- Agnès Varda – parte 2: diálogos com Eduardo Coutinho
- Agnès Varda – parte 1: divagações para um olhar fotográfico
- Bodas de Papel
- Um Beijo Roubado, ou um passeio pelo cinema de Wong Kar-Wai
- Apenas uma vez (Once)
- Em Paris
- Crítica de cinema: o exercício no durante
- Meu nome não é Johnny
- O Passado
- Route One USA (partes 1 e 2) e Berlim 10/90 – o cinema do desconforto, o documento da transcendência (Robert Kramer)
- Kubrick: de olhos bem abertos
- Zelig
- Cinema no Rio São Francisco/2007 – 1ª Etapa
- Fanny e Alexander - Ingmar Bergman: teatro, sonho, realidade e cinema
- Carreiras
- Crime Delicado, Cão sem Dono e o cinema de Beto Brant
- O Homem que matou o Fascínora
- Soberba e F for Fake: Is this Orson Welles?
- Casa Vazia
- Irreversível e Closer: o “nu e cru” e sua difícil acepção dentro do limite entre a ficção e a realidade

por Ursula Rösele
Meu nome não é Johnny
Meu nome não é Johnny é a adaptação (segundo os produtores: livre) do livro homônimo do jornalista Guilherme Fiúza, baseado em fatos reais ocorridos com o carioca João Guilherme Estrella, que nos anos 80 conseguiu transformar-se em um dos maiores fornecedores de substâncias ilícitas no Rio de Janeiro sem a necessidade de formação de quadrilha organizada para o tráfico.
O filme foi dirigido por Mauro Lima, cuja última experiência no cinema fora Tainá 2 – a aventura continua. Difícil não cair na velha história de avaliá-lo como mais um filme da Globo Filmes e refletir sobre os efeitos deste nome por trás de uma produção cinematográfica. Meu nome não é Johnny possui roteiro escrito pelo diretor em parceria com sua produtora (Mariza Leão) e é claramente mais um projeto de grande bilheteria.
Não pretendo com isso desmerecer os possíveis méritos da obra em questão, mas, infelizmente, saí do cinema com a sensação de ter visto mais uma produção de grande porte sem a alma do diretor; no sentido de uma obra que não contém em si nenhuma vontade criativa aparente. Não falo no sentido estrito de que somente o cinema autoral possa possuir mérito artístico, mas sim avaliando as possibilidades de empobrecimento de uma obra que parece ser a sombra de um pensamento empreendedor da produção.
Meu nome não é Johnny é um filme maneirista, repleto de muito daquilo que se aprende em aulas de cinema + televisão + cinema clássico americano. O filme possui uma levada cool, fortalecida pelo personagem do jovem “manêro” que tinha dinheiro, descobriu o universo do tráfico e divertiu-se o quanto pôde enquanto não sofria as conseqüências de seus atos ilícitos. Apesar de história verídica – que acaba trazendo consigo uma certa demanda de “realidade”, “veracidade” - é difícil desvincular-se da idéia de que o contexto simplesmente serviu como uma luva para o tal grande-projeto-de-início-do-ano-da-Globo-Filmes. Ingredientes também aparentemente perfeitos para serem adequados à atuação estilo Cheiro do Ralo de Selton Mello.
Selton Mello parece atualmente “vítima” (?) de uma fórmula de interpretação que “deu certo”. Não pretendo com isso dizer que não seja um excelente ator (vide sempre Lavoura Arcaica), porém - principalmente com resquícios de seu personagem em Auto da Compadecida e no mais recente O Cheiro do Ralo - fica difícil responder se há atualmente um personagem que Selton Mello possa representar ou se há filmes para Selton Mello. Fato é que lá está ele mais uma vez proferindo tiradas divertidas num tom de voz baixo-soturno que transformam seu personagem em alguém irresistível aos olhos da juventude que vai assisti-lo.
