por Ursula Rösele

Casa Vazia

"We are all empty houses waiting for someone to open the lock and set us free. One day, my wish comes true. A man arrives like a ghost and takes me away from my confinement. And I follow, without doubts, without reserve, until I find my new destiny". (Kim Ki-duk) *

Difícil encontrar palavras para definir ou analisar algo cujo princípio básico é o silêncio. Se existisse uma forma escrita de pura contemplação, eu juro que a faria. É a sensação primeira ao tentar abordar Casa Vazia, filme do diretor coreano Kim Ki-duk.

Pretendo não me ater por muito tempo em sua sinopse, portanto: Casa Vazia mostra a rotina de um rapaz que vagueia pelas ruas com sua moto colando panfletos de um restaurante em portas de residências para descobrir (a partir de quem não os retira) se o inquilino está em casa ou viajando. Assim, ele dorme a cada dia em uma dessas 'casas vazias' até encontrar uma jovem tão aparentemente "invisível" ou "deslocada no mundo" quanto ele.

Casa Vazia, a meu ver, transita na dubiedade da vida e, por que não dizer, do cinema. Tenta se descobrir, tenta nos descobrir, adentra na metalinguagem, divaga numa câmera dominadora-dominada, é tempo morto no qual tudo acontece, difunde-se entre o real e o imaginário, entre a tríade cinema/ficção/re-criação do real. Diz sem dizer, machuca com o não-dito, o não-sabido, o não-compreendido. É poesia-relato da tentativa vã de pertencimento. É metáfora que não se preocupa em responder, mas deixar seus questionamentos. A prova pura (e tantas vezes dura) de que, como disse sabiamente John Lennon: "life is what happens while you´re busy making other plans" (a vida é o que acontece enquanto você está ocupado fazendo outros planos).

Ao falar da dicotomia entre o 'tempo morto' e o espaço onde tudo acontece, quero dizer que Casa Vazia - dentro desse contexto do duplo, do dúbio, dos aparentemente opostos – é uma experiência de muito apuro cinematográfico ao conseguir transitar por esses dois lugares, diferenciando-se do filme anterior de Kim Ki-duk, Primavera, Verão, Outono, Inverno... e Primavera (onde o 'tempo morto' impera). No cinema, o 'tempo morto' seria a narrativa que traduz a vida cotidiana, onde o tempo é contínuo, como se cada corte indicasse extensão e não transposição. Se um homem vai atravessar um rio, a câmera vai com ele durante todo esse trajeto, ao invés do formato clássico de cortes e elipses, por exemplo, em que um homem começa a subir uma escada de um prédio e o corte o leva ao seu destino sem que precisemos acompanhá-lo, pois se subentende que ele subiu degrau por degrau.

Em Casa Vazia acompanhamos Sun-Hwa (Lee Seung-Yeon) em sua rotina diária de adentrar as casas, limpá-las, consertar os aparelhos estragados, lavar as roupas, tirar fotografias com as fotografias dos moradores. Inicialmente em consonância com seus passos, o jovem não demonstra insatisfação, mas trilhar um percurso sem aparentes pretensões. É um outsider por excelência, parecendo compreender sua condição, até que seu 'universo paralelo' entra em colapso com a inevitabilidade do real. E assim, saímos do terreno 'tempo morto' para o lugar onde os cortes (paradoxalmente) remetem a uma triste realidade na qual todos dizem e ninguém escuta.

Além do silêncio, outro ponto recorrente no filme é o golfe. De certa forma, como o ciclo do protagonista, o objetivo do esporte é fazer a volta no campo acertando as bolas em seus respectivos buracos com o menor número de tacadas. Esta semelhança se dá na medida em que (como dito acima) Sun-Hwa parece traçar um caminho cíclico (como em Primavera, Verão, Outono, Inverno... e Primavera); seu espaço parece ser o da rotina, da repetição. Ele não faz a volta, mas percorre e repete, uma vez que seu momento com o golfe se dá através de uma bola amarrada na árvore e o treino ininterrupto (por enquanto) de algo que (como não existem respostas) pode ser lazer, concentração, foco ou alívio de tensões.

