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por Ursula Rösele
A Nova Geração da Comédia Americana: Judd Apatow e cia (Parte 1)
A ideia inicial era escrever um texto sobre a série americana Freaks and Geeks - que, apesar de seus 18 episódios prontos, só conseguiu colocar no ar 12 deles (por decisão da emissora) – mas, ao tentar refletir sobre sua lógica e irrefutável ligação (poderíamos até usar a palavra “homenagem”) com a já antiga (dada a profusão de séries que surgem na TV americana diariamente) Anos Incríveis, foi inevitável chegar em Judd Apatow: produtor da série e de vários filmes, escritor e diretor de três longas até o momento.
Obviamente a comédia americana contemporânea possui um leque quase infindável de nomes, estilos e repercussão na mídia ou na crítica. Impossível não citar o “grupo” formado por Ben Stiller, Vince Vaughn, Will Ferrell e os irmãos Owen e Luke Wilson; ou os irmãos Farrelly. Esta lógica da comédia feita por grupos de amigos não é novidade, mas fato é que Apatow, já como produtor, vinha ensaiando uma espécie de assinatura, de uma certa “autoralidade contemporânea” – chamemos assim para evitar um texto somente sobre isso – na qual os filmes que produzia carregavam alta carga da aura que viriam a ter os filmes em que ele assinou a direção de fato.
Os nomes do “grupo” que compõe o processo criativo de Apatow são diversos: Seth Rogen, Adam Sandler, Leslie Mann, Paul Rudd, Steve Carell, Martin Starr, Evan Goldberg, James Franco, Jonah Hill, Jason Segel, dentre outros. A impressão que se tem é que Apatow criou um universo próprio, do qual participam com ele diversos outros personagens, roteiristas, fontes de inspiração, e isso acaba por aludir a uma ideia de criação em grupo mesmo. Os nomes se repetem na maioria dos longas, sua esposa (Leslie Mann) e filhas atuaram nos três filmes que Apatow dirigiu e, em entrevistas, fica claro o caráter autobiográfico e colaborativo dos filmes. Só para ilustrar, o ator Steve Carell participou do roteiro de O Virgem de 40 Anos, Seth Rogen escreveu o roteiro de Superbad baseado em momentos de sua adolescência, e o último filme de Apatow, Tá Rindo de Quê? (considerações sobre a infelicidade da tradução mais abaixo), contém cenas de arquivo reais e brincadeiras que o diretor diz terem sido de fato protagonizadas por Adam Sandler quando os dois dividiram apartamento na juventude.
O termo “aura” parece, por vezes, um tanto vago, mas talvez se possa tentar destrinchá-lo ao pensar nessa sequência de abordagens tratadas tanto em alguns dos filmes produzidos por Apatow, quanto nos que ele dirigiu. Se fosse necessária uma única palavra, “amizade” seria a mais lógica. E ao surgir, ela traz diversas outras questões que a fortalecem/convocam. Os filmes ‘de’ e produzidos por Apatow se referem, de certa maneira, às instituições, à ostensividade de certas convenções sociais. Ostensivo justamente pela característica maior deles: são outsiders, de uma ou outra maneira. Ou não se ajustam ao próprio corpo, ou ao sexo, ou à popularidade dos mais velhos, ou ao mercado de trabalho, ou a questões mais complexas como o amadurecer, o amor e a morte. Se não há a solidão presente, é pela existência de um ou mais amigos que garantem o estar no mundo e se há, certamente ao longo do filme este vazio será preenchido, como é o caso de Tá Rindo de Quê?.
