidade que, ainda que não resulte sempre em ótimos filmes, possibilita alguns pensamentos a respeito dessa geração de criadores que tem produzido filmes com abundância nos cinemas.
O já citado “conflito de base” pode ser pensado como uma questão colocada por vezes sutilmente e que dará o fio condutor ao todo da trama. No caso dos filmes Apatow Company, este conflito/situação na maioria das vezes serve apenas para dar o impulso inicial da trama, a aura satírica do filme. No caso de Superbad, por exemplo – a meu ver, o melhor e mais bem resolvido (dramática e esteticamente) dos filmes a serem tratados aqui – este conflito (ou situação) de base está no cerne de 99% dos filmes americanos sobre losers em vias de se formarem, atingirem a idade adulta, etc. Eles estarão invariavelmente às voltas com a ânsia pelo sexo, os hormônios exaltados, os conflitos com os “populares” e aqueles que agem como se seu esporte favorito fosse zombar dessa turma.
Superbad
Esse processo complexo de crescimento é um dos fortes dessa nova safra de filmes. Em Freaks and Geeks as questões em torno da adolescência são o centro do clã “geek”: assim como em Anos Incríveis isso é retratado de diversas formas. Além disso, um sem-número de filmes já passou pela transição infância-maturidade, virgindade-primeira vez, proibição de bebidas para menores, etc. Em Superbad os conflitos parecem simples à primeira vista, mas a sutileza do que há de intenso no fundo das questões retratadas é a amizade entre Evan e Seth (espécie de alterego de Seth Rogen – um dos roteiristas do filme), que já de cara ficamos sabendo serem muito ligados (falam-se ao telefone pela manhã até se encontrarem no carro; a mãe de um deles menciona a separação iminente) e terem sido selecionados para faculdades diferentes. Temos aí uma separação também tratada em Anos Incríveis, quando Paul Pfeiffer vai para uma outra escola e na dificuldade de saber como agir, Kevin o agride fisicamente.
Em Anos Incríveis, além da dramaticidade da câmera, temos um off de Kevin adulto, que revê e pontua seu passado de forma madura, nostálgica e muitas das vezes arrependida. Em Superbad, até pela obra ser voltada para o cinema, é a mise-en-scène dos atores e da câmera que dará esses toques de melancolia e reflexão nos momentos que distoam do humor sempre constante daquele grupo de jovens. A ida de Seth para uma faculdade inferior ainda coloca a complexa questão da diferença intelectual entre os dois, para além da distância que eles sofrerão.
Superbad mistura os diversos elementos dessa fase de seus personagens – a graduação, a possibilidade de ser cool por ter uma identidade que confere a um deles a condição de maioridade, poder entrar com bebida alcoólica em uma festa de garotas populares, e, claro, quem sabe, transar com alguma delas. Todas essas questões contêm muito humor, a despretensão clássica do adolescente – e principalmente do homem adolescente – para, enfim, trazer lá desses conflitos de base, a força que acabará por tornar este um grande filme.
Os filmes aqui tratados invariavelmente direcionam seu olhar para o homem (figura masculina), em suas mais diversas fases, estilos e comportamentos. No caso de Superbad, os três “homens” que encabeçam o longa estão sempre em condição de “pré” alguma coisa. Pré-sexo, pré-maioridade, pré-maturidade. E como bons jovens que são, carregam em si diversas marcas desta fase que contém mais incongruências que consensos. Todas essas questões são tratadas num misto de sutileza com tosquidão, como é marca do homem adolescente, principalmente quando em grupo de amigos. Seth é o gordinho que, por deduzir-se anti-sensual por excelência, não mede palavras para dizer o que pensa – que, neste caso, é sexo, todo o tempo. Evan é o jovem que não se adequa ao comportamento desrespeitoso para com as mulheres adotado pela maioria dos jovens de sua idade. Gosta de uma única garota e com ela passa por um longo – e constrangedor – processo de aproximação. Já Fogell surge para balancear as duas personalidades díspares dos amigos com um toque genial de sátira. A começar pelo seu nome, que sugere algumas interpretações cômicas, como “Fagell”, que é a maneira pela qual Seth o chama, fazendo um jogo fônico com o termo “faggot”: em inglês, “bicha”. Fogell também tem a mesma sonoridade da palavra alemã “vögel”, que significa pássaro; animal que muito se assemelha ao físico de Fogell, além de simbolizar o que o jovem parece querer fazer, ou seja, alçar voo diante da maioridade que o permitirá realizar suas fantasias. E para melhorar, o jovem consegue a tão sonhada carteira de identidade falsa e proporciona os melhores momentos do filme, por ter escolhido para ela apenas o nome “McLovin” – um jovem de 25 anos (ao invés de 21, pois o jovem mal aparenta ter mais de 18), residente no Havaí e doador de órgãos.
