por Ursula Rösele

A Nouvelle Vague desenfreada da memória musical

mamonas


O termo nouvelle vague vem aqui pelo sarcasmo absoluto diante da profusão de documentários (e algumas ficções) envolvendo bandas e artistas que são ou já foram de renome no cinema brasileiro atual. Nouvelle Vague mais pela tradução literal “nova onda” que por qualquer mérito estético ou criativo desses filmes. Exceções, claro, mas mesmo com elas não se poderia dizer ser este um momento artística-cinematograficamente relevante de nossa cinematografia. Para não irmos muito longe, podemos citar: Titãs – a vida até parece uma festa, Lóki – Arnaldo Baptista, Vinícius, Fabricando Tom Zé, Maria Bethânia – Pedrinha de Aruanda, Herbert de Perto, Mamonas para sempre, Noel – o Poeta da Vila, Cartola e os dois filmes a serem lançados na 33ª Mostra de São Paulo, Tom Zé Astronauta Libertado e Continuação (centrado no cantor Lenine).

A grande maioria deles – e não pretendo lidar com generalizações – vai numa toada pouco inventiva, com explorações de fofocas, tragédias, momentos de quase dissolução das bandas e por aí vai; que serviriam de forma bem menos constrangedora em extras de dvds de shows dessas mesmas bandas/cantores. De toda maneira, a ideia é me ater a alguns olhares que têm sido dispensados a esses filmes e já de cara, deixo os links para alguns pensamentos da própria Filmes Polvo para alguns deles: (Maria Bethânia, Loki – Arnaldo Batista, Titãs, Fabricando Tom Zé, Noel, o Poeta da Vila, Mamonas o Doc).

Vinícius, como se sabe, parte de uma ideia de um pocket-show no qual os atores Ricardo Blat e Camila Morgado se reuniram com diversos intérpretes em um palco no qual Morgado e Blat “interpretavam” os poemas de Vinícius de Moraes, enquanto o filme se dividia em depoimentos e canções de cantores brasileiros diversos. O filme foi um sucesso de bilheteria, vendeu cds à beça, mas enquanto cinema deixou um bocado a desejar. Vou tentar resistir à vontade de culpar a escalação de Camila Morgado, mas sigamos nas problematizações. Vinícius é uma espécie de filme-homenagem que certamente ameniza toda e qualquer questão mais underground do nosso “poetinha” deixando espaço para confabulações somente ao percebermos a ausência absoluta de suas nove esposas nos depoimentos do longa. Como arquivo, show, é sensacional, mas na questão da mise-èn-scene é quase desesperador ver a tentativa (principalmente de Morgado) de tentar encontrar alguma luz teatral para poemas que dizem por si sós e certamente não necessitam de caras e bocas.

Neste ponto, Loki-Arnaldo Baptista se vale, claro, de ovações e momentos de êxtase com o período que os Mutantes estiveram no topo, mas também não abdica de um determinado olhar não somente para as consequências das imprudências de Arnaldo Baptista e sua separação com Rita Lee, como possui interessantíssimos e angustiantes momentos nos quais essa tentação pela alegria abundante contida na maioria desses filmes é abandonada, e o filme é preenchido por silêncios e problematizações complexas daqueles que conviveram com o cantor e são cientes do lado “b” dessas personalidades.

Em Maria Bethânia, talvez possamos nos valer de alguma amenização para o lado de Andrucha Waddington, que – a convite da própria cantora – realizou seu documentário como comemoração aos 60 anos de Bethânia e seu show da época, “Por Dentro do Rio do Mar”. Mas, citando o texto de Rafael Ciccarini, “do lado de Maria Bethânia, produtora, a certeza de que compartilhar sua intimidade, sua epifania religiosa, a cantoria na varanda da casa da sua mãe (a emblemática Dona Canô), em companhia do irmão Caetano Veloso é algo de tal forma importante que bastasse alguém com algum talento, que ‘soubesse’ fazer o registro, que teríamos um grande filme”. Enfim, o texto fala por si só. É um registro típico de extra de DVD.

Bem, pela proximidade da exibição, me aterei mais profundamente em Mamonas para sempre, o doc, que vi recentemente no CineBH 2009 em uma sessão lotada da praça do bairro Santa Tereza em Belo Horizonte. Depois de ver Mamonas para Sempre fiquei sabendo que o diretor, Cláudio Kahns, na verdade está preparando um filme de ficção sobre a banda e decidiu fazer o documentário devido ao vasto material de arquivo encontrado. Resolvi assisti-lo por um resquício da adolescência que ouviu o grupo, acompanhou o frenesi da morte repentina e também por curiosidade do que seria feito com este material. Assisti a quase tudo de pé, pois não havia lugares. O público, em sua maioria de uma faixa etária aparentemente igual à minha, ou seja, quem era novo à época em que a banda fez sucesso.

Ao longo do tempo as pessoas foram chegando e a praça virou um apinhado de pessoas para todos os lados. O que, ao menos para mim, não ajudou em nada. Não houve momentos idílicos como na exibição de Noel – O Poeta da Vila  em Tiradentes e o filme também não contribui para que haja este tipo de manifestação. Infelizmente, optou-se por reunir imagens de arquivo do grupo (aliás, existe atualmente uma forte tendência atual ao auto-registro), depoimentos inflamados do empresário e produtor da banda, da ex-namorada do vocalista Dinho, seus pais, etc. Tudo isso com a ajuda de animações muito infantis, uma abordagem ingênua que jogou por terra qualquer possibilidade de registro minimamente interessante que a banda pudesse evocar.