O tempo para este grupo de filmes/série – e me refiro mais especificamente a Freaks and Geeks, Superbad, O Virgem de 40 Anos, Ligeiramente Grávidos, Férias Frustradas de Verão (Adventureland), Segurando as Pontas (Pineapple Express) e Tá Rindo de Quê (Funny People)? – é o agora (da diegese), o hoje, a não programação, a alegria impulsiva gerada seja pela maconha, pelo sexo, pela amizade ou amor. Em Freaks and Geeks este “tempo” tem ainda um outro significado, ao pensarmos se referir a um período bem diferente daquela que parece ser sua maior inspiração (Anos Incríveis): os anos 1980, que comportava uma geração “perdida”, sem muito referencial político, artístico, etc. O fato dos personagens de Anos Incríveis estarem ambientados nos anos 1960-70, possibilita diversas abordagens do mundo “exterior” àquele universo da escola e bairro de Kevin, Winnie e Paul. Fator relevante para a série de 1988 e também interessante se olharmos para Freaks (1999) e um certo “vazio” que paira o tempo todo, uma vez que basicamente não há menção ao mundo fora dali, os meios de comunicação (principalmente TV e rádio) não são usados em nenhum momento como link para algum conflito dos protagonistas como ocorria em Anos, por exemplo, como a chegada do homem à lua, a Guerra do Vietnã ou Woodstock.
E o curioso nesses filmes é que mesmo com a união de tantos elementos subversivos, além de palavrões e atitudes totalmente desprovidas do bom senso, é que Apatow (e para fazer jus: Feig, Mottola e Gordon Green) consegue reuni-los e construir momentos de imensa doçura, graça, singeleza. E é justamente em Freeks and Geeks que podemos ver as raízes dessas questões no florecer dessa intitulada aqui “nova geração da comédia americana”.
Freaks and Geeks
A série foi criada por Paul Feig e foi ao ar na emissora NBC e no Brasil pelo canal Multishow em 1999. A presença de Apatow se dá de todas as formas: produziu toda a série, dirigiu três episódios e escreveu o roteiro de cinco. Feig já era amigo de Apatow e ali já surgiriam nomes presentes nos filmes citados acima, como Martin Starr (membro da turma dos “geeks”), Seth Rogen, James Franco e Jason Segel (“freeks”). Como sugere o título, o enredo é dividido (mas pertencente ao mesmo núcleo – a família Weir) por alguns jovens subversivos (“freaks” – algo como louco, fora dos padrões): Lindsay Weir (Linda Cardellini), Daniel Desario (James Franco), Nick Andopolis (Jason Segel), Kim Kelly (Busy Philipps) e Ken Miller (Seth Rogen); e pelos loosers (“geeks” – em português, algo como “bobões”): Sam Weir (John Francis Daley), Neal Schweiber (Samm Levine) e Bill Haverchuck (Martin Starr). Além deles, alguns outros personagens igualmente hilários, como os pais dos Weir (clara referência a Anos Incríveis), Millie (a certinha), Sr. Kowchevski (professor de educação física), Gordon Crisp (o gordinho nerd), Jeff Rosso (o genial conselheiro da escola), etc.
Prender-se somente às ligações da série com Anos Incríveis seria perder a oportunidade de ver o que ela tem de único, portanto, basta dizer que existe uma diferença marcante entre elas: Anos Incríveis contém uma profundidade existencial que em Freaks and Geeks aparece de maneira bem mais sutil e amansada pelo tom satírico. Há o garoto sensível em ambas (Kevin e Sam, respectivamente), o nerd (Paul Pfeiffer e Bill Haverchuck) e alguns acréscimos, como o garoto precoce Schweiber: que, aliás, também traz diversos elementos de Paul Pfeiffer, como a descendência judia, um comportamento mais maduro que Sam, etc. Algo como se Apatow tivesse “desmembrado” Pfeiffer em dois personagens para fechar o núcleo de amigos de Sam Weir. Há também a questão das duas gerações representadas de uma só vez (basicamente os que transam, fumam e bebem e aqueles que anseiam por fazê-lo) e a figura da garota ideal e doce (Winnie Cooper nessas aproximações, que, apesar de “boa moça”, invariavelmente se encanta por jovens mais velhos e/ou rebeldes) representada pela jovem Lindsay Weir. A trilha de Anos é magistral e um ponto forte na obra de Apatow e nas que ele produz (com músicas de Paul McCartney, Loudon Wainwright III, James Taylor, dentre outros), e em Anos o período é a década de 1970 enquanto em Freaks, 1980.