Assim como veremos nos filmes posteriores em que Apatow de fato assinará a direção, Superbad é uma potência em seu roteiro e na maneira como ele se desenvolve ao longo das cenas. Alguns elementos estéticos trabalhados por Mottola contribuem – e fortalecem - a mise-en-scène, como o constante uso de travellings e uma câmera de certa forma contemplativa que mostra ao espectador o panorama vivido pelos que estão no quadro, no qual, geralmente, o (s) personagem (s) está no centro. Um exemplo disso é a cena de Seth no supermercado. Ele devaneia que está a roubar bebidas e é filmado em travelling enquanto passeia ao redor das garrafas, que tomam praticamente todo o quadro com ele no meio. Quando o guarda o aborda, a câmera se converte em um princípio de plongée que torna Seth de certa maneira pequeno em relação ao policial que, de trás dele, assume a posição de comando sobre a situação que cairá em novo devaneio de Seth – que, obviamente, sai de lá de mãos vazias.
Outro momento interessante da câmera se dá na sequência cômica de Fogell na loja de bebidas tentando usar sua carteira de identidade pela primeira vez. Após levar um soco do assaltante que entra na loja, os dois – igualmente cômicos – policiais pedem para ver sua carteira e, nesse momento, há um rápido zoom em Fogell, corte para os olhos dos policiais, corte para os olhos de Fogell, aos moldes de um western a la Leone. Além disso, a trilha é constantemente incorporada de forma orgânica no filme. Já no início, ela é colocada nos créditos que assumem um tom de década de 1970, com sombras dos três protagonistas dançando e termina já em cena sendo desligada por Seth, dirigindo seu carro e falando com Evan ao celular.
O tom stand up comedy paira ao longo do filme, que contém inúmeras gags desenroladas de maneira extremamente fluida por todos os personagens. Essa aura-cool que os jovens buscam conquistar e aparentar a toda prova é constantemente quebrada por momentos em que eles se mostram românticos e até conservadores. Seth exala a tosquidão já mencionada, mas protagoniza ao menos três momentos em que essa máscara se dilui: um deles, quando discute com Evan ao descobrir que o amigo portava camisinha e lubrificante para levar à festa; no segundo, Seth sugere a Evan que ofereça para levar a bebida favorita para a “amada” Becca. Por último, o momento mais doce do rapaz, quando este descobre que Jules, a menina de quem ele gostava, não bebia e não queria ficar com ele quando bêbado e então chora.
Os conflitos de Fogell estão mais no território da masculinidade para os homens, de mostrar-se capaz de “ser macho” diante das situações e, ao final, conquistar a garota sexy que ele viu no corredor da escola – assumir, de vez, o papel de “McLovin”. Já Evan é o romântico assumido e imerso em diversos clichês; fala baixo, é politicamente correto e, apesar de também querer transar como os outros, tem convicção de que isso tem de ser feito da maneira certa.
Apesar de embalado por tantos momentos cômicos, Superbad desemboca em um lugar de intenso carinho e até uma possibilidade de olhar confuso para uma possível relação homossexual entre Evan e Seth. Algo que, claro, permeia a relação entre homens, ainda que másculos e viris. Através da tosquidão, dos nomes e apelidos grosseiros com que se tratam, a amizade entre homens possui uma sutileza e uma doçura pouco comum entre mulheres. Não há o confronto, a disputa, mas o sossego de poder ser como se quer, falar o que se quer, e manter-se unido. Após todas as confusões em que os amigos se envolvem, Evan fica bêbado e desmaia, ao passo que os dois policiais chegam para atrapalhar a festa. Seth, por desconhecer todas as aventuras dos policiais com Fogell, procura imediatamente por Evan e, num ato de intensa amizade, carrega o amigo rua abaixo para salvá-lo.
