por Ursula Rösele

Scoop, O Escorpião de Jade e Contos de Nova York (Episódio: Édipo Arrasado)

Apesar da afirmação constante que alguns críticos e espectadores fazem ao dizer que Woody Allen é um cineasta que costuma insistir em um mesmo estilo, interpretar sempre o mesmo personagem e outros julgamentos estigmatizados que explicitei em meu texto da edição anterior desta coluna, ao assistir a seu novo (e atrasadíssimo nas telas de Belo Horizonte) filme Scoop, veio-me à mente o trânsito por dois filmes anteriores, Édipo Arrasado - terceiro episódio de uma série de três contos dirigidos por Woody Allen, Francis Ford Copolla e Martin Scorsese - e O Escorpião de Jade, também de Allen, onde ele aborda questões similares, mas com uma essência muito diferente entre eles. Além disso, Scoop pode ser analisado (como o fez o redator Gabriel Martins em sua coluna Plano Seqüência nesta edição) de forma próxima com seu filme de 1993, Um Misterioso Assassinato em Manhattan.

Um dos maiores hobbies de Woody Allen é a mágica, desde sua infância. O diretor dedicou anos de sua vida a aprender pequenos truques que apresentava para sua família e amigos. Apesar de seu cinema transitar por diversos lugares, estética e narrativamente, Allen freqüentemente traz para seu universo diversas experiências de sua infância, aspectos de sua personalidade e origens. Elementos subjetivos que possivelmente estejam presentes na maioria (se não totalidade) de cineastas, mas na filmografia de Allen essas questões parecem ressaltadas de maneira mais visceral, talvez por aquilo que sua cinefilia proporcionou ao longo de sua construção como autor através de diretores que muito o influenciaram como Fellini, Bergman, Chaplin ou até Hitchcock (que teve uma formação religiosa forte e tratou – ainda que de forma diferenciada – de temas que trazia consigo como a repressão sexual e a culpa).

Em comédias como as três abordadas aqui, creio que o cineasta deixa clara sua paixão pelos filmes e a relação de liberdade criativa que a ‘mágica’ (sem trocadilhos) do cinema proporciona. Assim como François Truffaut certa vez declarou no livro O Cinema Segundo Truffaut, que: “penso em cinema tantas horas por dia, e há tantos anos, que não consigo deixar de comparar a vida e os filmes, e de lastimar que a vida não seja tão bem agenciada, interessante, densa e intensa quanto as imagens que organizamos”. Woody Allen declarou ao ‘companheiro’ de Nouvelle Vague de Truffaut, Jean-Luc Godard em entrevista concedida a ele que: “Prefiro batalhar com filmes que batalhar com outras coisas na vida”.

Dessa forma, além do humor que lhe é intrínseco, Allen se possibilita o desprendimento de argumentos lógicos e mergulha em um lugar de fantasia ao realizar as três obras acima referidas. Pessoalmente, não considero O Escorpião de Jade um filme de seus grandes momentos cômicos, mas sua espirituosidade atrai, com um roteiro que brinca com o cinema noir, com A Doce Vida de Fellini - em uma das falas da atriz Charlize Theron (a la Kim Bassinger em Los Angeles – Cidade Proibida) em determinada cena ao dizer que o personagem de Allen a viu à noite em chafarizes proibidos. A metalinguagem está presente em muitas obras de Allen, de maneira direta ou indireta, seja em citações explícitas ou homenagens que o autor freqüentemente faz. Em O Escorpião de Jade, os diálogos velozes e enérgicos e de forte tensão sexual entre Allen e Helen Hunt muito recordam os ‘rivais’ que acabariam tornando-se um casal em filmes a exemplo de Ernst Lubitsch (Ninotchka), Billy Wilder (Amor na Tarde), Howard Hawks (Jejum de Amor) e Frank Capra (Aconteceu naquela noite).

Édipo Arrasado, apesar da pouca duração (aproximadamente 35 minutos), abusa do non sense em situações inusitadas, extremamente divertidas, num roteiro com todos seus toques provavelmente adquiridos em suas experiências como comediante stand up, assim como em diversos momentos de Scoop. O protagonista (interpretado pelo próprio Allen, como nos outros dois filmes) é um homem de cerca de 50 anos frustrado com as investidas ‘psicóticas’ de sua mãe, extremamente coruja e implicante, interpretada pela atriz Mae Questal (que dublou a personagem Betty Boop e Olívia Palito nos EUA). Ele namora uma mulher divorciada (Mia Farrow) com três filhos pequenos e sua mãe desaprova. Em momentos intercalados na sala de seu psicanalista, o personagem de Allen afirma que a interferência da mãe o faz desejar seu desaparecimento definitivo de sua vida. Um dia, os personagens de Allen e Farrow a levam para passear e ir a um show de mágica com as três crianças e o mágico chama sua mãe para ser voluntária em uma caixa chinesa onde ele colocaria facas e a faria desaparecer, o que acontece de fato e ninguém consegue explicar onde a velhinha foi parar.

