por Ursula Rösele

Soberba e F for Fake: Is this Orson Welles?

Falar de Orson Welles aparentemente é transitar por um terreno já explorado. Depois da ‘militância’ de Peter Bogdanovich, das avaliações sistemáticas de Pauline Kael e da fúria de William Randolph Hearst, sua obra foi investigada à exaustão por entusiastas e críticos de todas as partes do mundo durante anos e, infelizmente, não a tempo de evitar a mutilação de vários de seus filmes que acabaram por perderem-se na história do cinema.

A ironia que paira no filme considerado um dos melhores de todos os tempos (Cidadão Kane) e as conseqüências de seu lançamento trazem diversos questionamentos tanto da indústria cinematográfica hollywodiana quanto do cinema como arte e seu potencial criativo e por que não dizer ‘relativo’ de liberdade.

No livro montado juntamente com Peter Bogdanovich, intitulado “Este é Orson Welles”, tem-se um fantástico instrumento de análise da mente de um artista (ainda que com omissões e controvérsias) e do poder catastrófico dos executivos e dos estúdios sobre o trabalho dos diretores na indústria americana. O livro é um compêndio de entrevistas de Welles concedidas a Bogdanovich durante anos, em que o diretor discorre sobre as diversas etapas de sua carreira, as decepções e os lamentos por ter dedicado anos de sua vida a uma arte que ele dizia não julgar merecedora de tanta batalha, uma vez que as exigências financeiras e estratégicas do meio corroboram para a aniquilação de suas diversas possibilidades de ampliação.

Muito se falou acerca de Cidadão Kane, das polêmicas envolvidas, da obra-prima que este representou para a história do cinema. Difícil dizer algo que Griffith já não tenha feito, criado ou aperfeiçoado para a evolução do cinema, mas Welles trouxe à baila uma das mais intensas imersões numa arte que, além de Griffith, somente John Ford parecia ter compreendido com tanta amplitude até então. Seja no teor narrativo, no entendimento do potencial da câmera, da fotografia, de todo o arsenal técnico disponível, não há o que se discutir a respeito do brilhantismo de Cidadão Kane.

A despeito disso, paradoxalmente, seu segundo filme sofreu sérias conseqüências do lançamento ameaçador que Cidadão Kane representou para seu estúdio, RKO. Apesar do salto temporal, Soberba e o último filme dirigido por Welles, F for Fake, possibilitam ampla percepção de seu legado artístico e da criação perdida que o cinema jamais poderá recuperar. Soberba trata da trajetória de uma riquíssima família americana (os Ambersons) às voltas com a iminência do progresso e do surgimento dos automóveis em circunstâncias nas quais a aristocracia, o ciúme e a ganância trazem um retrato fiel das condições adversas a que aquelas pessoas se colocam depois de confrontarem-se com as mudanças sociais e econômicas e seus conflitos internos.

Beira o humor negro pensar que após terminar as filmagens de Soberba, Welles veio ao Brasil fazer um documentário sobre carnaval e o estúdio o impediu de todas as formas de ter domínio sobre a mutilação que fariam a seu filme, que se encontrava na fase de montagem nos EUA à época. Apesar de diversas cartas enviadas aos executivos e ao protagonista Joseph Cotten, Welles não conseguiu impedir que seus quarenta minutos pudessem um dia ser recuperados.

Em apêndice ao final de seu livro, Bogdanovich descreve cena por cena todas as partes do filme que saíram no corte final. Apesar da retirada parcial de um notável plano seqüência (iniciado na cena do baile), de diálogos importantes para a trama, da escolha por ignorar o final duramente realista no qual poderíamos avaliar com muito mais conteúdo e profundidade artística e dramática a derrocada daquelas pessoas retratadas, Soberba é um grande filme. Welles abusa do uso da profundidade de campo dando vazão à sua teoria de que este recurso propicia a sensação fiel de realidade uma vez que ao manter o foco em toda a cena o diretor não direciona o olhar do espectador, permitindo que ele possa escolher o ponto que prefere enfatizar.

F for Fake parece um desfecho irônico (como não poderia deixar de ser) de uma carreira conturbada, dividida entre alterações pecaminosas em um filme já pronto (Soberba), impedimento de entrar no set para refilmagens (Marca da Maldade), demissão de um executivo do estúdio que enviou Marca da Maldade para um festival de cinema de Bruxelas (em que a vitória do filme não impediu a ação do estúdio), dentre as várias barreiras de patrocínio de seus filmes que o levaram a finalizar sua carreira trabalhando como ator em pontas e comerciais.