As pessoas irem ao cinema para “ver o Selton Mello”, não é o problema em questão. Porém, se a receita repetitiva parece estar funcionando, cabe aos realizadores o cuidado de não deixarem suas obras serem sucumbidas por uma estruturação de provável garantia de sucesso que não contenha o que mencionei anteriormente como a “alma do diretor”. Acaba invariavelmente virando um filme para/do ator. Hitchcock levou muitas pessoas aos seus filmes, claro, também devido ao peso de nomes e respectivas ‘personas’ anteriores, como Cary Grant, Katherine Hepburn, James Stewart, dentre outros. Há de se reconhecer, no entanto, que apesar do seu cinema ter sido de certa forma também enriquecido pelo carisma e/ou talento daqueles astros, havia nele toda uma articulação que estava muito além desta questão e que contribuiu para torná-lo o autor que foi, o grande mestre que ainda é, que ensinou com sua arte o verdadeiro sentido da palavra Cinema com letra maiúscula.
Há que se amenizar a ‘revolta’, confesso, pois Mauro Lima é um diretor de poucas obras no cinema até o presente momento. Porém, há também que se refletir nessa estrutura viciada de cinema que se apropria do aparentemente “já feito em algum lugar” para trazer as pessoas às salas de cinema. O diretor usa em demasia cortes secos, travellings, zoom in, gruas, panorâmicas, trilha de impacto, imagens em super 8 para aludir a momentos de melancolia da memória, etc. Não que o uso dessas estratégias em si represente um erro, porém, não há na construção de sua mise-en-scène a verve do diretor, o lugar em que a arte ali exposta contenha traços seus que corroborem para a idéia de um prenúncio de trajetória no cinema a acontecer.
Além dessas questões, Meu nome não é Johnny não conseguiu escapar da tal virada para a redenção do personagem, tornando-se enfadonho, longo e mais uma vez imerso na aparente inevitabilidade de se desvincular de determinados vícios do cinema clássico americano. Sua construção é “redonda”, mas sua estruturação se perde em seus diversos focos narrativos. A retratação da cadeia é esquemática assim como a relação do protagonista com os presos. O sanatório é o seu local de redenção, onde lerá livros, aprenderá a olhar com compaixão para a patologia alheia e – como todo clicheresco grand finale – haverá um discurso inflado e lacrimoso ao final que comoverá platéia e juíza.
Em lista de e-mails dos redatores e editor da Filmes Polvo, recebemos recentemente um e-mail do nosso redator Marcelo Miranda sobre filmes brasileiros que não estrearam em circuito mas foram exibidos no Brasil em mostras, festivais e etc. Permitir-me-ei finalizar um texto de maneira não muito ortodoxa para publicar esta lista aqui. E dizer que Meu nome não é Johnny não foi “pego pra Cristo” como objetivo de torná-lo responsável por uma dita “crise” do cinema ou das salas de cinema no Brasil.
Apenas gostaria de convidar os leitores a um pensamento: há muito de fascinante e particular no cinema nacional e isso não é muita novidade. Há muito não visto e há alguns filmes em cartaz muito discutidos e incensados pela crítica e pelos cinéfilos (Serras da Desordem e Conceição – Autor Bom é Autor Morto, por exemplo), nesta presente edição inclusive, em texto de Gabriel Martins. A questão é que estes filmes não têm atingido e/ou alcançado o espectador comum, que costuma assistir, por exemplo, a Meu nome não é Johnny. Fico feliz de ter presenciado uma sala cheia no dia em que assisti ao filme de Mauro Lima, por ser um representante do cinema nacional, mas por outro lado entristece pensar que esta pode ser a grande estréia de bilheteria do ano, numa espécie de prenúncio à continuidade de uma fórmula que privilegia poucos realizadores e deixa de lado muito da arte que se tem a compartilhar no Brasil.