A absorção desse pensamento “mamona” foi completa, o que até pode agradar a alguns, mas mais uma vez não se fez cinema. Existe um processo neo-acústico (o da MTV) no cinema contemporâneo, essa coisa de reaproveitar bandas terminadas, bandas de sucesso, histórias de impacto e uma convicção infantil de que o tema vale por si só. Um filme bem sucedido em relação a isso é Fabricando Tom Zé, que, claro, possui diversos pontos positivos, mas conta com o suporte de uma persona que, arrebatadora, enfraquece as deficiências do filme com suas aparições. Para amenizar, o que para mim talvez seja o melhor filme desta safra é Nelson Freire, de João Moreira Salles. O diretor procurou capturar a essência um tanto quanto autista do pianista e fez um filme cuidadoso, respeitoso tanto com a música clássica como com a dificuldade de expressão verbal de Freire. Há momentos de extrema beleza, nos quais Salles (claro, com a valorosa ajuda de seu operador de câmera) percebeu determinadas sutilezas que se poderia extrair da personalidade de Nelson Freire e realizou belos planos, como o momento em que ele quer mostrar uma cena de um filme (Ao Compasso do Amor) e o câmera fica em seu rosto, ao invés de pegar as imagens da TV.

Talvez uma das questões a se pensar acerca dessas produções atuais seja a dificuldade da maioria desses diretores em articular algum discurso, olhar ou até silêncio frente a imagens que parecem não necessitar de complementos. Repito, para isso existem os extras de DVD. Exemplo recente é o longa Michael Jackson – This is It, feito pelo diretor daquele que seria o último show do astro pop. Claro, a situação aqui se difere um pouco dos demais, por serem imagens que obviamente causariam comoção nos milhares de fãs que aguardavam a turnê, mas de toda forma, poderiam também fazer parte de uma compilação para um DVD, por que não? De toda maneira, não me pareceu existir neste filme nenhuma pretensão artística (aliás, as intenções parecem quase que de todo serem oportunistas, haja vista os milhões que o filme arrecadou em pouco dias nos cinemas), uma vez que ele só contém imagens registradas durante o processo de ensaio para o show e foi montado de maneira simples, sem floreios.

A questão é: será que a facilidade de captura e registro de imagens gerou uma explosão contrária ao que Bazin chamaria de “vitória do tempo”? A batalha contra a finitude tem enfraquecido o olhar para o cinema como arte. Possuir imagens parece ser suficiente. Ter uma câmera ligada em momentos rotineiros de artistas, instantes que depois se tornarão preciosos com mortes repentinas, doenças, acidentes, etc, basta. Não há a preocupação de uma construção estética, artística, não há muita preocupação em se fazer cinema, de fato. Se o acústico MTV se valia da facilidade de apenas criar uma abordagem diferente de músicas já existentes, a maioria desses documentários atuais vai ao ponto mais complicado desse “gênero” documentário: deixar tudo por conta do tema.

Pensando em Mamonas, é claro que as imagens de arquivo feitas pela banda contém por si só uma força pelo que representam, pela forma despretensiosa com que foram capturadas – o que denotava muito do espírito da banda – mas é justamente esta despretensão que joga por terra o que se poderia ter aproveitado de fato. Ao unir essas imagens aos depoimentos e imagens de apresentações da banda na TV, Kahns transformou o filme em uma historieta de como uma banda atingiu seu auge e acabou de forma trágica. A irmã de um dos integrantes e os pais de Dinho trazem as clássicas mensagens efusivas que confirmam os seres humanos fascinantes que eles eram. Para contrapor, surgem o empresário e produtor, desbocados, que falam dos problemas com a presença da namorada do vocalista, o excesso de viagens, as bagunças, etc. A namorada surge para enfatizar a melancolia e as apresentações na TV para ilustrarem a chegada ao apogeu.

Extremamente esquemático e preocupado em uma condução juvenil, o filme despotencializa as tais imagens de arquivo feitas pela banda que seriam, suponho, seu suporte maior para sua  construção. Kahns procura imergir nesse universo particular de uma banda que optou pela despretensão e deboche para fazer sucesso e, ao invés de ir nessa toada, tenta trazer para a tela uma construção formal-televisiva que justifique um argumento midiático universal a respeito deles: uma banda jovem, de talento, que acabou com uma infeliz tragédia. Ficou um receio do que será esse tal filme de ficção que é o objeto principal de Kahns.

Enfim, esta foi apenas uma pequena passagem por este lugar específico que parece ter alertado jovens e não tão jovens realizadores, que – em sua maioria – mais parecem ver nesses temas um filão de mercado que um projeto de cinema, de arte, de efetuação complexa e reflexiva de um registro que de fato nos dê um vislumbre dessa “vitória do tempo” e represente um belo olhar contra a finitude inevitável.

 

Filmes Citados:
Mamonas para Sempre, o Doc (idem, 2009/Cláudio Kahns)
Herbert de Perto (idem, 2009/Roberto Berliner e Pedro Bronz)
Maria Bethânia – Pedrinha de Aruanda (idem, 2006/Andrucha Waddington)
Titãs – a vida até parece uma festa (idem, 2006/Branco Mello, Oscar Rodrigues Alves)Lóki – Arnaldo Baptista (idem, 2008/Paulo Henrique Fontenelle)
Fabricando Tom Zé (idem, 2007/Décio Matos Jr.)
Nelson Freire (idem, 2003/João Moreira Salles)
Noel – o Poeta da Vila (idem, 2006/Ricardo van Steen)
Cartola (idem, 2007/Lírio Ferreira e Hilton Lacerda)
Tom Zé Astronauta Libertado (idem, 2009/Ígor Iglésias González)
Continuação (idem, 2009/Rodrigo Pinto)
Ao Compasso do Amor (You'll Never Get Rich, 1941/Sidney Lanfield)