por Ursula Rösele

Crime Delicado, Cão sem Dono e o cinema de Beto Brant

Em seu mais recente lançamento, Cão sem Dono, Beto Brant (com co-direção de Renato Ciasca) mergulha em mais uma adaptação literária – desta vez do livro Até o dia em que o cão morreu, de Daniel Galera – apresentando um cinema maduro, no qual a vida é relatada através de uma ligação extremamente próxima com a arte e a inevitabilidade do real.

Existe uma proximidade entre Crime Delicado e Cão sem Dono que corrobora para a percepção de um estilo de cinema que vem se aflorando a cada novo trabalho de Brant, no qual a urbanidade se funde com a arte quase que num esforço complementar. Principalmente em seus dois últimos trabalhos, há uma estrutura metalingüística (do cinema com o cinema, do cinema com a literatura, do cinema com a pintura, do cinema com o teatro, da arte com a crítica) que passeia pela narrativa numa aparente batalha pela compreensão humana, pelo convívio em sociedade, pela relação conturbada entre o instinto, a criação, a crítica e a impossibilidade de desfrutar a arte sem o paradoxo da realidade amedrontar.

Em ambos os filmes, há a figura feminina como centro das incongruências dos personagens masculinos, que se sentem ou estimulados artisticamente (como é o caso do pintor em Crime Delicado), ou em processo desconexo de um ideal perfeccionista com a arte e a vida no confronto com a “imperfeição” da mulher amada (o personagem de Marco Ricca em Crime Delicado), para culminar em uma abstenção da própria arte no trato da figura feminina, quando o personagem Ciro em Cão sem Dono, apesar de possuir um grande talento artístico, encontra-se com sua namorada somente através do sexo e da carne, sendo incapaz até de lhe recitar uma poesia de amor.

Beto Brant parece ter saído, em seus filmes anteriores, de uma observação de mundo e da urbanidade na qual a cor impera e dá à violência um caráter muitas vezes onírico, para encontrar em Cão sem Dono, nos tons pastéis, nas interpretações de extremo realismo, a busca angustiante pelo sonho e pela transcendência aparentemente impossível de alcançar, no universo sufocante do personagem central, Ciro. O conflito existencial de Ciro, de aparentemente simples, traduz a busca de um ser humano em batalha constante pelo equilíbrio entre a arte e a crueza de uma vida na qual a angústia se sobrepõe ao encanto.

A pulsão de sexo, a criatividade, os momentos de silêncio e solidão nesses filmes são sempre pontuados por cenas noturnas. Como se esse tipo de representação não se adaptasse à luz do dia. Em Crime Delicado somente há dia (e conseqüentemente ausência de cor) no interrogatório criminal, e em Cão sem Dono o dia se apresenta a partir do momento em que Ciro tem de lidar com a ausência de Marcela e aproximar-se de uma rotina familiar mais conectada ao real. Dos cenários recheados de livros, de pinturas, de estímulos visuais, de uma relação visceral com a arte em contraponto com a crítica mordaz à mesma (Crime Delicado), Beto Brant parte para a quase ausência de objetos em cena, que além de interferir na intensidade de seus personagens, não se relacionam com suas questões interiores (Cão sem Dono).

Os corpos funcionam como o centro das narrativas. Para Inês (Lílian Taublib) falta uma perna e sobra feminino. Para Marcela sobra delicadeza e a ilusão de um amor de sonho. Se há completude e inteireza na perna que falta a Inês, a perna que machuca de Marcela possibilita à sua relação com Ciro uma doçura que - apesar de culminar irremediavelmente na amargura – representa a mudança. Na pintura de Crime Delicado, o corpo desnudo representa arte e encontra-se em relutância com o toque sem jeito do homem que ama, mas não consegue desnudar-se. Na nudez de Cão sem Dono, a perfeição estética de Marcela em encontro inevitável com o corpo franzino de Ciro sofrem a quebra quando há a confrontação com a fragilidade que a doença denuncia. Os corpos proporcionam e arrancam de seus personagens a possibilidade do sorriso.