Para confundir um pouco mais (infelizmente não encontrei a tradução do coreano para o português), o título americano para Casa Vazia é 3-Iron. Poderia simbolizar os três personagens (o rapaz, a jovem e seu marido), um esporte praticado com destreza pelos dois homens que disputam a mulher e sentimentos que de uma maneira ou de outra – seja por escolhas, seja pela vida – parecem ser indestrutíveis (ferro), como o amor, o ciúme, a possessão, o sofrimento. E pode ser ainda uma metáfora de three - três e tree – árvore, onde Sun-Hwa pratica com freqüência até por não ter seu espaço próprio. Adentrando o golfe, o termo Iron significa: taco de cabeça mais estreita, normalmente feito de aço e, numerado de um a nove, de acordo com sua posição. O taco iron 3 (chamado no Brasil de “ferro 3”) é pesado e utilizado para jogadas cuja intenção é arremessar a bola por mais de 100 metros.

Daí a metáfora se transforma mais uma vez no universo dúbio do filme: tanto Sun-Hwa quanto Min-gyu (Kwon Hyuk-Ho) usam esse taco. O primeiro, apesar de doce, carrega em si uma personalidade forte e um instinto latente de violência, que contrastam com seu desejo único de não ser visto e de encontrar leveza dentro de sua percepção de mundo, que imerge totalmente no terreno do onírico e de um anseio de lugar que transcende a realidade (uma das características do cinema, diga-se de passagem). Já o segundo possui uma natureza violenta (bate na esposa com freqüência) e tem imensa dificuldade de demonstrar carinho e doçura. O iron 3 seria então o fio condutor dessa narrativa pouco usual (quase não linear dentro de sua linearidade), na medida em que serve de instrumento constante de ‘diálogo’ (ou ausência dele), violência ou vingança.

Em Casa Vazia Kim Ki-duk experimenta com sua câmera em diversas situações, numa espécie de ‘colóquio’ silencioso com o Cinema que não se dá em um esforço metalingüístico explícito, mas fazendo contornos em torno de sua estrutura onde podemos perceber que o maior diálogo do filme se dá através do não-dito e de tudo aquilo possível de ser transposto através do olhar, seja ele da câmera, seja ele da entrega da mesma ao universo do protagonista.

Esta imersão cinematográfica tornou Casa Vazia uma ‘aula’ de cinema, na medida em que o diretor se apropriou de muito do que esta arte pode oferecer em sua linguagem e técnica. A sensação de não pertencimento toma proporções imensas ao longo da disputa travada entre o sonho e a realidade. Sun-Hwa é a metáfora de um dos lugares que o cinema ocupa, onde cineastas como Fellini, Frank Capra, Kurosawa, irmãos Coen, Tim Burton (dentre outros) mergulharam na capacidade de transcendência do real para construir um universo onde as possibilidades transitam no terreno daquele que escreve o roteiro e dirige a câmera.

Na impossibilidade de evitar a repetição de abordagens sobre o filme, mais uma vez uma característica dúbia de Casa Vazia: há pouco eu disse que a câmera exerce uma função dominadora-dominada. Ao mesmo tempo em que Kim Ki-duk a opera, ele parece perder seu espaço para cedê-lo (inevitavelmente) ao personagem-fantasma de Sun-Hwa. Inicialmente temos planos-conjuntos onde o espaço é maior que o personagem. Sun-Hwa ocupa entre aspas... ele está, mas não está, existe, mas é apenas sombra, pertence, mas gostaria de não pertencer. Os lugares onde ele dorme são apresentados em planos abertos, até o momento em que a câmera acompanha o ponto de virada da estória (ou seria história?).

Após tirar a jovem de seu marido opressor, Sun Hwa e Tae-Suk (Lee Hyun-Kyoon) seguem rumo à continuidade da rotina, no silêncio confortável que ambos traduzem com o olhar, com os gestos, com o sorriso singelo que surge aos poucos. No encontro entre o ‘fantasma’ e a mulher-fragmento - cuja fotografia não a revela por inteiro (pois ela é pedaço à espera da reconstrução), cujo cinema não é movimento, mas a ilusão do mesmo – reside o cotejo cinema/realidade/ficção/ação/conseqüência. As perguntas não são respondidas, mas o não-lugar que ambos desejam habitar contém um mundo de seres falíveis, que esperam pelas tais respostas que eles mesmos não conseguem dar.