Resumindo, o tema de Freaks and Geeks é o processo de crescimento, as proibições da adolescência, a descoberta dos prazeres e principalmente o bom e velho conflito do colegial americano. Tudo isso sustentado pela “amizade” e como se dão as relações nesse universo ostensivo do colégio. No núcleo “freaks”, Lindsay é a ex-matematleta (nome dado à participante do campeonato de matemática entre escolas) que tira as melhores notas e decide andar com a turma totalmente oposta aos valores de sua família e seus propósitos. Suas investidas sempre dão errado de alguma maneira devido à ingenuidade com que se entrega às propostas dos amigos, que não estudam, matam aulas, fumam, bebem e transam. Na outra turma, Sam encabeça o trio, interpretando o garoto bonzinho apaixonado pela cheerleader e amigo de Schweiber e Haverchuck, ambos os três ansiosos pelo amor, sexo e em alguns momentos, pela oportunidade de beber.
Apesar da simplicidade da sinopse, Freaks and Geeks já traz um componente essencial às obras citadas, que é a palavra e a naturalidade com que é tratada. Apatow foi stand up comedy quando mais novo, o que conferiu a ele uma facilidade notória em conduzir diálogos com gags que geram o movimento maior das cenas (o que, de certa forma, enfraquece as possibilidades de movimento da câmera). Por tratar de pessoas ordinárias, Freaks tem essa levada usual, com questões do dia a dia daquelas pessoas e a abertura para a sátira ou questões mais profundas sempre surgindo de situações rotineiras – como acontece também em todas as outras obras mencionadas. Sobre Apatow, Gilberto Silva Jr. (Contracampo) disse em sua crítica de Ligeiramente Grávidos: “Mas não é a beleza das aparências que interessa a Apatow. Ele se consagra aqui como um retratista da beleza das imperfeições cotidianas”.
O primeiro plano da série é’filmado em plano sequência começando com uma panorâmica da aula de educação física para um casal “popular” conversando bobagens na arquibancada, para, enfim, chegarmos em Daniel Desario (e uma nada sutil mudança da trilha para um rock pesado) contando aos amigos que foi proibido de ficar na missa com a mãe por causa da camiseta que usava. De cara, uma ironia às convenções, nas palavras dele: “Por que não posso usar? Lá é uma igreja. Deve-se perdoar as pessoas naquele lugar”. Depois do primeiro corte, a câmera sai (em um zoom out rápido) do grupo quando o viciado em bateria Andopolis fala que acredita em Deus nas mãos do baterista John Bonham (Led Zeppelin) e vai de encontro a uma garota que viremos saber ser Lindsay Weir. Dela, vai a uma parede de onde saem os três “geeks”, já afrontados por Alan, o clássico rapaz que vive de atormentá-los a todo tempo. Lindsay o defende e Alan vai embora com seu chavão “você está morto!” e a garota entoa a essência desta fase: “I Hate High School” (“eu odeio o colegial”). Pronto, estão apresentados os personagens e já fomos inseridos em seu universo.
Em Freaks and Geeks – ainda considerando que seu criador não é Apatow – esta inconstância do estar no mundo trafega por todos os episódios. As humilhações pelo não pertencer ao convencional, pela gordura, pelas preferências, conduz as atitudes dos adolescentes e jovens que, clicheirescamente – e há de se dizer, clichês conduzidos de forma adorável – só desejam se encontrar no mundo, que, de tão recente pela pouca idade, parece resumir-se à escola.
O Virgem de 40 Anos
É importante dizer que a essência dos filmes que Apatow viria a fazer está na extrema cumplicidade com que trata seus personagens. Não há, em momento algum, a sugestão de nenhuma crítica ou julgamento de valor a eles. Há, obviamente, uma postura satírica que rejeita determinadas atitudes, como os populares que maltratam os loosers, as mulheres “gostosas” que não querem homens gordos, e por aí vai.
Em 2005, quatro anos depois da interrupção de Freaks and Geeks, Apatow havia participado de algumas séries televisivas (como produtor, diretor e até ator) e enveredou para seu primeiro longa-metragem: O Virgem de 40 Anos. O curioso é que aqui parecia surgir um tom mais sofisticado desse personagem outsider, que guarda também certa melancolia, talvez pela constatação das impossibilidades que a vida nos apresenta. E talvez justamente por esta constatação, o riso parece ser a válvula de escape, mas não somente o riso solto, sem lugar; um rir de si mesmo, que passa a acompanhar todos os personagens de Apatow.