Eis a lista:
Amigos de Risco (Festival de Brasília)
dir: Daniel Bandeira
Anabazys (Festival de Brasília)
dir: Joel Pizzini e Paloma Rocha
O Caminho do Homem (Mostra de Cinema de Ouro Preto)
dir: Chico de Paula
Castelar e Nelson Dantas no País dos Generais (Gramado/BH)
dir: Carlos Prates
Chega de Saudade (Festival de Brasília)
dir: Lais Bodansky
Cidade Dual (Mostra de Cinema de Ouro Preto)
dir: Leo Ayres
O Cinema dos meus Olhos (somente Mostra SP)
dir: Evaldo Mocarzel
Cine Tapuia (Mostra de Cinema de Tiradentes)
dir: Rosemberg Cariry
Cleopatra (Festival de Brasília)
dir: Julio Bressane
O Côco, a Roda, o Pnêu e o Farol (Cine PE)
dir: Mariana Brennand
Do São Francisco ao Pinheiros (Filme Etnográfico)
dir: Paula Morgado e João Cláudio de Sena
Entoados (Indie)
dir: Jason Barroso Santa Rosa e Rodolfo Magalhães
A Etnografia da Amizade (somente festival do Rio)
dir: Ricardo Miranda
Falsa Loura (Festival de Brasília e agora passará na Mostra de Cinema de Tiradentes)
dir: Carlos Reichenbach
O Grão (somente Mostra SP e agora passará na Mostra de Cinema de Tiradentes)
dir: Petrus Cariry
Heróis da Liberdade (somente mostra SP)
dir: Luca Amberg
A História das Três Marias (CineBH)
dir: Silvana Soares e Zackia Daura
A Ilha da Morte (somente Mostra SP)
dir: Wolney Oliveira
Indo.doc (somente Mostra SP)
dir: Leondre Campos e André Pires
Karaja (Filme Etnográfico)
dir: Marcelo de Paula
L.A.P.A. (Filme Etnográfico)
dir: Emilio Domingos e Cavi Borges
Língua de Brincar (Cine esquema novo/Mostra SP)
dir: Gabriel Sanna e Lúcia Castelo Branco
O longo amanhecer (somente CE)
dir: José Mariani
Meu Brasil (somente Mostra SP)
dir: Daniela Broitman
Meu Mundo em Perigo (Festival de Brasília)
dir: José Eduardo Belmonte
Mulheres Sexo Verdades Mentiras (somente Festival do Rio)
dir: Euclydes Marinho
Ô, de Casa! (Indie)
dir: Clarisse Alvarenga
Olho de Boi (somente Mostra SP)
dir: Hermano Penna
Otávio e as Letras (Gramado/Mostra SP)
dir: Marcelo Masagão
Pampulha - ou A invenção do mar de Minas (somente BH)
dir: Oswaldo Caldeira
Patativa (Cine Ceará)
dir: Rosemberg Cariry
Pirinop, Meu Primeiro Contato (Filme Etnográfico)
dir: Mari Corrêa e Karané Ikpeng
Porto Alegre - Meu canto no mundo (somente RS)
dir: Cícero Aragon e Jaime Lerner
O Quadrado de Joana (Mostra de Cinema de Tiradentes e foi exibido no Cine Humberto Mauro em BH)
dir: Tiago Mata Machado
Os Quatro Elementos em Si ou o Guru Selvagem (somente Mostra SP)
dir: André Martinez
Quer Saber? (somente Mostra SP)
dir: Paulo de Tarso Disca
Selva do Meu Desejo (Cine esquema novo)
dir: Roberto Athayde
O Senhor do Castelo (Cine PE)
dir: Marcus Villar
Simples Mortais (Festival de Brasília)
dir: Mauro Giuntini
Só Por Hoje (somente Mostra SP)
dir: Roberto Santucci
O Tablado e Maria Clara Machado (somente Festival do Rio)
dir: Creuza Gravina
Valsa para Bruno Stein (Gramado/Mostra SP)
dir: Paulo Nascimento
Filmes Citados:
Meu nome não é Johnny (idem, 2006/Mauro Lima)
O Cheiro do Ralo (idem, 2006/Heitor Dhalia)
Serras da Desordem (idem, 2004/Andrea Tonacci)
Conceição – Autor Bom é Autor Morto (idem, 2006/André Sampaio, Cynthia Sims, Daniel Caetano, Guilherme Sarmiento, Samantha Ribeiro)