O diretor parece envolto em um conflito regido pelo desejo da criação e a inevitabilidade do confronto com o real. Se vivemos em sociedade, estamos diante de uma liberdade ‘relativa’, e assim, Casa Vazia inicia seu passeio entre o onírico e a realidade. Por mais singelo que seja o ato de ‘invadir’ um espaço e recompensar fazendo serviços domésticos, os inquilinos vez ou outra voltarão a suas casas e obviamente não compreenderão aquela atitude, à exceção daqueles que enxergam nas coisas sentidos para além dos concretos.

Depois de serem pegos pelo boxeador, que não consegue compreender o quê duas pessoas que dormem em sua cama e usam seus pijamas são senão ladrões; de uma tentativa repleta de simbolismos no impedimento de Sun-Hwa continuar com seu golfe na árvore (a jovem entra em sua frente em silêncio – poderia ser uma fala, poderia ser a tentativa de tirá-lo de seu impulso violento, poderia ser muitas coisas) e acabar por ferir uma garota quando a bola escapole; de encontrarem um homem morto em sua casa. Não, não deveria existir esse ponto final ao falar da trajetória do casal, uma vez que a vida não é feita apenas de sonhos e não podemos colocar pontos finais em terrenos onde por ventura vivemos em um mundo onde existe o outro. Para toda ação existe uma conseqüência? No universo onírico deles não deveria haver, se pensarmos que não houve más intenções.

Kim Ki-duk provavelmente gostaria de se libertar, mas ainda não parece ser o momento. Nós muitas vezes gostaríamos de viver essa idéia de liberdade abstraída de nossa relação com o mundo, mas temos de coexistir além do universo poético colocado pelo ponto de vista do casal em Casa Vazia. A partir desse princípio se rompe a barreira do silêncio e o casal é compelido a enfrentar o que existe além da ingenuidade que os acompanha. O erro é medido pelo outro (espectador/personagens além do casal) e o silêncio se torna angústia para aquele que viu (Sun-Hwa e Tae-Suk), mas não vê sentido em dizer para eles. Algo aconteceu, mas é apenas um filme (confronto real-imaginário a todo tempo). Eles encontram um senhor idoso morto e o limpam, fazem o ritual de sua cultura para enterrá-lo dignamente, tentam avisar os filhos e continuam sua rotina na ilusão de ‘dever’ cumprido. Os filhos chegam e os dois são presos.

Na delegacia o interrogatório funciona como a metáfora de quem somos em essência para a forma como nos vêem/interpretam. Sun-Hwa poderia ser um jovem doce, que habita territórios sem maldade, que ajuda onde pode ajudar e deixa tudo num estado melhor do que encontrado. Ele e Tae-Suk poderiam ser um casal de amantes que encontrara plenitude à sua maneira. Mas ali naquele terreno, suas ações se transformaram em: invasão ilegal, assassinato, ocultação de cadáver e seqüestro. Nem com a averiguação dos fatos e o argumento de um dos policiais que consegue ver alguma delicadeza, eles são absolvidos da ‘punição’ do real.

Temos aí o ponto de virada da narrativa, do diretor, dos personagens, da câmera. Após a separação do casal, do retorno de Tae-Suk ao seu marido e da prisão de Sun-Hwa, os enquadramentos saem do geral para o close, o sufocamento, a falta de espaço. Na cadeia, Sun-Hwa tenta praticar seu golfe na ausência do instrumento, mas o áudio agora é dele (e nós ouvimos com ele o barulho da tacada) e aos poucos ele se torna o diretor de sua própria história. Quando enclausurado sem a companhia de outros presos, ele dá início a seu processo de não ser visto, como conseqüência única de permanecer no espaço paralelo onde sua busca pela leveza pode tornar-se finalmente o encontro.

Em uma seqüência impressionante, a câmera de Kim Ki-duk inicia seu processo de registro-subjetividade. Sun-Hwa conhece o espaço ao qual ele pertence agora e parte para a tortura psicológica com o guarda que o vigia.