Andy (Steve Carell) é o “virgem”, literalmente, e tem 40 anos. Trabalha numa loja de eletrônicos, tem uma timidez absurda e vive uma rotina sistemática em sua casa repleta de bonecos de séries televisivas americanas, de ir ao trabalho de bicicleta e ficar em casa nos finais de semana. Vamos saber das razões de sua virgindade através de flashbacks que mostram seu fracasso em todas as tentativas de estar com uma mulher. Andy tem uma postura de quem já se acomodou com a questão e vive milimetricamente as mesmas coisas dia após dia, até ser convidado pelos colegas de trabalho para jogar pôker e, ao tentar contar de suas peripécias sexuais, compara os seios das mulheres a um saco de areia, o que deixa sua virgindade clara a todos.
Os trabalhos de Apatow são repletos de referências e citações explícitas. Aqui, talvez a maior forte delas seja o filme Madrugada dos Mortos (Zach Snyder, refilmagem da obra de Ge0rge Romero). Em determinado momento, um dos funcionários da loja assiste atento ao filme, que passa em todas as televisões do lugar. A referência nada sutil vem para casar metaforicamente com o universo do filme (uma loja) e a clausura do personagem pela inexperiência com o sexo (mulheres, para ele, poderiam facilmente ser comparadas aos zumbis de Snyder/Romero).
O tempo aqui já começa a correr. Um homem de 40 anos evidentemente não pode ser virgem, e é justamente o deslocamento do personagem que acaba por gerar as inúmeras situações e gags do filme. Andy mantém uma postura sóbria, uma firmeza que denota o incômodo constante do personagem e sua distância da realidade que o cerca. E, ironicamente, vai encontrar sua parceira na loja da frente, uma outsider (porém, bem resolvida sexualmente) como ele, também presa pelas vidraças das lojas e por um trabalho sem futuro, mecânico.
Assim como Freaks and Geeks, todos os eventos do filme girarão em torno da rotina de Andy e o filme virá para rompê-la, ao trazer as situações que o levarão ao resultado óbvio, porém, que denota a simplicidade daquele universo e a intenção maior dos personagens de Apatow: sentir-se dentro, ainda que não pertencente do todo.
Ligeiramente Grávidos
Ligeiramente Grávidos, seu próximo filme, é, antes de tudo, afeto. O afeto contorna o peso da obrigação de crescer, de amadurecer, dos personagens. Aqui, Ben Stone (Seth Rogen) volta como “freak” e traz consigo outro grupo de jovens que não querem crescer. Já no primeiro plano do filme, cenas diversas dos jovens em inúmeras situações - basicamente envolvendo o consumo de drogas e a pornografia – apresenta seu primeiro núcleo. Não muito distante dali, a jovem Alison (Katherine Heigl) vive sua rotina numa emissora pop de TV (E! Entertainement Television) e mora nos fundos da casa da irmã (esposa de Apatow, que no filme atua pela primeira vez com as duas filhas e com o ator Paul Rudd). Após ser promovida no trabalho, Alison chama a irmã para comemorar e as duas vão para uma boate da moda, à qual o grupo de amigos de Ben também está. Os dois se conhecem, enchem a cara, transam e no dia seguinte, constrangidos (ela, ao menos), se separam.
Mais uma vez através de uma história simples, Apatow nos convoca ao universo de seus “ordinários” personagens. Alison engravida e é obrigada a procurar Ben – que, pelas convenções, jamais a veria novamente, uma vez que é gordo, looser e ela uma moça loira, bonita e ambiciosa. Deste ponto o filme segue rumo às dificuldades de se compreender as diferenças devido à ligação obrigatória representada pelo bebê que chegaria. Através de uma montagem ritmada, roteiro consistente, boa direção de atores e consciente dos riscos de se perder a força do filme, Apatow consegue costurar as situações com tamanha leveza que o fator “tempo” (literal, do filme) não o prejudica, uma vez que seus três filmes têm aproximadamente 120 minutos.