Seth dorme na casa de Evan – já acordado – e antes de dormirem, os dois vivem um momento de visível separação iminente, surpreendentemente finalizada com a declaração “eu te amo” dita e repetida pelos dois. Um fade out nos esconde a continuação daquele instante que, suspenso, vai se finalizar na estranheza com a qual os dois acordam e decidem ir ao shopping. Lá encontram as duas meninas e se separam: Evan vai com Becca e Seth com Jules. O filme finaliza com uma triste metáfora do que estaria por vir naquela transição que aguardava os dois amigos: Seth desce as escadas, enquanto que Evan as sobe; sutil mensagem desse futuro que levaria Evan a uma boa universidade e Seth a um lugar “menor”. Um mundo adulto que deixaria parte daquela noite anterior para trás e os forçaria a se depararem com as possibilidades de provação do amor declarado na noite anterior.
Meu Nome é Taylor, Drillbit Taylor; Ano Um e Segurando as Pontas
Drillbit Taylor em algumas medidas parece uma releitura de Superbad e Freeks and Geeks. Temos uma abertura em que um garoto de cerca de 13 anos conversa com seu amigo ao telefone. Os dois divagam sobre a entrada na High School e o necessário para tornarem-se parte do clã dos populares. Logo de cara o gordinho (metade Seth Rogen, metade Jonah Hill) solicita ao “bom moço” magrelo que este passe a chamá-lo de “T-Dog” na escola, pois isso certamente conferirá a ele o título de “descolado”, ao passo que o magrelo, com o telefone no ouvido, faz muques para o espelho na tentativa vã de descobrir-se mais encorpado.
Ao chegarem à escola, temos um plano frontal do prédio onde os dois estudam: McKinley High School, a mesma que abrigou os personagens de Freeks and Geeks. Para marcar ainda mais a tensão da “passagem”, todos os dias os dois garotos, ao entrarem na escola, dizem a frase: “today is the official start of our highschool careers” (hoje é o início oficial de nossa carreira de alunos do colegial). Toda a estrutura do filme traz a assinatura “Apatow”, porém, talvez pela repetição de ingredientes já utilizados e pela atuação mais fraca dos garotos, Drillbit é certamente um filme menor diante de Superbad e da série Freeks and Geeks.
Para dar o tom “diferenciado” à trama, há a inserção de um elemento novo, que dá nome ao filme. Drillbit Taylor, mendigo - interpretado por Owen Wilson – que quer se dar bem na vida, entra em cena como o cara que irá fazer papel de guarda-costas disfarçado dos garotos e tirá-los das enrascadas com os bad boys que querem zombar e bater nos três (esse terceiro garoto, um tanto quanto apagado, surge quase que como elemento essencial para manter a estrutura tríade de amigos dos outros filmes Apatow Company). Acontece que Drillbit evita ao máximo agredir os garotos que os afrontam por medo de ir para a cadeia (por achar que eles são menores de idade) e – com toda suspensão possível – consegue uma vaga como professor da escola sem que ninguém perceba sua fraude por um bom tempo e se relaciona com uma das professoras (Leslie Mann, esposa de Apatow).
Drillbit tem lá seus bons momentos, mas de fato não consegue absorver a aura que contribui para tornar os filmes dessa safra tão interessantes e instigantes. Fica como um “mais do mesmo” visto por poucas pessoas e praticamente não repercutido no meio crítico.
Segurando as Pontas, nada coincidentemente, possui como roteiristas a dupla Seth Rogen e Evan Goldberg, que também assinaram Superbad. A tríade de amigos retorna quase que evocando Evan, Seth e Fogell. O conflito de base da vez é o uso desenfreado de maconha, o desemprego e o meio do caminho entre a adolescência e a idade adulta. Não se é novo para determinadas justificativas, nem maduro para assumir as próprias finanças.
Certamente mais feliz em realização que Drillbit Taylor, é um filme sobre amizade, sobre o amor entre homens. Este amor, talvez menos inocente e esperançoso que o de Seth e Evan (em Superbad), traz de sopetão a imersão no entorpecimento, na alegria provocada pela erva ilegal, que permite a esses homens sairem do terreno da responsabilidade que os convoca à realidade a todo tempo. Aqui não temos mais um Fogell se arriscando como McLovin para trazer bebidas alcoólicas, mas Red, o fornecedor de drogas, que tem idade suficiente para comprar bebidas e agora investe em outro elemento ilegal que desencadeará os eventos desta comédia de erros + amor entre homens.