A prótese e o quadro retiram do ser a estabilidade, a racionalidade de um mundo facilmente criticável e perceptível. O personagem Antônio em Crime Delicado vive uma rotina profissional que confere a ele uma postura crítica não somente em relação à arte, mas ao mundo e à forma como ele se relaciona com as pessoas. A personagem Inês chega para desestruturar Antônio de suas convicções, dizendo logo em seu primeiro diálogo que o procurou por curiosidade com a figura severa que ele representa e ao questioná-lo com relação ao que chama sua atenção primeiramente em uma mulher, afirma que é o “defeito”.

A metáfora de si próprio a partir de elementos não-humanos promove o instinto de sobrevivência em Cão sem Dono: o apartamento basicamente vazio em que vive o protagonista, o cão sem nome que perambula sozinho pelas ruas, a ausência de telefone; são todos parte de uma aparente decisão de Ciro que parece ter tomado conta de sua vida de forma tão estrita que fica difícil perceber o limite existente entre quem ele gostaria de ser e o produto que se tornou a partir de suas escolhas.

Em ambos os filmes existem diversos planos estáticos, pouca movimentação de câmera e escolhas estéticas que dialogam com a narrativa. No primeiro, o crime, de tão ‘delicado’, é teatral: câmera no tripé, ausência de movimento, de brutalidade. Ele acontece, simplesmente. Ao final, não se sabe ao certo se ele realmente ocorreu, se foi fruto de uma violência sexual ou da agressão verbal anterior ao momento específico do sexo. Em Crime Delicado, assim como em Cão sem Dono, a câmera parece “pertencer” ao personagem central. Ela acompanha Antônio em seus delírios em cima do palco e invade o corpo de Ciro no momento de sua endoscopia. Vasculha, mas não define com clareza o conflito interior de nenhum dos dois personagens. Sua indefinição é a indefinição de Antônio e Ciro em relação à arte e ao amor.

Na seqüência do encontro familiar em Cão sem Dono, a mudança de estrutura narrativa (saímos do contemplativo para o participativo) está em consonância com o estado de espírito de Ciro ao se readaptar à rotina sem Marcela e sem seu apartamento. Em determinado momento a câmera foca um personagem irrelevante - mas que poderia representar o protagonista na infância, tamanha semelhança – e faz um zoom out que revela naquele momento a participação discreta de alguém que registra a imagem e ousa movimentar-se em pequeno desconexo com a estética, para apresentar num pequeno instante, um outro tipo de realismo, no qual o protagonista sai do simulacro para a vida “real”.

Em Crime Delicado, o preto e branco nos empurra para a realidade, passeando entre a frieza do interrogatório e o carinho do pintor, que, em momento semi-documental fala de si, de sua arte, de morte e de sua musa, a qual “falta uma perna, e só”. O crítico, que fala com tanta propriedade da arte, não parece conhecê-la ou vivenciá-la por completo, tendo então a dificuldade de perceber beleza ou sutileza em algo para além do carnal. E a musa liberta-se da matéria, do protótipo de si e transcende, parecendo ter encontrado finalmente a completude na percepção de que a ausência não necessariamente configura falta.

Em Cão sem Dono, após a doença da carne, há a possibilidade de redenção através do rompimento do ciclo com a morte do cão. O cão se vai para ‘renascer’ a garota desenganada. O telefonema alegre, pela primeira vez em plano e contra-plano proporciona um final nada feliz, pois, além de ser representado em dissonância com toda uma seqüência narrativa ao longo do filme (o que pode por em dúvida se aquilo realmente aconteceu), finaliza sem finalizar, no sorriso dúbio e na resposta que a câmera não espera.

Filmes Citados:
Crime Delicado (idem, 2005/Beto Brant)
Cão sem Dono (idem, 2006/Beto Brant e Renato Ciasca)