Ao unir Alison e Ben, o filme se divide novamente em outros dois núcleos, agora compostos pelo casal principal e por sua irmã com o marido. Da iminência da chegada de uma nova vida e dos anseios pelo desconhecimento que isso provoca nos pais despreparados, o casal já consolidado começa a ter problemas. Debbie (Leslie Mann) desconfia da infidelidade do marido, enquanto que Pete (Paul Rudd) tenta se desvencilhar do tédio de seu casamento.
De certa forma, esta escolha denota a impossibilidade de se prever o futuro. Ligeiramente Grávidos é um filme de extrema doçura, mas seu “pé no chão” permanece a todo tempo à espreita, representado pelo casal em crise. Apesar disso, os dois seguem seu destino no dia a dia e a riqueza do filme está, mais uma vez, nas situações – cômicas ou doces – que surgem desse encontro. Essa precocidade do amor dos dois - que se esperaria de um casal prestes a ter um bebê (como pronuncia a irmã de Alison à mesa de café da manhã para as duas filhas ao dizer para elas que um casal “grávido” se ama inevitavelmente) - vem de forma sutil, através de situações do cotidiano colocadas por Apatow com extrema naturalidade. É o caso da cena em que, com a gravidez já avançada, Ben e Alison transam e o rapaz não consegue seguir em frente por medo de “cutucar” o bebê. Ou da despretensão em mostrar somente o lado belo do parto, quando um dos amigos de Ben, ao ouvir os gritos de Alison do corredor, decide ver como eles estão e dá de cara com uma cena nada romântica da cabeça do bebê começando a sair da garota.
As coisas dão certo ao final do filme, mas isso não significa em absoluto que não se saiba das incongruências da vida. Enquanto elas não surgem para amedrontar, o que se pode fazer é viver o agora. É através dessa leveza que Apatow vai construindo mais uma parte de seu universo, que, ao menos até o momento, parece de extrema consistência criativa.
Tá Rindo de Quê?
Seu mais recente filme, Tá Rindo de Quê?, retoma as questões do tempo, mas desta vez numa abordagem de um tempo que se esvanece, que é finito, que pode, por isso mesmo, acabar a qualquer momento. O filme parece não ter ido muito bem de bilheteria nos EUA (o que não é de se surpreender, uma vez que traz um Apatow ainda mais maduro e lidando com a morte com personagens reconhecidos somente pelo humor, além de ter a duração impressionante de 146 minutos), o que o fez chegar ao Brasil direto em DVD. Agora é o momento de retomar a questão de sua infeliz tradução, que – apesar de tentar conservar – deturpa a força de seu título original: Funny People (“Gente Engraçada”).
O filme é sobre aqueles que fazem rir, mas, curiosamente, sobre essas pessoas experimentarem uma seriedade que os afasta desse humor cotidiano. Novamente dividido em núcleos, em Funny People, George Simmons (Adam Sandler) é um famoso ator e stand up comedy que descobre ter uma doença seríssima e pouco tempo de vida. Rico, cortejado e visto apenas como um “funny people”, ele se depara com a inevitável solidão ao descobrir da iminência de sua morte. Dividindo o mesmo palco que ele por acidente, está Ira Wright (Seth Rogen), um também stand up comedy que mora na casa de dois amigos: um deles, Mark Taylor Jackson (Jason Schwartzman), ator que conseguiu sucesso através de uma série de comédia considerada péssima por aqueles que a veem – principalmente Ira; o outro, Leo Koenig (Jonah Hill), que está mais ou menos no mesmo patamar que Ira, porém, mais bem sucedido no stand up.
Nesse tempo esvanecente, George vê as apresentações de Ira e Leo e os convida através de Ira para escreverem para ele. Ira não conta ao amigo (que estava se saindo melhor que ele na comédia) e assim se inicia o filme, que retoma aqui com muita intensidade, a força da amizade. Amizade entre dois homens, importante frisar, uma vez que – ao menos até o momento – é nesse ponto que Apatow se focaliza. No que há de tosco, infantil e ao mesmo tempo extremamente belo e fiel entre dois amigos.