Pineapple Express é o nome de uma poderosa erva que, ao ser descoberta pelos traficantes “lá de cima”, transforma Dale (Seth Rogen) e Saul (James Franco, de Freeks and Geeks) em foragidos. No clima nonsense dos caras “chapados”, o filme entra num devaneio sem fim, permitindo ainda a entrada no terreno do filme de aventura como gênero satirizado na obra. Os amigos passam pelas mais absurdas situações até chegarmos à catarse: aqui, “Seth” é de fato Seth Rogen e não Jonah Hill (Seth em Superbad). Após enfrentarem os traficantes em uma outra casa (como em Superbad, o palco era a casa de Jules), o fogo invade o local e, desmaiado, Saul é carregado por Dale.
No dia seguinte, os três, reunidos (Dale, Saul e Red), passam pela clássica “larica” e vão tomar café da manhã juntos. A conclusão: a amizade, fortalecida pelos eventos surreais, é selada com novas declarações e o filme segue para os créditos finais. Seria esta uma possível sequência da qual teremos futuramente a amizade entre homens maduros? 
Em Ano Um, filme mais recente dos três, temos o retorno de Michael Cera (Evan, de Superbad) com um novo amigo (interpretado por Jack Black) e a trama se desenrolando com uma dupla, ao invés de um trio. A essência de filme high school com a tosquidão de Segurando as Pontas paira no filme com um novo diferencial: estamos na pré-história. Cera evoca a aura de Evan e novamente distribui excelentes gags com sua ótima atuação corporal, entonação e olhares. Ele é o bom moço que gosta de uma garota que nem sabe que ele existe, enquanto que Black é o gordinho desbocado que dá conselhos os mais diversos para que Oh (Michael Cera) consiga conquistar sua “Pedrita”.
A escolha pela transposição do universo com a manutenção da essência cômica e dos sentimentos, mostra-se uma ótima sacada. Ao invés das tensões da adolescência ou das dificuldades do mundo adulto, os dois enfrentam o desconhecimento existencial, o “de onde viemos”, “para onde vamos”, enquanto tentam resgatar as duas amadas, capturadas como escravas após um incêndio provocado por Zed (Black) e permeiam um universo em que as dúvidas existenciais geraram as religiões, ainda que tratadas aqui da forma mais estereotipada e cômica, um tanto quanto ao estilo Monty Python.
Superbad ainda parece ser o maior inspirador dessa nova safra de filmes sobre high school ou conflitos e aventuras promovidas por dois homens – tendo como foco a amizade entre eles. Ano Um, talvez por não ter a contribuição de nenhum dos “Apatow Guys” mencionados aqui e na Parte 1 deste texto, está mais centrado no estilo das obras anteriores de Ramis, como Feitiço do Tempo, Máfia no Divã ou o clássico Os Caça-Fantasmas. Prova disso são as influências que Harold Ramis disse tê-lo instigado a escrever o filme, como Mel Brooks e Bill Murray, que fazem parte de um outro tipo de comédia, realizada nas décadas de 1970 e 1980 nos Estados Unidos.
Quase Irmãos , Ricky Bobby, a toda velocidade; A Vida é Dura e Ressaca de Amor
Neste grupo de filmes, temos produções em que a parceria dos atores (protagonistas) e de Apatow no roteiro é um fato que contribui para pensarmos estas criações.
O hilário John C. Reilly está presente em Quase Irmãos, Ricky Bobby e A Vida é Dura. Os dois primeiros têm como centro a amizade-conflito-parentesco forçado entre Reilly e Will Farrell. Em Quase Irmãos os dois são filhos de pais divorciados e um mora com a mãe, enquanto o outro mora com o pai. A mãe de Will Farrell se envolve com o pai de John C. Reilly e é daí que o filme se desenrola.
Os dois têm mais de 40 anos e ainda moram com os pais. São como o “virgem” de Apatow, com a mentalidade pueril, mas com o complicador de serem desempregados e totalmente dependentes dos pais. Daí temos uma quantidade de gags deveras interessantes e um olhar direcionado para esse outro lado da convivência entre dois homens, que além da amizade que acaba por se dar entre eles, há essa essência do fracasso de ambos para com a vida adulta. Aqui a maturidade clama por eles, enquanto ambos teimam em não ouvir.