F for Fake é o desabafo de um diretor competente que, talvez por excesso de consciência de seu talento, viu-se revoltantemente podado pelos tais ‘experts’ que ele aborda neste filme. Totalmente não linear, seu início já prenuncia uma grande despedida para o cinema. Fala de falsificadores, mais especificamente de um falsificador húngaro de pinturas chamado Elmyr, de mágica, Howard Hughes, cinema, Oja Kodar e um sem-número de estratégias de quebra catártica que acompanham seu trajeto rumo a uma discussão metalingüística sobre o real, o ficcional, o papel da arte no mundo e dos considerados especialistas na mesma.

Nas cenas iniciais, Welles usa a mágica com um garoto e passeia pelo set de filmagem onde os profissionais caminham com os objetos de cena, uso da tela azul, enquanto ele fala de falsificações em um diálogo inteligente com o próprio cinema, a arte, o poder de persuasão, os efeitos ‘semi-subliminares’ na tela (que repetem durante todo o filme a palavra ‘fake’, ‘fake’, ‘fake’) e questões que se desenvolvem numa mistura de autor/narrador/personagem daquele próprio universo farsesco.

Talvez Welles tivesse sido mais Charles Foster Kane que o próprio William Randolph Hearst ou Howard Hughes (que ele sugere que teria sido sua abordagem em Cidadão Kane), assim como seria mais Elmyr que seu próprio personagem. Em F for Fake ele conversa com a câmera, utiliza de elementos falsos todo o tempo e de argumentações dúbias ao falar dos ‘experts’ em arte, dos quais ele mesmo fora vítima por toda sua carreira.

Welles, cuja primeira ‘falsificação’ ocorreu no rádio com a notória narração da invasão extraterrestre de “Guerra dos Mundos” e que foi responsável por levá-lo a Hollywood ao invés da cadeia (em suas próprias palavras), passeia entre os lugares obscuros da autoria e da verdade sobre uma criação, com elementos que muitos julgaram propícios para sua defesa de que não se apropriou do roteiro de Cidadão Kane.

Oja Kodar, que ficou ao seu lado até sua morte e auxiliou Bogdanovich a finalizar o livro, o ajuda a fechar a narrativa de F for Fake demonstrando o poder de persuasão do cinema e da arte como um todo, como que para comprovar que não há afirmação correta no âmbito da arte, seja para a crítica, seja para a consagração. Welles admite ter dito mentira durante os últimos 17 minutos de sua projeção, finalizando-a com um olhar penetrante para a câmera que fora, ao mesmo tempo, sua melhor amiga e talvez a razão maior de sua ruína.

Seja em Cidadão Kane, Soberba, Marca da Maldade, Othello, O Processo, F for Fake, dentre tantos outros, seja através das palavras de Bogdanovich, das avaliações de Pauline Kael, do medo dos estúdios, do ódio de Hearst, dos críticos que ajudaram o mundo a descobrir um pouco quem foi Orson Welles, o cinema perdeu grande parte de um material que o ajudaria certamente a encontrar novos caminhos de exploração.

E nas palavras de Welles ou de seu personagem, ou de mais um falsificador e de tudo aquilo que a arte abrange, ficam as palavras de um filme sobre a falsificação, sobre o filme, sobre o cinema e uma trajetória. Talvez o nome de um homem não signifique tanto e sejamos todos efêmeros. Talvez não:

“Nossos trabalhos em pedra, pintura e impressão são sólidos por algumas décadas ou um milênio ou dois, mas tudo finalmente se despedaçará e o minério irá se desgastar na última cinza universal. Os triunfos e as fraudes, os tesouros e as falsificações. Um fato da vida é que nós vamos morrer. Sejam felizes, artistas individuais mortos fora do passado vivo. Nossas músicas todas se silenciarão. Mas o que somos? Siga cantando. Talvez o nome de um homem não signifique tanto” (Orson Welles em F for Fake).

Sugestão: DVD da edição dupla de Cidadão Kane com documentário sobre todas as polêmicas do filme: “A Batalha por Cidadão Kane”.


Filmes Citados:
Cidadão Kane (Citizen Kane, 1941/Orson Welles)
Soberba (The Magnificent Ambersons, 1942/Orson Welles)
F for Fake (idem, 1973/Orson Welles)

Livro Citado:
Este é Orson Welles (São Paulo, Globo: 1995/Peter Bogdanovich e Orson Welles)