Permitam-me a descrição “cinéfila” da primeira seqüência onde a imagem e a interpretação dizem por si sós: de cima para baixo a câmera sai do alto da parede para encontrar Sun-Hwa meditando. Ele encara a câmera e abre os braços totalmente. Close em seu rosto que olha para o lado direito. Corte para o espaço entre o meio de seu corpo até o final de seu braço direito. Close em seu rosto que olha para o lado esquerdo. Corte para o espaço entre o meio de seu corpo até o final de seu braço esquerdo. Corte para ele inteiro de braços abertos num enquadramento onde a ilusão de espaço já é maior. Numa espécie de ‘katar’, Sun-Hwa inicia um movimento circular em plano médio. Corte para parte de seu braço esquerdo e seu rosto. Corte para contra-plongée (câmera de baixo para cima, que indica superioridade do personagem) de Sun-Hwa que gira de um lado para o outro. Corte para plongée (câmera de cima para baixo) que mostra para nós o poder de ilusão do cinema, pois ele ocupa um espaço extremamente menor que os outros planos subentenderam. A câmera inicia um movimento mais livre de aproximação dele, corta para plano detalhe de seus pés, corta para plano detalhe dos pés de Tae-Suk subindo na balança que fora regulada anteriormente por Sun-Hwa. Câmera sobe ao encontro do rosto dela e corta para ela regulando novamente a balança.

Tae-Suk vai ao reencontro poético com o local de seu primeiro beijo. Entra silenciosa com o dono da casa lá. Passa por ele, deita no sofá e ele carinhosamente a deixa descansar. Sun-Hwa continua seu processo de domínio de sua ‘invisibilidade’ e da câmera. A luz do sol denuncia sua sombra para o guarda que o procura no espaço ínfimo que ele conhece quase por completo. Corte para a mão esquerda de Sun-Hwa com o desenho de um olho (simbologicamente, o “olho da providência” ou “terceiro olho”, aquele que tudo vê) que reconhece mais uma vez o espaço. Agora Sun-Hwa brinca com a câmera que tenta segui-lo em uma panorâmica que não consegue terminar sua volta de 360º, pois o personagem agora a domina e ela se transforma em sua subjetiva (com a câmera na mão).

Sun-Hwa sai da cadeia e inicia uma espécie de retorno retroativo (e algumas vezes de vingança) até o encontro do único lugar ao qual parece pertencer. Temos aí várias inversões de eixo da câmera, já confusa entre seu espaço de registro da história e o olhar subjetivo de Sun-Hwa. Ele finalmente conseguiu se transformar em um fantasma que pode ser percebido, mas não é visto.

De volta ao silêncio...

Sun-Hwa está de volta à casa de Tae-Suk e em mais uma subversão de expectativa da narrativa clássica, ao invés de vingar-se do marido, quem volta é o fantasma e não seu oponente no golfe. Só o vê aquela que compartilha com ele do desejo de existir no universo onírico construído por si mesmo. O marido de Tae-Suk é o espectro daquele espaço, aquele que só vê aquilo que deseja ver e transita sem conseguir interferir na conjunção praticamente metafísica daqueles dois corpos.

Não existem mais barreiras, pois ali real e ficção parecem um só. Min-gyu sai para trabalhar na ilusão de que a felicidade de Tae-Suk é pelo reencontro do formato de amor que ele conseguiu atingir na vida. Agora os dois estão sós. Sun-Hwa liga o som e ela o procura... de costas para ele, o busca com o olhar. Caminha para trás até suas sombras se fundirem na parede e o encontro se dar. Os dois estão em cima da balança e seu peso agora é 0kg. Estamos diante da escolha:
- ela a regulou, manipulou o real à sua maneira;
- os dois encontraram enfim a plenitude e a leveza de ser um só.

E o diretor está de volta com seu veredicto: “É difícil dizer se o mundo em que vivemos é uma realidade ou um sonho”. Talvez a questão principal não resida na palavra. Não consegui a escrita de contemplação, mas percebi de forma bela que quem sabe, a dor não está no não-dito, mas naquilo que se optou por não ouvir.

Filmes Citados:
Primavera, Verão, Outono, Inverno...e Primavera (Bom Yeoreum Gaeul Gyeoul geurigo Bom ,2003/Kim Ki-duk)
Casa Vazia (Bin-jip, 2004/Kim Ki-duk)

Sites Visitados:
http://www.portugalgolf.pt/golfe/golf_equip_aces_1.htm
http://lazer.hsw.com.br/tacos-de-golfe1.htm
http://www.golfama.com/iframegloss1.htm
http://pt.wikipedia.org/wiki/Olho_da_Provid%C3%AAncia

* "Somos todos casas vazias esperando por alguém abrir a fechadura e nos libertar. Um dia, meu desejo se realizará. Um homem chega como um fantasma e me tira de meu confinamento. E eu sigo, sem dúvidas, sem reservas, até eu encontrar meu novo destino".