Já em Ricky Bobby, os dois atores são pilotos da Nascar e, como – novamente – em Superbad, um deles ocupa o primeiro lugar, enquanto o outro assume submissamente o segundo para ver o amigo se destacar. Ricky Bobby (Will Ferrel) é o piloto “fodão” que ganha todas as corridas, é casado com a loira peituda e acostumado a destacar-se sempre. Reilly é Cal Naughton Jr., o segundo colocado que sempre confunde os adversários e os atrapalha para deixar Bobby passar. O conflito de base, portanto, se dá quando um francês metido a besta surge nas pistas e causa um acidente que deixa Bobby com pavor das pistas.
Assim como os outros filmes – mas sem a fluência que os melhores deles têm no ritmo e na narrativa – Ricky Bobby mergulha nas gags e na crítica ao vazio que perpassa a vida de esportistas que vivem da vitória, do sucesso e das belas mulheres, e mergulha nos diversos clichês possíveis de serem extraídos dessas relações, para alcançar novamente esse lugar da amizade entre dois homens. Desta vez, abalada pela ganância de um e pela vingança do outro que lhe toma a esposa, a amizade entra em conflito e é retomada quando um dos amigos está em perigo e o outro, ao invés de carregá-lo, novamente possibilita sua vitória e a recuperação de sua moral.
A Vida é Dura vai em outra toada. A da crítica deflagrada aos astros da música e todas as obviedades de suas vidas de traições, drogas, turnês e fama. John C. Reilly é Dewey Cox, rapaz de uma cidade pequena que um dia descobre gostar de folk e saber tocar com brilhantismo a guitarra deste gênero musical. Exagerado, o filme se inicia numa espécie de pressa do riso e faz uma mistura enjoativa de piadas seguidas de mais piadas dosadas com situações absurdas de clara dispensa à verossimilhança.
O filme parece tomar certa confiança de si ao longo de sua sequência e lá pelos trinta minutos começa a entrar num ritmo extremamente divertido e bem pautado pelas gags e mise-en-scène. Dewey Cox trafega por todos os estilos musicais como uma espécie de Forrest Gump da música e faz sucesso em todas as épocas e tendências. Não se pode deixar de citar as gags que amarram as transições temporais do personagem, protagonizadas por seu empresário, que sempre é o primeiro a experimentar a “droga da vez” e tenta dissuadir Cox de tomá-la, ao passo que o músico sempre cede e enfrenta nova fase de dependência, internação e quase fim de seu casamento. Outro ponto alto do filme se dá na fase LSD do personagem, na década de 1970, quando ele decide ir para a Índia e lá encontra os Beatles, por sua vez interpretados por personagens que em quase nada se parecem com os artistas originais e protagonizam uma das melhores cenas do filme.
Para fechar este grupo de filmes, temos o longa Ressaca de Amor, com roteiro assinado por Jason Segel. Aqui, a amizade entre dois homens não é o foco central, mas o processo de desligamento de Peter e sua namorada Sarah Marshall (que dá nome ao título original: Forgetting Sarah Marshall). Todo esse processo tem o cenário de fundo do Havaí, um músico patético (atual namorado de Sarah) e a recepcionista do hotel, ou melhor dizendo, o futuro novo amor de Peter.
O filme se distancia um pouco de todos os outros mencionados aqui, mas mantém em seu roteiro e na sequência de suas gags a força na fala que é característica dos filmes produzidos por Apatow. Se assemelha às comédias românticas contemporâneas, sem muito “brilho”, mas com a interessante aura contida nessa iminência do fim ou transição já tão faladas aqui. Tem sua melancolia, seu escracho, os constrangimentos e a pieguice do amor do “bom moço” em busca da moça certa.
As Loucuras de Dick & Jane; Zohan – O Agente Bom de Corte
Estes dois filmes estão colocados juntos aqui, mas são totalmente díspares em suas essências. O motivo dessa escolha talvez se deva ao fato deles não se ajustarem a nenhuma das outras configurações e estarem no fechamento deste texto, e apenas isso.
As Loucuras de Dick & Jane é um dos primeiros longas roteirizados por Apatow e tem um grande mérito: tratar com escárnio das incongruências econômicas dos Estados Unidos, que vez ou outra tomam a frente nos noticiários e são responsáveis por alarmantes demissões e altas de desemprego no país. Apatow vem tratar aqui de uma intensa e complexa questão política tendo Jim Carrey como centro de sua narrativa. Além disso, esta é uma refilmagem de 1977, do longa Adivinhe quem vem para roubar. O susto do desemprego não esperado e o despreparo econômico dessas famílias americanas são o mote maior de ambos os filmes, nos quais depois da desistência de se batalhar pelo caminho legal, os chefes dessas famílias optam pelos assaltos para conseguirem retomar a estrutura de suas vidas.