Iludido pelo sossego proporcionado com o sumiço de sua mãe, Allen se torna mais leve e tem alguns dias de paz, até que ela aparece imensa no céu de Manhattan revelando todas as características, falhas e costumes de seu filho, além de acabar com a imagem de sua namorada publicamente. Allen recorre a uma vidente muito parecida com sua mãe e depois de situações engraçadíssimas (como as sessões de rezas, danças com máscaras, defumação), eles se apaixonam e ao aprovar o enlace do casal, sua mãe reaparece e tudo volta ao “normal”.

A mágica utilizada em O Escorpião de Jade é a hipnose e Allen inclusive utilizou-se da mesma trilha de Édipo Arrasado para ilustrar os momentos onde o ilusionismo acontece. Nesse filme ele é um investigador que trabalha numa empresa que instala instrumentos de segurança em mansões de milionários e averigua fraudes. Allen encontra na personagem de Helen Hunt uma rival, pois ela entra para a empresa como “operações” e decide modernizar o local, atrapalhando todas as estratégias ‘ultrapassadas’ da personagem de Allen. Em uma festa, um mágico os hipnotiza com motivos escusos de fazê-los roubarem jóias das mansões, cujos dispositivos de segurança eram conhecidos da empresa de ambos, e envolvem-se em inúmeras situações próprias da inventividade do diretor.

Já em Scoop, Allen é o próprio mágico que trabalha num ambiente muito similar ao do mágico de Édipo Arrasado e em uma de suas apresentações chama uma voluntária ao palco (Scarlett Johansson, que interpreta uma estudante caipira-caricata-atrapalhada de jornalismo) para efetuar com ela a mágica de desmaterialização. Ao fazê-la, o espírito de um jornalista famoso falecido recentemente, que descobriu em sua travessia com a morte aquele que poderia ser seu último furo jornalístico, aparece para ela dentro da caixa de desmaterialização e confessa suas informações ‘bombásticas’ para que ela consiga desvendar o mistério de um procurado serial-killer que vinha estrangulando prostitutas. O jornalista (através de fontes do ‘além-túmulo’) suspeitava que o culpado fosse o filho de um lorde inglês de muita influência.

Daí se desenrola toda uma trama fantasiosa com direito a sátira com a morte (em momentos espirituosos que rememoram A última noite de Boris Grushenko), alusões a filmes ingleses como os de Sherlock Holmes, ao notório assassino Jack o Estripador e uma presença cômica de Allen que de certa forma tornou Scarlett Johansson e o ator Hugh Jackman (o suposto assassino) meros coadjuvantes em meio a tiradas rápidas num roteiro no mínimo divertido.

Mais uma vez o diretor trabalhou em Londres e diferente do que muitos podem pensar, sua escolha advém muito mais de uma liberdade criativa maior e menores custos de produção do que uma tentativa de sair de Manhattan, seu ‘set’ favorito. Em Scoop, sua abordagem da Inglaterra se diferencia em parte de sua última obra Match Point (também rodada neste país), uma vez que obviamente são gêneros diferentes, mas mais uma vez Allen utilizou-se de músicas clássicas ao invés do jazz tradicional e ambos tratam de uma sociedade aristocrático-burguesa com diversas características conservadoras e um humor mais seco, diferente do americano, onde impera a exigência pelo nome e família que cada um carrega, sua posição social e seriedade.

Scoop não é uma grande obra de Allen e não fui assistir aguardando por isso. Se considerarmos sua capacidade de aos 71 anos escrever, dirigir e atuar (na maioria) em um filme por ano, considerei a experiência deveras divertida e válida na carreira de um diretor que já experimentou e transitou por inúmeros lugares, sem perder sua incrível capacidade de ser inventivo e muitas vezes não abusar nos recursos técnicos, utilizando-se de planos longos que priorizam o diálogo e interação de suas personagens. Dessa forma, ele consegue aliar esses recursos à capacidade de trazer para seu cinema o ‘refresco’ de uma infância tortuosa mostrando de maneira explícita ou sutil a sua relação com o judaísmo, com o Brooklin (onde passou a maior parte de sua infância), seus pais, a hipocrisia do ser humano, a neurose, religião, o amor pelo cinema e a magia que só ele é capaz de proporcionar.

Filmes Citados:

Aconteceu Naquela Noite (It happened one night, 1934/Frank Capra)
Ninotchka (idem, 1939/Ernst Lubitsch)
Jejum de Amor (His Girl Friday, 1940/Howard Hawks)
Amor na Tarde (Love in the afternoon, 1954/Billy Wilder)
A Doce Vida (La dolce vita, 1960/Federico Fellini)
A Última Noite de Boris Grushenko (Love and Death, 1975/Woody Allen)
Meetin´WA (idem, 1986/Jean-Luc Godard)
Contos de Nova York – 3ª história: Édipo Arrasado (New York Stories – Oedipus Wrechs, 1989/Woody Allen)
Um Misterioso Assassinato em Manhattan (Manhattan Murder Mystery, 1993/Woody Allen)
Los Angeles - Cidade Proibida (L.A. Confidential, 1997/Curtis Hanson)
O Escorpião de Jade (The Curse of the Jade Scorpion, 2001/Woody Allen)
Match Point (idem, 2005/Woody Allen)
Scoop (idem, 2006/Woody Allen)

Livro Citado:

O Cinema segundo François Truffaut (Le Cinema Selon François Truffaut, 1990/Anne Gillain)