por Ursula Rösele

Superbarroco: um curta que não é curto*

super

Para um filme:
(...) o cinema atinge sempre o seu melhor quando o homem-cineasta consegue dobrar a máquina ao seu desejo e, dessa forma, nos fazer entrar no seu sonho.” (François Truffaut)

 

Para o outro: “Para mim, o cinema era o mundo. Um mundo diferente do que me circundava, mas só eu conseguia vê-lo na tela, junto com a plenitude, a necessidade, a coerência, enquanto fora dela amontoavam-se elementos heterogêneos que pareciam ter sido reunidos por acaso, coisas da vida, que pareciam desprovidas de qualquer forma.” (Ítalo Calvino)

 

Superbarroco é, em essência, um não-ser necessário. É dois e é super. Extrapola as concepções da arte barroca, transformando-se em um filme do autista do mundo e o filme para o autista de um mundo ideal. Dito “não-ser”, pois Superbarroco não é por definição coisa alguma e abrange um todo dele mesmo e de quem o assiste. É um sonho, e nos faz entrar dentro dele.

 

O autista do mundo olha para ele com estranheza, caminhando como se recém-caído ali. Faz seu caminho reunindo deste mundo o que pode ir para o seu. E caminha e sobe e inicia seu projetar ao elevar-se em uma imagem de uma igreja barroca, mas não entrar nela. Sobe por ela e vai além-barroco. Nessa projeção contínua, esse autista encontra seu mundo ideal. Para ele, o cinema era o mundo.  

 

O filme parece ser um idílio da solidão, que necessita do outro filme nele mesmo para imergir no prazer lúdico do não pertencer. Encontra nas ruínas, nos silêncios, a imagem que se funde, como se a solução para a utopia fosse o cinema no próprio cinema. Ali, como na arte barroca, estão conciliadas luzes e sombras, alegrias e tristezas, espírito e matéria. Há um corpo presente, há o corpo ausente evocado por aquele a todo tempo. Como se a saudade atingisse seu apogeu na própria representação cinematográfica.

 

Ali se eternizam os sentires e as vidas que se vão. Cinema é saudade em movimento, é o morto eternizado, o fotograma queimado que se repete ad infinitum sempre que assim desejarmos. O passado, quando projetado, se torna o presente no instante. O grito é sentido no canto em sopro, as palavras não têm importância, somente as imagens, os sentidos, os efeitos ilusionistas. Uma quase homenagem a Méliès, no belíssimo raccord da água do chuveiro projetada no corpo nu, para este mesmo corpo na água que escorre nele, já fundida, “posta em cena”.

 

A catarse final não é final para o (s) filme (s), o é para nós, meros espectadores da vida que poderia ser. No comemorar desse corpo ausente, o preparo, a maquiagem, os convidados que estão no filme-outro, este talvez ideal. Há um brinde nesse ilusionismo, pois além de dois, eles comportam o que a vida jamais conseguiria: a ambigüidade da existência e não-existência, fundidas numa mesma imagem, projetadas numa mesma tela, formando um três (os filmes e nós). Aberta a convidar todo aquele que ousar sonhar ali.

 

*Este filme é de Pernambuco e foi exibido na 12ª Mostra de Cinema de Tiradentes. Sem trocadilhos com o próximo asterisco, é uma pérola do curta-metragem contemporâneo e uma pena que eu não possa, neste texto, mostrá-lo a todos que o lêem. De toda forma, a quem tiver a oportunidade, não deixe de assisti-lo.

 

**Barroco: termo de origem espanhola ‘Barrueco’, aplicado para designar pérolas de forma irregular.

 

Filme Citado:

Superbarroco (idem, 2008/Renata Pinheiro)