O ponto alto aqui é a ganância do personagem interpretado por Carrey, que se nega terminantemente a aceitar outro cargo que não o da vice-presidência de uma empresa, mas se esquece que apesar de toda a pompa que acompanhava sua rotina, seu mundo desabou em poucos segundos, justamente por não ocupar o cargo maior e estar à mercê da corrupção dos donos da empresa em que ele investia todos seus bens.
O filme trafega pelos tempos áureos de Frank Capra e caminha para uma atualidade que parece se repetir desenfreadamente nos EUA: evoca de certa forma as tensões de 1929, o caos de diversas empresas americanas quando da chegada da internet e a mais que recente recessão que ainda assombra norte-americanos e países vizinhos, nos mostrando que por mais que se acredite nos tempos vindouros, a crise pode fatalmente bater à porta.

Para finalizar, Zohan, roteiro de parceria de Apatow com seu amigo de longa data, Adam Sandler, é um filme que destoa totalmente de todos os tratados aqui. É uma comédia escrachada, viciada em gags, sobre um agente de Israel que finge estar morto para ir a Nova Iorque realizar o sonho de ser cabeleireiro. Seu passado o assombra a todo tempo, seja pela mistura cultural da cidade, que possui um bairro que abarca pacificamente israelenses e palestinos, seja pela sua dificuldade de livrar-se de suas estratégias extremistas de resolver suas questões. Para quem gosta do excesso, este filme pode interessar, mas de fato sua discrepância com a obra de Apatow e cia é o que mais grita aqui.
Enfim, termina aqui a tentativa de transitar pelas criações de Apatow e dos criadores que o acompanham ao longo dos anos. Depois de seu último filme, Tá Rindo de Quê?, a expectativa do que há por vir é por demais positiva. O escracho, o desleixo com as convenções e a despretensão das lições de vida, tornam essas obras algo que deve ser visto com cuidado e abertura. A comédia americana contemporânea, vista por alguns como algo distante de sua época áurea que não volta mais, pode certamente oferecer elementos criativos, cômicos e poéticos que tornam necessário um olhar mais atento e generoso.
Curiosidades:
· As Loucuras de Dick & Jane, Apatow redigiu o roteiro e argumento em parceria com Nicholas Stoller (Ressaca de Amor);
· Zohan foi escrito por Apatow em parceria com Adam Sandler;
· Superbad foi escrito pelo ator Seth Rogen e por Evan Goldberg. Ambos fizeram parceria com Apatow no roteiro de Segurando as Pontas;
· O roteiro de Ricky Bobby foi uma parceria de Adam McKay com o ator Will Ferrell, que também assinou com McKay o roteiro de Quase Irmãos (este, em parceria com John C. Reilly);
· O roteiro de Drillbit Taylor teve a participação de Seth Rogen;
· O roteiro de Ressaca de Amor foi assinado por Jason Segel;
· O diretor de Ano Um, Harold Ramis, atuou em Ligeiramente Grávidos e A Vida é Dura.
Filmes Citados:
As Loucuras de Dick & Jane (Fun With Dick and Jane, 2005/Dean Parisot) *
Ricky Bobby, a toda velocidade (Talladega Nights: The Ballad of Ricky Bobby, 2006/Adam McKay) **
Superbad – é hoje (Superbad, 2007/Greg Mottola) **
A Vida é Dura (Walk Hard: the Dewey Cox history, 2007/Jake Kasdan) ***
Segurando as Pontas (Pineapple Express, 2008/David Gordon Green) ***
Zohan – O Agente Bom de Corte (You Don’t Mess With the Zohan, 2008/Dennis Dugan) *
Quase Irmãos (Step Brothers, 2008/Adam McKay) **
Meu Nome é Taylor, Drillbit Taylor ((Drillbit Taylor, 2008/Steven Brill) **
Ressaca de Amor (Forgetting Sarah Marshall, 2008/Nicholas Stoller) **
Ano Um (Year One, 2009/Harold Ramis) **
Participação de Apatow no filme:
* Roteirista
** Produtor
*** Produtor e Roteirista