Depois de sair de algumas produções e filmes que se baseavam nas experiências do seu “grupo colaborador”, Apatow parece ter feito não somente seu filme mais maduro, como o mais biográfico. Sandler foi seu colega de quarto na adolescência e o filme parece ser sobre a amizade dos dois, além de qualquer coisa. A fidelidade desta relação está já no primeiro plano, imagens de arquivo filmadas com câmera caseira de Sandler passando trote por telefone. Ouve-se ao fundo a voz de Apatow colaborando nas brincadeiras. Através de entrevistas, os dois contaram inclusive que duas ocasiões do filme são baseadas em situações dos dois: Sandler pedir para o amigo sentar-se numa cadeira ao seu lado na cama para fazer-lhe companhia e a situação hilária em que o personagem de Sandler no filme pede para ver o pênis de Rogen. O rapaz se nega e pergunta o motivo, ao passo que Simmons responde: “para que eu saiba com o quê estou lidando”.
Neste filme, Apatow nos aproxima literalmente de seu protagonista, ao usar uma câmera muito próxima de seu rosto. Vemos, em planos abertos, sua consagração no mundo da comédia. Os planos de sua ostensiva mansão com ele no centro, solitário, suas apresentações no palco e suas investidas com mulheres. Uma vez que saímos do universo de aparências, a câmera vai para próximo dele e naqueles instantes Apatow parece nos convocar unicamente à angústia daquele universo. Temos agora não somente um personagem que sabe fazer rir, mas um personagem que de fato se deparou com a proximidade de seu fim e não tem outra saída que não o humor.
Além dessas questões, Funny People, até por se tratar do universo de stand ups, possui um sem-número de gags, seja no palco, seja na rotina de seus personagens. Sandler, talvez justamente por se tratar de um ator com fortíssima verve cômica, fortalece suas atuações mais melancólicas pela constante sensação de que tratará tudo de forma satírica. Um dos momentos auges se dá no hospital, quando Ben acompanha Simmons para uma consulta com um médico de uns dois metros, loiro e claramente europeu. Ele diz da pouquíssima chance de cura de Simmons com o tratamento experimental a que seria exposto e ele, na presença do amigo, zomba do médico, com tiradas como “você se sente mal por ter morrido ao final de Duro de Matar?”.
Além dos personagens centrais, Funny People conta com a presença – novamente – de Leslie Mann e suas filhas e Eric Bana (Hulk, Munique). O ator faz pela primeira vez um personagem australiano (sua nacionalidade verdadeira) e isso, claro, vira piada no filme devido a seu sotaque. A atual perda de peso do ator Seth Rogen também é abordada por Jonah Hill (Seth de Superbad), que diz ao rapaz que não tem como ele fazer sucesso após perder 8 quilos, pois gente magra não é engraçada.
O filme segue nessa toada equilibrada entre o humor e a melancolia, a vida e a morte, para mais uma vez trazer a constatação inevitável: uma vez em que passamos a pertencer, de certa maneira, a vida faz algum sentido. E este pertencer não carece de muito mais que alguém ao lado para poder rir de si mesmo e do mundo. Por mais piegas possa parecer, este é o cinema de Judd Apatow.
p.s: A segunda parte deste texto abordará os filmes produzidos por Apatow e citados aqui, como Superbad, Férias Frustradas de Verão e Segurando as Pontas.
Filmes Citados:
Anos Incríveis (The Wonder Years, 1988/Carol Black e Neal Marlens)
Freaks and Geeks (Idem, 1999/Paul Feig)
Madrugada dos Mortos (Dawn of the Dead, 2004/Zack Snyder)
O Virgem de 40 Anos (The 40 Year Old Virgin, 2005/Judd Apatow)
Ligeiramente Grávidos (Knocked Up, 2007/Judd Apatow)
Superbad – É Hoje (Superbad, 2007/Greg Mottola)
Segurando as Pontas (Pineapple Express, 2008/David Gordon Green)
Férias Frustradas de Verão (Adventureland, 2009/Greg Mottola)
Tá Rindo de Quê? (Funny People, 2009/Judd Apatow)







